Græcia Antiqua INTRODUÇÃOARTECIÊNCIASFILOSOFIAGEOGRAFIAHISTÓRIALÍNGUALITERATURAMITOLOGIAMÚSICARELIGIÃO

Sátiros e Sileno

 
Sátiros itifálicos

Sátiros (gr. σάτυροι, sg. σάτυρος) são antigas divindades vinculadas à fertilidade da natureza. Nos mitógrafos antigos sua origem é indefinida mas, assim como montanhas e ninfas, podem ser imaginados como primitivos desdobramentos de Gaia.

Eles eram, coletivamente, membros do tíaso, o cortejo que acompanhava o deus Dioniso. Hiperativos, estavam sempre dançando, tocando o aulos, bebendo e perseguindo ninfas e mênades. Nada faziam além disso, e o poeta do Catálogo das Mulheres chegou a dizer que eram ‘imprestáveis e incapazes de trabalhar’ (Fr. 10.18). Algumas cenas de vaso mostram, no entanto, os sátiros ajudando na colheita da uva e na preparação do vinho.

A participação dessas alegres e transgressoras figuras nas lendas gregas conhecidas é marginal e incidental (Ribeiro Jr., 2005, p. 169-70), e os únicos sátiros com mito próprio são Mársias e Sileno. Mársias está associado à invenção do aulos e a uma disputa com Apolo que terminou muito mal para ele. Muitas vezes os sátiros eram chamados de σιληνοί, ‘silenos’ (h. Ven. 262; Paus. 1.23.6; D.S. 3.72), mas em geral ‘Sileno’ (gr. Σιληνός) era um personagem específico, um sátiro muito velho que teria ajudado as ninfas a criar Dioniso depois que ele emergiu da coxa de Zeus e que certa vez recebeu auxílio do rei Midas.

Os poetas latinos e os romanos em geral confundiam os sátiros com os faunos, entidades da mitologia romana com corpo humano, chifres e pernas de bode, semelhantes ao deus grego e de comportamento razoavelmente semelhante ao dos sátiros. Seres humanos que eventualmente se encontravam em lugares distantes e ermos temiam encontrá-los.

Fontes antigas

Nem Homero, nem Hesíodo mencionam os sátiros; eles aparecem pela primeira vez no hino homérico a Afrodite e no Catálogo das Mulheres, ambos de autores desconhecidos.

Fisicamente, o aspecto geral dos sátiros era o de um homem barbudo, rústico e com detalhes físicos animalescos, e.g. orelhas pontudas, cauda de cavalo e um pênis enorme e quase sempre ereto, que sinalizava sua constante lubricidade e seus vínculos com a fertilidade da natureza. Às vezes exibiam pequenos chifres e, em representações mais antigas os membros inferiores eram iguais aos de um cavalo [Ilum. 0281h].

Os detalhes físicos variaram bastante ao longo da Antiguidade. As primeiras imagens datam do século -VI, tanto em estatuetas e relevos quanto em numerosas cenas de vasos. De forma geral, quanto mais antiga a representação, mais definidos e evidentes parecem seus atributos animalescos, e o contrário vale para as obras mais recentes. Algumas representações clássicas e helenísticas já mostram sátiros de aspecto quase humano, por exemplo a escultura conhecida por Sátiro em repouso, de Praxíteles (c. -360), e o Sátiro adormecido [Ilum. 0803], de autor desconhecido (c. -220).

Sátiros eram quase sempre representados em cenas associadas ao deus Dioniso, como a produção de vinho [Ilum. 1186] e as celebrações rituais do tíaso, mas às vezes apareciam em cenas isoladas, sozinhos ou juntamente com ninfas e mênades. Sileno era representado simplesmente como um sátiro idoso.

Variantes

As principais variantes do mito dos sátiros se referem à sua origem. O poeta do Catálogo das Mulheres relata, em um fragmento (10.10-19), que os sátiros foram gerados por Iftima[1], filha de Doro e marido de Egímio, ambos ancestrais míticos dos dórios. Nono de Panópolis, autor do poema épico Dionisíacas (sæc. IV/V), escreveu que os sátiros são filhos de Hermes e de Iftima, assim como as ninfas e os curetes (D. 14.105-17).

Xenofonte (Smp. 5.7) diz que os silenos são filhos das náiades, ninfas das águas, e Estrabon (10.3.19) lembra uma passagem atribuída a Hesíodo[2] que conta terem os sátiros nascido das hecatérides, cinco ninfas que Hecatero, divindade praticamente desconhecida, gerou com uma das filhas de Foroneu, antigo herói da Argólida.

Culto, drama satírico e influências

Platão (Lg., 815c) conta que homens e mulheres se vestiam como sátiros e ninfas, respectivamente, em ‘certos rituais de expiação e iniciação’, mas não dá outras informações. Em Élis havia um templo dedicado especificamente a Sileno, a quem se oferecia taças de vinho (Paus. 6.24.8). Não havia, aparentemente, nenhum culto especificamente dedicado aos sátiros.

Sátiros e Sileno são personagens obrigatórios dos dramas satíricos, um dos gêneros dramáticos representados em Atenas desde o final do Período Clássico e ostensivamente dedicado a Dioniso. Nesses dramas, Sileno é considerado pai dos sátiros (E. Cyc. 13; 82; 269), possivelmente uma inovação dos autores de dramas satíricos (Ribeiro Jr., 2005, p. 169-70), e com frequência pai e filhos se acovardavam diante de perigos reais ou imaginários.

Esopo (sæc. -VI) descreveu o relacionamento entre um sátiro e um homem na fábula 35; Cratino recebeu o segundo prêmio nas Leneias de -424 com a comédia Sátiros e, além dos numerosos dramas satíricos dos poetas trágicos, há numerosas menções aos sátiros / faunos na literatura antiga (e.g. Horácio, Ovídio) e moderna. Cito, entre outros, John Milton (poema Paraíso Perdido 4.705-8, 1667), Victor Hugo (poema Le satyre, 1883) e João Grave (novela O último fauno, 1906).

E Stéphane Mallarmé criou o poema L'après-midi d'un faune (1876) que inspirou, por sua vez, uma sinfonia de Claude Debussy (1862/1918) e um balé coreografado por Nijinski (1889/1950) em 1912, importantes marcos do modernismo.

A arte medieval cristã inspirou-se algumas vezes nas antigas imagens de sátiros gregos e de faunos romanos para representar o Diabo. E eles são também personagens de numerosas esculturas, estatuetas e pinturas a óleo posteriores à Renascença.

Outras iluminuras

 
Dioniso, o retorno de Hefesto e o tíaso.
 
Sátiros colhendo uvas e preparando o vinho.
 
Sátiro.
 
Sátiro e mênades.
 
Mênade e sátiro diante de um “hermes”.
 
Cântaro janiforme.
 
Sátiro agarrando mênade.
 
Hermes, Dioniso criança e Sileno.
Cidade do Vaticano, Museus Vaticanos
 
Rei Midas e acólito espreitam Sileno.
 
Moeda com sátiro e ninfa.
Coleção particular
 
Sátiro e ninfa / mênade.
 
Sátiro adormecido.
 
Ninfa e sátiro se divertem.
 
Sátiro e ninfas.

Notas

  1. Não confundir com Iftima (gr. Ἰφθίμη), filha de Icário, irmã de Penélope (Od. 4. 797-838).
  2. Trata-se com certeza do anônimo autor do Catálogo das Mulheres ou Ehoiai, poema épico de meados do século -VI atribuído a Hesíodo na Antiguidade.

Referências

Wilson A. Ribeiro Jr., ʻNotas sobre os dramas satíricos fragmentários de Eurípidesʼ, in: Fernando B. Santos e Jane Kelly Oliveira (org.), Estudos Clássicos e seus desdobramentos: artigos em homenagem à Professora Maria Celeste Consolin Dezotti, São Paulo, Cultura Acadêmica, 2015, p. 165-182. [disponível on-line]

Créditos das ilustrações

i1184Sátiros itifálicos → Ver comentários.
i1173Dioniso, o retorno de Hefesto e o tíaso → Ver comentários.
i1186Sátiros colhendo uvas e preparando o vinho → Ver comentários.
i1187Sátiro → Ver comentários.
i0641Sátiro e mênades → Ver comentários.
i1145Mênade e sátiro diante de um “hermes” → Ver comentários.
i0878Cântaro janiforme → Ver comentários.
i1185Sátiro agarrando mênade → Ver comentários.
i0293Hermes, Dioniso criança e Sileno → Ver comentários.
i1042Rei Midas e acólito espreitam Sileno → Ver comentários.
i0612Moeda com sátiro e ninfa → Ver comentários.
i1188Sátiro e ninfa / mênade → Ver comentários.
i0803Sátiro adormecido → Ver comentários.
i0294Ninfa e sátiro se divertem → Ver comentários.
i0931Sátiro e ninfas → Ver comentários.

Links externos

Imprenta

Artigo nº 1072
publicado em 03/07/2016.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Sátiros e Sileno. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=1072. Consulta: 17/08/2017.
 
Portal Grécia Antiga ISBN 1679-5709 On-line desde 04/11/1997 f   t   i   i Sobre o Portal Ajuda FAQs Mapa do site Termos de uso 30/04/2017 ← novidades Contato Outras páginas do autor
 Wilson A. Ribeiro Jr., 1997-2017