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Introdução
Uma série de poemas isolados e dedicados a várias divindades foi reunida em coletânea
atribuída, na Antiguidade, ao poeta Homero — daí o título tradicional, hinos
homéricos (gr. Ὁμήρου
ὕμνοι). A julgar pela sua heterogeneidade, porém, os poemas são
de diferentes autores, diferentes épocas e, ainda, de diferentes regiões do mundo grego.
O metro desses hinos era o hexâmetro, o que os situa ao lado da Ilíada, da
Odisséia, dos poemas de Hesíodo e de outros poemas épicos. A julgar pelo testemunho de
Tucídides (3.104) e por outras evidências, eram eles recitados pelos rapsodos a título de
introdução ou prelúdio (ou, ainda, proêmio, gr. προοίμιον)
de solenidades religiosas ou de festivais religiosos.
Prestavam-se, naturalmente, a invocar a divindade celebrada ou homenageada na
ocasião. Muitos certamente antecediam a declamação de outros poemas ou de cantos corais, como se vê, por exemplo,
nos versos finais de alguns hinos (v.g., h. Hom. 25.6-7, às Musas):
Salve, filhas de Zeus, honrai o meu canto!
E a seguir eu me lembrarei de vós e também de outro canto.
33 hinos para 22 divindades
Eis a relação completa dos hinos da coleção, organizada em ordem alfabética, de acordo com a
divindade homenageada. O número entre parênteses indica a posição do hino nos manuscritos
medievais:
Estrutura e autoria
A extensão e a qualidade dos hinos é desigual; eles ocupam cerca de 190 páginas da edição de
Humbert (1936). O mais longo é o hino a Hermes 4, com 580 versos, e o mais curto é o hino
a Deméter 13, com apenas 3 versos.
Os hinos maiores são os mais importantes: a Deméter (h.Hom. 2), a Apolo
(h.Hom. 3), a Hermes (h.Hom. 4) e a Afrodite (h.Hom. 5). Dos
hinos curtos, os mais notáveis são um dos hinos a Dioniso (h.Hom. 7), sobre a
captura de Dioniso pelos piratas; o hino a Pã (h.Hom. 19), que mostra as atividades
do deus dos pastores nos campos e nos bosques, em plena natureza, e os hinos a Gaia,
a Hélio e a Selene, que celebram três das mais antigas divindades do panteão grego.
Apesar da grande variação na quantidade de versos, praticamente todos os hinos seguem a
seguinte estrutura em três partes: inuocatio, "invocação", apóstrofe ao deus homenageado;
pars epica, "parte épica", descrição dos atributos divinos eventualmente acompanhada do
relato de um ou mais episódios de seu mito; e precatio, "súplica", que contém uma saudação
final, uma prece e, muitas vezes, uma sequência, i.e., uma referência a um outro hino ou
poema cantado no festival.
Conhecemos o autor do mais longo dos hinos dedicados a Apolo, um rapsodo chamado Cineto de
Quios (fl. -504/-501), graças a um escólio[1] da II
Neméia de Píndaro (Sch. Pi. N. 2.1.c). West (1970) encontrou fortes evidências de que
o hino a Ares, reconhecido há anos como um intruso incluído tardiamente na coleção, foi
composto pelo filósofo neoplatônio Proclo (c. 410/485). Todos os demais são
anônimos.
Manuscritos, edições e traduções
Os hinos homéricos chegaram até nós através de muitos manuscritos, mas nenhum deles
contém todos os hinos e a maioria está em más condições. Os mais importantes são o
Leidensis 33 H (séc. XIV), da Biblioteca Universitária de Leyde; o Ambrosianus 120
(séc. XV), da Biblioteca Ambrosiana de Milão; e o Athous Vatopedi 671 (séc. XIV), da
Biblioteca do Monastério de Vatopedi. Dentre os papiros, os mais relevantes são o P. Berl.
13044 (séc. -I) e o P. Oxy. 2379 (séc. III).
A editio princeps é a de Demetrius Chalcondyles (Florença 1488), logo seguida pela
Aldina, em 1504, exceto para o h.Hom. 2, a Deméter, descoberto somente em 1777. Outras
edições antigas: Barnes (1711), Wolf (1784), Matthiae (1805), Baumeister
(1860), Gemoll (1886) e Goodwin (1893). As edições modernas mais importante são a de Allen &
Sikes (1904, 21936) e a de Humbert (1936); a mais recente é a de West (2003).
As primeiras traduções dos hinos para o português são a de Malhadas para o hino a
Deméter (1970); a de Malhadas e Moura Neves, para o hino a Apolo Délio (1976); a de
Machado Cabral para o hino a Apolo Pítio (1998); a de Marquetti, para os hinos a
Afrodite (2001); e a de Ordep Serra, para o hino a Hermes (2006). Jair Gramacho
publicou, em 2003, uma versão poética de vários hinos maiores. A primeira tradução da coleção
completa é a de Maria Lúcia G. Massi (2006), preparada para o seu doutorado.
Entre 2001 e 2008, participei de um projeto de tradução e estudo de todos os hinos homéricos,
juntamente com meus amigos da Faculdade de
Ciências e Letras de Araraquara, Sílvia Schmuziger de Carvalho, Flávia Regina Marquetti,
Fernando Brandão dos Santos, Maria Celeste Consolin Dezotti e Edvanda Bonavina da Rosa, e mais
minha colega Maria Lúcia Massi, pós-graduanda da USP. O texto foi aceito para
publicação pela EdUNESP, no fim de 2008, e aguarda sua vez no cronograma da editora.
Notas- Escólios são breves anotações nas margens de manuscritos gregos e latinos que comentam e esclarecem certas passagens do texto. Seus autores, habitualmente desconhecidos, são chamados de "escoliastas". É possível que os primeiros escoliastas tenham sido Aristóteles e seus discípulos, mas a atividade parece ter se desenvolvido sistematicamente só mais tarde, com as atividades filológicas e literárias dos eruditos ligados à Biblioteca de Alexandria (Aristófanes de Bizâncio, Aristarco, Calístrato e outros). Essas antigas "notas de rodapé" são sempre referidas em relação ao autor e ao texto que comentam. Sch. Ar. Ra. 67, por exemplo, significa "escólio / escoliasta de As Rãs de Aristófanes, verso 67".
Textos recomendados  Jair Gramacho, Hinos homéricos, Brasília, Ed. UnB, 2003.
Maria Lúcia G. Massi, Zeus e a poderosa indiferença, Tese de Doutorado em Letras Clássicas, USP, São Paulo, 2006.
Wilson A. Ribeiro Jr. (ed.), Hinos homéricos - tradução, notas e estudo, São Paulo, EdUNESP, em publicação. ReferênciasJean Humbert, Homère. Hymnes, Paris, Les Belles Lettres, 1936.
Martin L. West, The Eight Homeric Hymn and Proclus, The Classical Quarterly, v. 20, p. 300-4, 1970. Consulte também a bibliografia geral da área. RIBEIRO JR., W.A. Hinos homéricos. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0262. Consulta: 07/09/2010. |