Sátiros e Sileno

Seção: mitologia grega1010 palavras
em Roma: faunos
iiniSátiros itifálicos

Sátiros (gr. σάτυροι, sg. σάτυρος) são antigas divindades vinculadas à fertilidade da natureza. Nos mitógrafos antigos sua origem é indefinida mas, assim como montanhas e ninfas, podem ser imaginados como primitivos desdobramentos de Gaia.

iSátiros jovens

Eles eram, coletivamente, membros do tíaso, o cortejo que acompanhava o deus Dioniso. Hiperativos, estavam sempre dançando, tocando o aulo, bebendo e perseguindo ninfas e mênades — aparentemente com certo sucesso, uma vez que vasos gregos às vezes mostram sátiros bem jovens. Nada faziam além disso, e o poeta do Catálogo das Mulheres chegou a dizer que eram ‘imprestáveis e incapazes de trabalhar’ (F 10.18). Alguns vasos mostram, no entanto, os sátiros ajudando na colheita da uva e na preparação do vinho.

iSátiros preparando vinho

A participação dessas alegres e transgressoras figuras nas lendas gregas conhecidas é marginal e incidental (Ribeiro Jr. 2005, p. 169-70), e os únicos sátiros com mito próprio são Mársias e Sileno. Mársias está associado à invenção do aulo e a uma disputa com Apolo que terminou muito mal para ele. Muitas vezes os sátiros eram chamados de σιληνοί, ‘silenos’ (Hino a Afrodite 262; Pausânias 1.23.6; Diodoro Sículo 3.72), mas em geral ‘Sileno’ (gr. Σιληνός) era um personagem específico, um sátiro muito velho que teria ajudado as ninfas a criar Dioniso depois que ele emergiu da coxa de Zeus e que certa vez recebeu auxílio do rei Midas.

Os poetas latinos e os romanos em geral confundiam os sátiros com os faunos, entidades da mitologia romana com corpo humano, chifres e pernas de bode, semelhantes ao deus grego e de comportamento razoavelmente semelhante ao dos sátiros. Seres humanos que eventualmente se encontravam em lugares distantes e ermos temiam encontrá-los.

Nem Homero, nem Hesíodo mencionam os sátiros; eles aparecem pela primeira vez no hino homérico a Afrodite e no Catálogo das Mulheres, ambos de autores desconhecidos.

Iconografia

Fisicamente, o aspecto geral dos sátiros era o de um homem barbudo, rústico e com detalhes físicos animalescos, e.g. orelhas pontudas, cauda de cavalo e um pênis enorme e quase sempre ereto, que sinalizava sua constante lubricidade e seus vínculos com a fertilidade da natureza. Às vezes exibiam pequenos chifres e, em representações mais antigas — e.g. no Vaso François (c. -570) — os membros inferiores eram iguais aos de um cavalo.

iOs sátiros do Vaso François iO sátiro adormecido

Os detalhes físicos variaram bastante ao longo da Antiguidade. As primeiras imagens datam do século -VI, tanto em estatuetas e relevos quanto em numerosas cenas de vasos. De forma geral, quanto mais antiga a representação, mais definidos e evidentes parecem seus atributos animalescos, e o contrário vale para as obras mais recentes. Algumas representações clássicas e helenísticas já mostram sátiros de aspecto quase humano, por exemplo a escultura conhecida por Sátiro em repouso, de Praxíteles (c. -360), e o Sátiro adormecido, de autor desconhecido (c. -220).

Sátiros eram quase sempre representados em cenas associadas ao deus Dioniso, como a produção de vinho [Ilum. 1186] e as celebrações rituais do tíaso, mas às vezes apareciam em cenas isoladas, sozinhos ou juntamente com ninfas e mênades. Sileno era representado simplesmente como um sátiro idoso.

Culto e drama satírico

Platão (Lg., 815c) conta que homens e mulheres se vestiam como sátiros e ninfas, respectivamente, em ‘certos rituais de expiação e iniciação’, mas não dá outras informações. Em Élis havia um templo dedicado especificamente a Sileno, a quem se oferecia taças de vinho (Pausânias 6.24.8). Não havia, aparentemente, nenhum culto especificamente dedicado aos sátiros.

Sátiros e Sileno são personagens obrigatórios dos dramas satíricos, um dos gêneros dramáticos representados em Atenas desde o final do Período Clássico e ostensivamente dedicado a Dioniso. Nesses dramas, Sileno é considerado pai dos sátiros (Eurípides, Ciclope 13; 82; 269), possivelmente uma inovação dos autores de dramas satíricos (Ribeiro Jr. 2005, p. 169-70). Pai e filhos se acovardavam frequentemente diante de perigos reais ou imaginários.

As principais variantes do mito dos sátiros se referem à sua origem. O poeta do Catálogo das Mulheres relata, em um dos fragmentos (10.10-19), que os sátiros foram gerados por Iftima[1], filha de Doro e marido de Egímio, ambos ancestrais míticos dos dórios. Nono de Panópolis, autor do poema épico Dionisíacas (sæc. IV/V), escreveu que os sátiros são filhos de Hermes e de Iftima, assim como as ninfas e os curetes (D. 14.105-17).

Xenofonte (Smp. 5.7) diz que os silenos são filhos das náiades, ninfas das águas, e Estrabon (10.3.19) lembra passagem atribuída a Hesíodo[2] que conta terem os sátiros nascido das hecatérides, cinco ninfas que Hecatero, divindade praticamente desconhecida, gerou com uma das filhas de Foroneu, antigo herói da Argólida.

Esopo (sæc. -VI) descreveu a amizade entre um sátiro e um homem na fábula 35; Cratino recebeu o segundo prêmio nas Leneias de -424 com a comédia Sátiros e, além dos numerosos dramas satíricos dos poetas trágicos, há muitas menções aos sátiros / faunos na literatura antiga (e.g. Horácio, Ovídio) e moderna. Cito, entre outros, John Milton (poema Paraíso Perdido 4.705-8, 1667), Victor Hugo (poema Le satyre, 1883) e João Grave (novela O último fauno, 1906).

E Stéphane Mallarmé criou o poema L'après-midi d'un faune (1876) que inspirou, por sua vez, uma sinfonia de Claude Debussy (1862/1918) e um balé coreografado por Nijinski (1889/1950) em 1912, importantes marcos do modernismo.

A arte medieval cristã inspirou-se algumas vezes nas antigas imagens de sátiros gregos e de faunos romanos para representar o Diabo. E eles são também personagens de numerosas esculturas, estatuetas e pinturas a óleo posteriores à Renascença.