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Nix: a noite e sua sombria linhagem

 
Nyx e Hélio
ὦ Νὺξ ἱερά,
ὡς μακρὸν ἵππευμα διώκεις
ἀστεροειδέα νῶτα διφρεύουσ'
αἰθέρος ἱερᾶς
τοῦ σεμνοτάτου δι' Ὀλύμπου.

ó sagrada Nix,
como é longo o caminho que, de carruagem,
percorres no dorso estrelado
do sagrado éter,
através do reverendíssimo Olimpo.

Nix, um dos três aspectos míticos das trevas primitivas, foi a quinta entidade a emergir depois de Caos.

Natureza e origem

Nix (gr. Νύξ) estava presente no Universo antes da existência da luz e da escuridão que existem atualmente. Não havia céu, sol, lua e estrelas, entidades geradas posteriormente por Gaia.

Érebo e Tártaro, os dois outros aspectos das trevas iniciais, já existiam[1]. Nix representa a escuridão da noite, que se percebe acima de Gaia.

O poeta da Ilíada a descreve “dominadora de deuses e mortais”, altamente respeitada pelos outros deuses, Zeus incluído.

Eurípides, Aristófanes e outros poetas a veem como deusa alada, vestida de negro, utilizando uma carruagem para cruzar o éter (ou céu) noturno, acompanhada pelas estrelas.

A união de Érebo e Nix

Érebo e Nix surgiram depois de Eros e, imediatamente após o aparecimento de Nix, Hesíodo conta que ela e Érebo se “uniram em amor”. Isso significa, naturalmente, que a união foi de natureza sexual, a primeira da criação.

Nix, Éter e Hemera

Graças a essa união nasceram duas novas entidades primordiais, Éter e Hemera; com isso, a luz brilhou pela primeira vez no Universo.

Hesíodo também conta que o palácio de Nix fica no Tártaro, perto de onde Atlas sustenta o céu. Ao entrar e sair diariamente, Nix saúda sua filha Hemera; as duas não ficam no palácio ao mesmo tempo.

Ilíada 14.258-61; Hesíodo (Teogonia 123-5 e 211-32); Eurípides, Andrômeda F 114, Orestes 175-6 e Íon 1150; Aristófanes, Tesmoforiantes 1065-9 (epígrafe); Virgílio, Eneida 5.721, 738-9 e 835-6; Estácio 1.498-510; Pausânias 1.40.1, 5.18.1 e 10.38.3.

A sombria linhagem de Nix

Depois da união com Érebo, Nix gerou sozinha grande quantidade de descendentes, todos eles personificações ou alegorias que representavam forças sombrias, destrutivas ou negativas de grande influência na vida dos mortais.

Eis o catálogo, de acordo com Hesíodo:

Apáte (gr. Ἀπάτη), o engano
Éris (gr. Ἔρις), a discórdia
Filótes (gr. Φιλότης), a amizade
Geras (gr. Γῆρας), a velhice
Hespérides (gr. Ἑσπερίδες)
Hipno (gr. Ὕπνος), o sono
Hýbris (gr. ὕβρις), a desmedida
Lissa (gr. Λύσσα), a raiva ou fúria
Moiras (gr. Μοῖραι), os destinos
Momo (gr. Μῶμος), a crítica
Moro (gr. Μόρος), o quinhão
Nêmese (gr. Νέμεσις), a retribuição
Oizus (gr. Οἰζύς), a miséria
Oniro (gr. Ὄνειρος), o sonho
Quer (gr. Κήρ) ou Queres (gr. Κῆρες)
Tânato (gr. Θάνατος), a morte

Uma das filhas, Éris, deu origem a várias outras entidades igualmente sombrias, também sem se unir a ninguém.

Variantes

Aristófanes (Aves 693-7) conta que Érebo e Nix geraram um ovo do qual emergiu Eros.

Segundo [Higino] (Histórias prefácio 1.1-2), Érebo, Nix e Éter vieram de Caos e Caligo, a ‘Escuridão’.

Em uma das confusas Teogonias órficas, Nix é a primeira divindade e dá origem a Cronos, o tempo, que gera Éter, que forma o ovo cósmico. Da união entre Fanes e Noite vieram a Terra e o Céu (Teogonia rapsódica, F 105-62 B e 174-91 B).

No hino órfico 7.3, as estrelas são filhas da negra noite.

Há outros catálogos dos sombrios filhos de Nix, com mãe e pai às vezes diferentes, em [Apolodoro] e [Higino].

Iconografia e culto

Em cenas de vasos, Nix usualmente conduzia uma carruagem, às vezes entre representações de Hélio, o sol, e de Selene, a lua, nem sempre com asas. Em raras imagens e nos relevos do altar de Zeus em Pérgamo, porém, era representada por uma simples figura feminina, sem atributos específicos.

Pausânias conta que havia uma estátua de Nix em Éfeso e que ela tinha um oráculo na acrópole de Mégara. Não havia templos dedicados a ela, mas em Roma rituais eram praticados em sua homenagem.

Recepção

“A Noite”, de Pedro Américo

Desde Homero, Nix é muito citada pelos poetas e inspirou um dos mais belos (e sombrios) poemas de Álvaro de Campos (Dois Excertos de Odes, 1914).

Frederico Lourenço, em sua tradução do Íon de Eurípides (Lisboa, Colibri, 1994, p. 97), notou uma certa semelhança entre a descrição de Eurípides e os vv. 1-5 do poema de Álvaro de Campos:

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Há um hino órfico dedicado a Nix (nº 3), que tem importante papel nas cosmogonias órficas

Vários artistas modernos criaram representações de Nix, dentre eles John Flaxman (1793), Bertel Thorvaldsen (1815), Jean-Léon Gérôme (1850-1855), Auguste Raynaud (1845-1937), Gustave Moreau (1880) e Pedro Américo (1883).

Em 1980, um dos asteroides que cruza o cinturão de Marte foi denominado 3908 Nyx em sua homenagem. Em 1997, uma das montanhas ou picos de Vênus recebeu também o nome Nyx. Em 2006, com outra grafia (Nix), o mesmo nome foi usado para uma das cinco luas do planeta anão Plutão.

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