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o céu a terra eram uma só forma;
e quando se separaram um do outro, em dois,
criaram todas as coisas e levaram-nas à luz:
árvores, aves, animais, seres que o mar alimenta
e a raça dos mortais.
Na teogonia hesiódica, Urano (gr. Οὐρανός) é a
personificação do céu estrelado; emergiu de Gaia e imediatamente a recobriu
em toda a sua extensão, tornando-se seu consorte.
A partir da união entre o céu e a terra (sc. Urano + Gaia) o mundo começou,
efetivamente, a tomar forma e nesse ponto a mitologia grega concorda com outras
tradições antigas[1]. Urano foi a primeira
divindade a assumir o controle o mundo.
A princípio, Urano gerou divindades poderosas, selvagens e incontroláveis, que
obedeciam apenas sua própria natureza: os ciclopes e os hecatônquiros.
Mais tarde ou até antes, segundo Hesíodo (Th. 132-3), gerou
os titãs, ancestrais dos deuses olímpicos e dos mortais.
Os primeiros filhos
Os ciclopes (gr. κύκλωπες) eram três
gigantes com um único olho no meio da testa e grande habilidade manual: Brontes, o
trovão; Estérope, o relâmpago; e Arges, o raio.
Os hecatônquiros (gr. ἑκατόγχειρες)
também eram três, igualmente gigantescos, poderosos e dotados de cem braços e
cinquenta cabeças: Coto, Briaréu e Gigues.
Os hecatônquiros e ciclopes participam, basicamente, da titanomaquia; um
dos hecatônquiros, Briaréu, ajudou Zeus durante a revolta dos olímpicos.
Titãs e titânides
Os titãs (gr. Τῑτᾶνες),
um pouco menos selvagens que os irmãos, mas igualmente
poderosos, eram Oceano, Ceos, Crios, Hipérion, Jápeto e Crono; suas irmãs, as
titânides (gr. Τῑτανίδες),
eram Réia, Téia, Febe, Têmis, Mnemósine e Tétis.
A linhagem dos titãs é a mais importante das duas, pois foi um deles, Crono, que
destituiu o pai e assumiu o controle do Universo.
O pai desnaturado
Urano detestou todos os filhos desde o começo (Hes. Th. 155-6);
provavelmente, também os temia. À
medida que nasciam, mantinha-os sob a terra, não os deixava ver a luz,
e "se deliciava com essa obra maligna" (Hes. Th. 158). Assim, após um começo
enérgico, a formação do mundo havia chegado a um impasse: o potente Urano, embora
tivesse gerado novas e poderosas divindades, não permitia que deixassem o interior
de Gaia.
Titãs, ciclopes e hecatônquiros, presos no interior da mãe, temiam o pai e nada
faziam. Gaia, porém, incomodada com a potência inútil de Urano, atulhada e ofendida,
começou a conspirar contra o próprio marido.
A destituição de Urano
Um belo dia, a mãe de todos finalmente se cansou das loucuras de Urano e
urdiu um astucioso plano para libertar os filhos e ao mesmo tempo se livrar do
incômodo vigor do marido. Criou, em suas entranhas, o ferro mais resistente, fez com
ele uma afiada foice e pediu ajuda aos filhos. Somente Crono (gr. Κρόνος), o mais novo, de
"pensamentos tortuosos" (Hes. Th. 168), que odiava o pai e não o temia,
concordou em ajudá-la.
Armado da foice, Crono se escondeu e à noite, quando Urano recobriu Gaia, decepou
com um só golpe os genitais do pai e lançou-os no mar. Libertou, a
seguir, todos os irmãos presos no interior da terra.
Urano continuou a cobrir Gaia diariamente, mas sem tocá-la: privado
da capacidade geradora, "aposentou-se" e não procriou novamente. Mas
esperma que caiu dos genitais cortados produziu, ao atingir o mar, a espuma de onde
saiu a deusa Afrodite. O sangue de sua ferida, ao cair sobre a terra, gerou as
ninfas melíades, as erínias e, posteriormente, os gigantes.
As erínias
As erínias (gr. Ερινύες) eram também ligadas à
terra-mãe e, nos mitos mais tardios, ajudavam a punir a sombra dos
mortos no mundo subterrâneo. Sua principal tarefa era perseguir e enlouquecer os
culpados de crimes hediondos, em geral o derramamento de sangue dentro da própria
família.
O número delas, a princípio indefinido, em épocas tardias passou a ser apenas
três: Alecto, Tisífone e Megera. As terríveis cadelas furiosas (A. Ch.
1054) estão presentes na lenda de Orestes e na lenda de Alcmeon, filho de Anfiarau,
ambas popularizadas pelos poetas trágicos.
Iconografia e culto
Urano, Montanhas, Ciclopes e Hecatônquiros não eram objeto de culto, nem
habitualmente representados em obras de arte.
Na arte, as erínias eram em geral representadas como três mulheres de ar
ameaçador, com ou sem asas. Ésquilo, na Orestéia, mostrou-as com
serpentes nos cabelos e sangue nos olhos (A. Ch. 1048-50 e
1057-8). Em Atenas, onde tinham um santuário, eram consideradas
bondosas e chamadas de Eumênides ("benévolas").
Notas- A separação entre o céu e a terra é um mecanismo importante na cosmogonia (formação do mundo) que aparece com freqüência em muitas fontes não-gregas, algumas consideravelmente antigas: o Livro dos Mortos egípcio (c. -1300), o Cântico de Ullikumi hurrita-hitita (-1400/-1200), o Enuma Elish babilônico (séc. -VII) e o Gênesis hebreu (-900/-450).
ReferênciasConsulte a bibliografia geral da área. RIBEIRO JR., W.A. Urano. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0659. Consulta: 10/09/2010. |