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O início dos jogos em Olímpia

 
Trípode de bronze

De acordo com tradições compiladas inicialmente por Hípias de Élis no final do século -V, os Jogos Olímpicos começaram em -776[1] no santuário de Zeus em Olímpia, Élida, um pouco a oeste de Pisa e pouco menos de 300 estádios (cerca de 40 km) a sudeste de Élis (Strab. 8.3.30), a mais importante pólis da região.

E dessa data em diante, a cada quatro anos, atletas de toda a Grécia se encontravam em Olímpia para competir e, concomitantemente, homenagear o deus do santuário.

Não se pode afirmar com certeza que jogos atléticos eram regularmente disputados em festivais religiosos da Grécia da Idade das Trevas, como quer a tradição, mas é provável que algum tipo de competição atlética existia desde os últimos séculos do Período Micênico, pelo menos.

Acredita-se atualmente que os jogos olímpicos, no formato conhecido pelos gregos do Período Clássico, tiveram início quase um século depois da data tradicional, cerca de -700 (Christesen, 2010) ou pouco depois. Dispomos de evidências míticas, literárias e arqueológicas — estas, coincidência ou não, precisamente da antiga Olímpia.

Mitos

Pausânias fornece várias informações sobre a origem mítica dos jogos. Em uma delas (5.7.6-7), o mais velho dos dáctilos do Monte Ida[2] — que incidentalmente se chamava Héracles — teria dado início aos jogos. Em outra (5.7.10), foi o próprio Zeus quem instituiu a competição para comemorar sua vitória sobre o titã Crono, que tinha um templo em Olímpia (Paus. 5.7.6).

Conta-se que o herói Pélops reinou ali perto, em Pisa, e que teria instituído os jogos para comemorar a vitória na corrida disputada contra Enômao, o rei anterior. Ou ele só organizou jogos fúnebres para Enômao (Phleg. FGH 257 F 1), ou então celebrou com magnificência jogos instituídos anteriormente (Paus. 5.8.2). Píndaro (O. 1.93-6) recorda, além disso, que algumas provas eram disputadas em sua homenagem.

Também de acordo com Píndaro (O. 2.2-4; 3.11-35; 6.67-9 e 10.24-59), foi Héracles, filho de Zeus, quem instituiu os jogos após derrotar Augias, rei de Élis, por ocasião de seu 5º trabalho. Essa é uma das versões mais aceitas pelos antigos, mas há muitas outras, especialmente em autores tardios (e.g. Paus. 5.8.1-4), que situam diversas instâncias da competição em Olímpia entre o dilúvio de Deucalião e a vinda de Héracles, o filho de Zeus.

Muito interessante é o mito que conta o nascimento da ἐκεχειρία, o ‘armistício’, a trégua sagrada que estabelecia a cessação de hostilidades entre as póleis e garantia o livre acesso dos competidores a Olímpia por ocasião dos jogos dos Períodos Arcaico e Clássico. As competições dos tempos mais remotos haviam cessado logo após o reinado de Óxilo em Élis, personagem associado à invasão dos dórios / retorno dos heraclidas, mas uma série de pragas e desastres naturais motivou uma consulta de seus sucessores ao Oráculo de Delfos, que recomendou o restabelecimento dos jogos. Os reis Ífito de Élis (descendente de Óxilo), Licurgo de Esparta e Clêomenes de Pisa (Paus. 5.4.5 e 5.8.5; Phleg. FGH 257 F 1) teriam sacramentado o retorno dos jogos em -828 ou -824.

Como bem disse Estrabon (8.3.30), todas as versões são bem pouco críveis... mas elas podem refletir, desconsideradas as figuras míticas envolvidas, uma sequência razoável de antigas tradições orais.

Literatura

Fora da esfera dos deuses e semideuses, talvez já no terreno de tradições orais mais definidas, a Ilíada (23.257-897) e a Odisseia (8.100-249) descrevem competições atléticas relativamente complexas, como pancrácio, boxe, corrida a pé, corrida de carruagens e arremesso de disco, presentes nas competições atléticas do Período Arcaico em diante, ao lado de outras como combate armado e tiro ao alvo com flechas. Enquanto os jogos da Odisseia refletem apenas um lazer aristocrático, os da Ilíada eram de natureza fúnebre e foram promovidos por Aquiles para homenagear seu amigo Pátroclo, morto em combate.

Essas e outras descrições de Homero (Il. 23.629-45) sugerem, segundo os historiadores, que os jogos atléticos da Idade das Trevas devem ter se originado de jogos fúnebres em homenagem a falecidos ilustres, como Pátroclo e Pélias (Apollod. 3.9.2), no terreno do mito, e Anfidamas de Cálcis (Hes. Op. 654-7), morto por volta de -700, no alvorecer da história escrita.

Sem dúvida é possível que os poemas homéricos evoquem memórias do início do Período Arcaico nessas elaboradas descrições, mas podem igualmente refletir práticas mais simples e bem mais antigas. O poeta da Ilíada informa, por exemplo, que prêmios eram concedidos em corridas por ocasião de sacrifícios (Il. 22.157-161), a meu ver origem bem mais plausível para as competições atléticas da Idade das Trevas.

Note-se que os registros tradicionais apontam que, nas 13 primeiras olimpíadas (de -776 a -728), uma curta corrida a pé (gr. στάδιον) era a única modalidade esportiva disputada em Olímpia. Segundo Filóstrato (Gym. 5), essa modalidade começou quando homens de Eleia colocavam os sacrifícios no altar e depois corriam até lá, sobre uma simples pista de terra, para determinar quem teria a honra de acender o fogo. O vencedor dessa corrida se tornava, então, Ὀλυμπιονίκη, ‘vencedor em Olímpia’. De acordo com Pausânias (5.8.6) e Eusébio (Chronicon, p. 191), o vencedor do estádio na 1ª Olimpíada foi Corebo de Élis (gr. Κόροιβος Ἠλεῖος), um cozinheiro (Ath. 9.382b), porém as duas informações são suspeitas.

Outras possibilidades contempladas por antropólogos e historiadores modernos, como danças e outras atividades desenvolvidas durante antigos rituais de fertilidade, de iniciação, de caça, etc. (ver Kyle, 2015, p. 99-100), a meu ver são bastante remotas, devido à sua tênue conexão com práticas religiosas e esportivas dos tempos históricos. Apenas uma delas, a do antagonismo natural entre os antigos frequentadores dos santuários (Kyle apud Gardiner, 2015, p. 100), me parece ter mérito.

Arqueologia e história

A partir do século -XI, evidências arqueológicas comprovam a crescente atividade cultual nos santuários gregos, muitos dos quais já existiam no Período Micênico. Oferendas como estatuetas de terracota e de metal, trípodes, pinos, fíbulas, joias e outras peças refletem a frequência dos fiéis nesses santuários.

Olímpia existia já no Heládico Antigo (Fig. 1142), mas não há sinais de culto anteriores à Idade das Trevas. As primeiras oferendas votivas datam do século -X e somente no século -IX aparecem caldeirões e trípodes de bronze em quantidade cada vez maior. Como revelam os poemas homéricos, esses objetos eram de grande valor (Od. 13.13-15) e, nos jogos fúnebres de Pátrocolo, Aquiles deu uma trípode ao primeiro colocado na prestigiosa corrida de carruagens (Il. 23.259-65). Em tempos históricos, o poeta Hesíodo (Op. 654) recebeu também uma trípode como prêmio.

A análise desses e de outros objetos revelou que eles foram criados em outras partes da Grécia, indicando assim aumento da afluência de membros de outras comunidades ao santuário, inicialmente rústico e de importância apenas local. Somente no final do século -VIII se nota um aumento na quantidade de poços em Olímpia, certamente perfurados para atender o aumento do fluxo de fiéis.

Há, portanto, sinais inconfundíveis do crescente florescimento do culto às divindades entre -900 e -800. A julgar pelos mitos e por dados dos tempos históricos, Gaia e Crono — e talvez Hera, em seu aspecto de deusa-mãe — eram os mais antigos deuses cultuados em Olímpia (Gardiner, 1910, p. 38). Zeus deve ter suplantado as outras divindades em algum momento da Idade das Trevas, pois no início do Período Arcaico era ele o mais importante dos deuses do santuário. O culto heroico a Pélops é posterior a -700.

Evidências arqueológicas do aumento das atividades cultuais, mitos e tradições atestadas tardiamente não indicam, por si só, que competições atléticas ocorriam de forma sistematizada antes de -700. Elas devem ter surgido de forma natural e aos poucos, a partir dos encontros e confraternizações entre os fiéis no santuário de Olímpia, possivelmente na forma de corridas a pé iguais às descritas na Ilíada (22.157-161) e recordadas, posteriormente, como os primeiros eventos esportivos dos Jogos Olímpicos.

Créditos

Fig. i1074. ESBOCOAUTORPORTAL.

Outras iluminuras

 
Estrutura apsidal do Heládico Antigo.
In situ
 
O estádio de Olímpia.
In situ
 
O Monte Cronion.
In situ
 
Herói enfrenta centauro.
 
Égua amamentando potro.

Notas

  1. -776, data propalada por Pausânias (sæc. II), Flegon de Trales (sæc. II), Sextus Julius Africanus (160/240) e Eusébio (c. 265/340), se tornou universalmente aceita na Antiguidade tardia. Alguns autores antigos propuseram, no entanto, datas diferentes... na cronologia moderna, são as seguintes:
    Dicearco (-350/-285) = -677
    Timeu (-345/-250) = -655
    Eratóstenes (-285/-194) = c. -665
    Eretes (sæc. -III?) = -558
    Sosíbio (sæc. -III?) = -677
    Velleius Paterculus (-19/31) = -793
    Clemente de Alexandria (150/215) = -734
    Solino (sæc. III) = -654
  2. Os dáctilos (gr. δάκτυλοι, ‘dedos’) eram seres fabulosos, de origem indefinida, associados ao Monte Ida (Creta) e à descoberta do ferro. Foram convocados por Reia para ajudar a cuidar do bebê Zeus, que ela escondera das devoradoras inclinações do marido, Crono. O mais velho deles se chamava Héracles.

Referências

Donald G. Kyle, Sport and Spectacle in the Ancient World, Chichester, John Wiley & Sons, 22015. Edward Norman Gardiner, Greek athletic sports and festivals, London, MacMillan and Co., 1910. Paul Christesen, Whence 776? The Origin of the Date for the First Olympiad, in Zinon Papakonstantinou (ed.), Sport in the Cultures of the Ancient World: New Perspectives, Oxon, Routledge, 2010, p. 13-34.

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Artigo nº 1074
publicado em 07/07/2016.
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RIBEIRO JR., W.A. O início dos jogos em Olímpia. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=1074. Consulta: 28/04/2017.
 
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