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Antíope, Anfíon e Zeto

 
Anfíon e Zeto

Os gêmeos Anfíon (gr. Ἀμφίων) e Zeto (gr. Ζῆθος), equiparáveis aos dióscuros (E. Ph. 606), eram filhos de Zeus e de Antíope (gr. Ἀντιόπη), filha ou esposa de Nicteu[1], rei da antiga Tebas.

Antíope e Zeus

Zeus se enamorou de Antíope e assumiu a forma de um sátiro para se unir a ela (Sch. A.R. 4.1090), E. F 210, Ov. Met. 6.135-42), contra sua vontade. Com medo do pai / marido, Antíope se refugiou junto a Epopeu, rei de Sicíon, que a desposou pouco tempo depois.

Nicteu se matou, desesperado, mas antes encarregou o irmão, Lico, de vingar a honra da família. Lico, agora rei, atacou Sicíon, matou Epopeu e levou Antíope prisioneira para Tebas. Em Eleuteras, perto do Monte Citéron, entre a Ática e a Beócia, nasceram os dois gêmeos; Anfíon era filho de Zeus e Zeto, de Epopeu (Asius F 1). Lico obrigou Antíope a expor as crianças no Monte Citeron, mas elas foram salvas por pastores, que acolheram e criaram os meninos.

O reencontro

De volta à Cadmeia[2], Lico entregou Antíope a Dirce (gr. Δίρκη), sua esposa, que a maltratava de várias formas, mantendo-a constantemente acorrentada. Posteriormente, quando Anfíon e Zeto estavam já bem crescidos, Antíope conseguiu escapar com a ajuda de Zeus. Ela se dirigiu a Eleuteras e encontrou acidentalmente os dois filhos, mas foi alcançada (ou encontrada por acaso) por sua algoz.

Dirce exigiu que os pastores entregassem a ela a “escrava fugitiva” e os dois já iam obedecer a rainha quando o pastor que cuidara deles reconheceu Antíope e avisou os irmãos a tempo. Para castigar Dirce pelos maus tratos à mãe, Anfíon e Zeto então a amarraram nos chifres de um touro selvagem.

Pouco depois da morte da rainha, Lico apareceu à sua procura e só não morreu às mãos de Anfíon devido à intervenção de Hermes, que o fez renunciar ao trono de Tebas em favor dos sobrinhos (E. F 223.67-103).

Edificações e casamentos

Zeto era forte, ativo e apreciava caçar e cuidar dos rebanhos; Anfíon era mais contemplativo e tinha grande talento musical. Seu meio-irmão Hermes o presenteou com uma lira, ensinou-o a tocar e logo Anfíon aperfeiçoou o instrumento, acrescentando-lhe três cordas.

Os dois, juntos, ergueram muros em torno da Cadmeia, e foram os primeiros a fazê-lo (Od. 11.260-5). Segundo a tradição, enquanto Zeto carregava as pedras nas costas, Anfíon conseguia movê-las cantando e tocando a lira, e ainda as fazia assumir a devida posição nas muralhas (Eh. F 182; E. Ph. 115-6 e 822-8; A.R. 1.740). Segundo Eumelo de Corinto (Eumel. F 30), os animais também o seguiam, quando tocava. Eurípides (F 223.86-8) acrescentou que as Sete Portas de Tebas foram construídas pelos irmãos nessa oportunidade.

A morte de Anfíon

Anfíon se casou com Níobe, filha de Tântalo, rei da Lídia, e teve muitos filhos e filhas (os nióbidas). Zeto se casou com Tebe, ninfa da fonte homônima e uma das fihas de Asopo, e foi em sua homenagem que Tebas recebeu o nome (B. 9.54; Apollod. 3.5.6). Anfíon se matou ou foi morto por Apolo, depois que o deus e sua irmã Ártemis mataram os nióbidas (ver a sinopse Níobe). As fontes antigas nada dizem sobre a morte de Zeto mas, segundo a tradição, os dois irmãos foram sepultados juntos (Paus. 10.32.11) em Tebas.

Variantes

Segundo Pausânias (2.6.2), Nicteu atacou Sicíon, mas morreu durante a luta e seu irmão Lico assumiu o trono e sua vingança contra Antíope e Epopeu.

Pausânias (9.17.6-7) conservou também uma versão provavelmente tardia na qual Antíope foi enlouquecida por Dioniso por ter contribuído para a morte de Dirce, grande devota do deus. Antíope errou por várias regiões da Beócia, como as prétides, até que Foco, neto de Sísifo e herói epônimo da Fócida, curou-a e a desposou. Quando morreram, os dois foram enterrados juntos.

Fontes e culto

O mito remonta aos poemas homéricos, a Eumelo de Corinto e a Ásio (ver n. 1 infra e o texto da sinopse). Há muitas outras referências esparsas (e.g. Catálogo das Mulheres, Metamorfoses de Ovídio) e escólios (e.g do escoliasta de Apolônio de Rodes), mas as fontes principais são os fragmentos da Antíope, tragédia de Eurípides representada c. -410, a Biblioteca do Pseudo-Apolodoro e Pausânias (referências supra).

Antíope, Anfíon e Zeto eram honrados em Tebas como heróis, e lá havia pelo menos um templo dedicado ao culto de Anfíon, o Ampheum (X. HG 5.4). Em Sicíon, Antíope tinha uma imagem criselefantina e era cultuada no templo de Afrodite (Paus. 2.10.4).

Dirce era, primitivamente, a náiade de uma fonte tebana, próxima à Cadmeia[3], cujas águas haviam sido consagradas a Dioniso. Posteriormente, dizia-se que Dioniso havia criado a fonte em homenagem a Dirce.

Representações e influências

As primeira obras gregas de arte influenciadas pelo mito são três vasos da Magna Graecia, datados do século -IV. Os três mostram, basicamente, o suplício de Dirce e é esse também o tema mais utilizado em pinturas e esculturas do Período Helenístico e do Período Greco-romano. As obras mais conhecidas em nosso dias são o Touro Farnese, grupo escultório datado do final do século -II, alguns afrescos em Pompeia (sæc. I) e alguns mosaicos romanos mais tardios.

A representação do encontro de Antíope e Zeus, na forma de sátiro, foi tema relativamente comum entre os artistas neoclássicos, especialmente pintores como Van Dick, Rembrandt, Watteau, Correggio, Goltzius, Ticiano e Pussin, entre outros. Dirce foi representada sozinha, na escultura, por Antonio Canova (1757/1822) e por Lorenzo Bartolini (1777/1850) no início do século XIX.

A versão euripidiana do mito influenciou Platão, que cita diversas passagens da Antíope no diálogo Górgias (484e-486c), uma tragédia atribuída ao filósofo Diógenes de Sinope (-412/-323, F 7) e uma comédia intermediária de Êubulo (fl. -376/-372) intitulada Antíope. Em Roma, Eurípides também influenciou a tragédia Antiopa, de Pacúvio (-220/-130), da qual temos alguns fragmentos, e as Fabulae 7 e 8 do Pseudo-Higino (sæc. I/II).

Em tempos modernos a influência do mito é também razoável: há poemas, balés, óperas, romances e até um concerto para violino, o Violin Concerto No.2 “Amphion” (1971) de Iain Hamilton (1922/2000).

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