Græcia Antiqua INTRODUÇÃOARTECIÊNCIASFILOSOFIAGEOGRAFIAHISTÓRIALÍNGUALITERATURAMITOLOGIAMÚSICARELIGIÃO

Gaia e Urano, a terra e o céu

ὡς οὐρανός τε γαῖά τ' ἦν μορφὴ μία·
ἐπεὶ δ' ἐχωρίσθησαν ἀλλήλων δίχα,
τίκτουσὶ πάντα κἀνέδωκαν εἰς φάος,
δένδρη, πετεὶνά, θῆρας οὕς θ' ἅλμη τρέφεὶ
γένος τε θνητῶν.
Eurípides Fr. 484.2-6

O céu a terra eram uma só forma;
e quando se separaram um do outro, em dois,
criaram todas as coisas e levaram-nas à luz:
árvores, aves, animais, seres que o mar alimenta
e a raça dos mortais.

 
 
Céu noturno

Na teogonia hesiódica, Urano (gr. Οὐρανός) é a personificação do céu estrelado; emergiu ou se desprendeu de Gaia de modo assexuado e imediatamente a recobriu em toda a sua extensão, tornando-se então seu consorte. A partir da união entre o céu e a terra (sc. Urano + Gaia) o mundo começou, efetivamente, a tomar forma e nesse ponto a mitologia grega concorda com outras tradições antigas[1].

O domínio de Urano

Urano foi a primeira divindade a assumir o controle do universo. No início, gerou divindades poderosas, selvagens e incontroláveis, que obedeciam apenas sua própria natureza: os ciclopes e os hecatônquiros. Mais tarde ou até antes, segundo Hesíodo (Th. 132-3), gerou os titãs, ancestrais dos deuses olímpicos e dos mortais.

                Gaia --------+
                 |           |
      +----------+           +------------------+
      |          |           |                  |
      |        Urano --------+                  |
      |       /                                 |
      |  Afrodite       +-------------+---------+-----------+
      |                 |             |                     |
      |              ciclopes    hecatônquiros         Crono e Reia
      |                                                Oceano e Tétis
   +--+-------+-----------+                            Outros titãs
   |          |           |
melíades    erínias    gigantes 
Os primeiros descendentes

Os ciclopes (gr. κύκλωπες) eram três gigantes com um único olho no meio da testa e grande habilidade manual: Brontes, o trovão; Estérope, o relâmpago; e Arges, o raio.

Os hecatônquiros (gr. ἑκατόγχειρες) também eram três, igualmente gigantescos, poderosos e dotados de cem braços e cinquenta cabeças: Coto, Briaréu e Gigues.

Os titãs (gr. Τῑτᾶνες), um pouco menos selvagens que os irmãos, mas igualmente poderosos, eram Oceano, Ceos, Crios, Hipérion, Jápeto e Crono; suas irmãs, as titânides (gr. Τῑτανίδες), eram Reia, Teia, Febe, Têmis, Mnemósine e Tétis.

O pai desnaturado

Urano detestou todos os filhos desde o começo (Hes. Th. 155-6); provavelmente, também os temia. À medida que nasciam, mantinha-os sob a terra, não os deixava ver a luz, e "se deliciava com essa obra maligna" (Hes. Th. 158). Assim, após um começo enérgico, a formação do mundo havia chegado a um impasse: o potente Urano, embora tivesse gerado novas e poderosas divindades, não permitia que deixassem o interior de Gaia.

Titãs, ciclopes e hecatônquiros, presos no interior da mãe, temiam o pai e nada faziam. Gaia, porém, incomodada com a potência inútil de Urano, atulhada e ofendida, começou a conspirar contra o próprio marido.

A destituição de Urano

Um belo dia, a mãe de todos finalmente se cansou das loucuras de Urano e urdiu um astucioso plano para libertar os filhos e ao mesmo tempo se livrar do incômodo vigor do marido. Criou, em suas entranhas, o ferro mais resistente, fez com ele uma afiada foice e pediu ajuda aos filhos. Somente Crono (gr. Κρόνος), o mais novo, de "pensamentos tortuosos" (Hes. Th. 168), que odiava o pai e não o temia, concordou em ajudá-la.

Armado da foice, Crono se escondeu e à noite, quando Urano recobriu Gaia, decepou com um só golpe os genitais do pai e lançou-os no mar. Libertou, a seguir, todos os irmãos presos no interior da terra.

Os últimos descendentes

Urano continuou a cobrir Gaia diariamente, mas sem tocá-la: privado da capacidade geradora direta, "aposentou-se" e não procriou novamente.

Mas Urano era tão fértil que, mesmo sem os genitais, foi capaz de gerar outros descendentes. O esperma que caiu no mar, perto da ilha de Chipre, produziu uma espécie de espuma de onde emergu a deusa Afrodite. O sangue da ferida, ao cair sobre a terra, gerou as ninfas melíades, as erínias e, posteriormente, os gigantes.

Os hecatônquiros e ciclopes participam, basicamente, da titanomaquia; um dos hecatônquiros, Briaréu, ajudou Zeus durante a revolta dos olímpicos. A linhagem dos titãs e titânides foi a mais produtiva e é a mais importante das duas, pois foi um dos titãs, Crono, que destituiu o pai e assumiu posteriormente o controle do Universo. As erínias participam da lenda de Orestes e da lenda de Alcmeon, filho de Anfiarau.

Representações e culto

Urano, Ciclopes e Hecatônquiros não eram objeto de culto, nem habitualmente representados em obras de arte. Para as melíades, ver sinopse sobre as ninfas; para os gigantes, ver a sinopse correspondente.

Outras iluminuras

 
O ciclope.
 
Relâmpago.
In situ

Notas

  1. A separação entre o céu e a terra é um mecanismo importante na cosmogonia (lit. ‘formação do mundo’) mítica que aparece com frequência em muitas fontes não gregas, algumas consideravelmente antigas: o Livro dos Mortos egípcio (c. -1300), o Cântico de Ullikumi hurrita-hitita (-1400/-1200), o Enuma Eliš babilônico (sæc. -VII) e o Gênesis hebreu (-900/-450).

Créditos das ilustrações

i1005Céu noturno → Ver comentários.
i0440O ciclope → Ver comentários.
i0437Relâmpago → Ver comentários.

Links externos

Imprenta

Artigo nº 0659
publicado em 15/01/1999. Atualização: 28/04/2012.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Gaia e Urano, a terra e o céu. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0659. Consulta: 16/12/2017.
 
Portal Grécia Antiga ISBN 1679-5709 On-line desde 04/11/1997 f   t   i   i Sobre o Portal Ajuda FAQs Mapa do site Termos de uso 10/11/2017 ← novidades Contato Outras páginas do autor
 Wilson A. Ribeiro Jr., 1997-2017