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A Teogonia (lit. "o nascimento dos deuses"), é um poema épico (metro:
hexâmetro dactílico) que detalha a origem e genealogia dos deuses gregos.
Tradicionalmente atribuído a Hesíodo, a data de composição (c.
-700) é tão imprecisa quanto a data em que o poeta deve ter vivido.
A idéia em si não é original, pois já havia sido desenvolvida pelos egípcios
(séc. -XXIV), pelos babilônios (-2000/-1500) e pelos
hititas (-1400/-1200) muitos anos antes (ver Supplementa). Hesíodo, no entanto, foi o
primeiro a sistematizar os antigos mitos da criação e a organizar os mitos gregos
numa sequência lógica. De certa forma, a Teogonia é o mais antigo tratado de
mitologia grega que chegou até nós.
Hipótese
Não há nenhuma intenção dramática ou enredo, e sim um plano expositivo. Hesíodo
descreve a criação do mundo e a seguir relaciona, cronologicamente, cada uma das
gerações divinas. O argumento gira em torno de três temas básicos:
- a criação do mundo, ou cosmogonia;
- genealogia das gerações divinas, ou teogonia propriamente
dita;
- a ascensão de Zeus ao poder.
Segundo Timothy Ganz (1993), o poeta pretendia contrastar a "desordem" do
cosmo durante o domínio dos deuses primordiais e dos titãs, com a "ordem" cósmica que
imperava em seus dias, determinada por Zeus e pelos demais deuses olímpicos.
Segundo a cronologia hesiódica, os deuses olímpicos pertenciam à 3ª geração e
eram governados por Zeus, cuja história se desenvolve em boa parte do poema.
Hesíodo, no entanto, vai além da simples enumeração e habilmente entremeia a árida
sucessão de deuses e deusas com raros, curtos mas elucidativos trechos dos antigos
mitos.
Resumo do poema
O poema tem 1022 versos hexâmetros e ocupa 39 páginas da edição de
Evelyn-White (1920), na qual se baseia o resumo. O narrador é o
próprio poeta.
Após uma invocação às Musas, Hesíodo relata como as deusas inspiraram seu canto
ao cuidar de ovelhas perto do Monte Hélicon (1-35); a origem das musas,
filhas de Zeus, é também contada (36-115).
Segue-se a origem dos primeiros deuses, que personificavam os elementos
primordiais do Universo (116-153): Caos, o vazio primitivo; Gaia, a
terra; Tártaro, a escuridão primeva; Eros, a atração amorosa. Os descendentes
imediatos são também relacionados: Hemêra, o dia; Nix, a noite; Urano, o céu; Ponto,
a água primordial.
Os mais notáveis descendentes de Urano e Gaia foram os titãs, como Crono,
Oceano, a água doce, Jápeto e o gigantesco Ceos; as titânides, como Têmis, a
lei, e Mnemósine, a memória; os ciclopes, que tinham um único olho; e os
hecatônquiros, gigantes com cem braços e cinquenta cabeças.
Depois, o poeta descreve como Crono assumiu o poder (154-200) e
inadvertidamente deu origem a Afrodite, deusa do amor sensual; relaciona os
descendentes de Nix, entre eles Tânato, a morte, Hipno, o sono, e Oneiro, o sonho
(211-232); os descendentes de Ponto (233-336), entre eles
Nereu, o mais antigo deus do mar e pai das nereidas e Fórcis, progenitor de
monstros como as Górgonas, Equidna, com tronco de mulher e cauda de serpente, e a
Esfinge; os descendentes de Oceanos (337-403), entre eles os rios e
fontes, as ninfas da terra firme, os ventos, Métis, a sabedoria, e Hélio, o
sol; os descendentes de Ceos (404-452), especialmente Hécate, a
dádiva.
A história de Zeus, filho de Crono, e como conseguiu destronar o pai é contada
nos versos 453-506. A lenda de Prometeu, filho de Jápeto, e a criação
da primeira mulher são relatadas nos versos 507-616. Nos versos
617-721 é descrita a titanomaquia, luta entre Zeus e os
titãs pelo domínio do mundo. Auxiliado entre outros por seus irmãos Hades e
Posídon, pelos ciclopes e pelos hecatônquiros, Zeus vence os
titãs e os prende no Tártaro, descrito juntamente com o mundo subterrâneo nos
versos 722-819.
Vencidos os titãs, Zeus teve ainda de enfrentar e vencer o monstruoso
Tífon, filho de Gaia e Tártaro (820-880), mas logo depois consegue se
tornar o soberano supremo dos deuses. Algumas de suas aventuras com deusas e mortais
são descritas nos versos 881-964, e notável é a lenda da filha de Zeus
e Métis, Atena, que ao nascer saiu da cabeça de Zeus. Nos versos
965-1020 são descritos os amores entre as deusas e os mortais.
Os dois últimos versos, 1021-1022, contêm uma nova invocação às
Musas e ligam a Teogonia a um poema autônomo perdido, o Catálogo das
Mulheres, do qual restam apenas alguns fragmentos. Os especialistas atribuem
atualmente essa obra a um poeta anônimo do século -VI, e não a
Hesíodo.
Manuscritos, edições, traduções
Numerosos manuscritos completos e diversos fragmentos significantes de papiros
chegaram até nós. Os mais antigos manuscritos são o Rylands 54, de Manchester
(séc. -I/I), o Laurentianus xxxii 16, da Biblioteca Laurenciana
de Florença (séc. XIII); o Vaticanus 915, da Biblioteca do Vaticano (séc.
XIV); e o Parisinus 2883, da Biblioteca Nacional de Paris (séc. XV).
A edição princeps é a aldina, de 1495. As principais edicões modernas são
as de Gaisford (1814/1820), Koechly e Kinkel (1870), a de Rzach (1902),
a de Evelyn-White (1914) e a de Mazon (1928). A mais moderna e a mais
utilizada atualmente é a de Solmsen (1966); aqui, foi utilizada a edição revisada de
Evelyn-White.
A primeira tradução completa da Teogonia para o português é a de JAA Torrano
(1981), recentemente reeditada (Iluminuras, 1991). Mais recentemente ainda, o texto foi
traduzido por Pinheiro e Ferreira (2005).
Textos recomendados  A.E. Pinheiro & J.R. Ferreira, Hesíodo. Teogonia / Trabalhos e Dias, Lisboa, Imprensa Nacional, 2005.
JAA Torrano, Hesíodo, Teogonia: a origem dos deuses, São Paulo, Iluminuras, 1991. ReferênciasConsulte a bibliografia geral da área. RIBEIRO JR., W.A. Teogonia, de Hesíodo. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0085. Consulta: 20/05/2013. |