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Sísifo

ἔστι πόλις Ἐφύρη μυχῶι Ἄργεος ἱπποβότοιο,
ἔνθα δὲ Σίσυφος ἔσκεν, ὃ κέρδιστος γένετ' ἀνδρῶν.
Ilíada 6.152-3

Há uma cidade, Éfira, no meio da Argos apascentadora de cavalos;
lá viveu Sísifo, o mais ardiloso dos homens.

 
 
Ájax, Sísifo e a pedra

Sísifo (gr. Σίσυφος), mítico fundador de Éfira, nome antigo da cidade de Corinto, foi o mais astuto dos mortais e a parte mais importante de seu mito se refere ao castigo infligido a ele pelos deuses.

Ele viu, acidentalmente, Zeus raptar Egina, filha do Rio Asopo, e delatou o raptor ao pai da moça em troca de uma nascente que Asopo fez brotar na cidadela de Corinto. A versão mais corrente diz que Zeus, encolerizado, imediatamente enviou Tânato, a morte, para buscá-lo, mas de algum modo Sísifo conseguiu enganar e prender Tânato. Como depois disso ninguém morria, Hades estrilou e Zeus precisou providenciar a libertação de Tânato. Livre, Tânato imediatamente capturou seu captor e Sísifo teve que baixar ao Hades.

O precavido Sísifo, no entanto, avisara a esposa Mérope para não prestar-lhe as usuais honras fúnebres, de modo que Hades, indignado, não podia recebê-lo no mundo subterrâneo. Sísifo desculpou-se humildemente com o deus e garantiu-lhe que, se pudesse voltar, puniria a “sacrílega” esposa por sua impiedade e resolveria o problema. O deus concordou, e o espertalhão voltou tranquilamente ao mundo da superfície e viveu até idade bastante avançada. Teve um filho, Glauco, que foi o pai do herói Belerofonte.

Algum tempo depois, o mais esperto e bem-sucedido ladrão da Grécia, Autólico, filho de Hermes e vizinho de Sísifo, tentou roubar-lhe o gado. As reses desapareciam sistematicamente sem que se encontrasse o menor sinal do ladrão, porém Sísifo ficou desconfiado porque o rebanho de Autólico aumentava à medida que o seu diminuía. Mas Sísifo era um homem letrado (foi, aparentemente, um dos primeiros gregos a dominar a escrita) e deu um jeito de marcar os cascos dos animais com sinais de modo que, à medida que o gado se afastava de seu curral, aparecia no chão a frase “Autólico me roubou”...

Mas os dois acabaram se entendendo e ficaram amigos. Certas versões relatam que da união entre Sísifo e Anticleia, filha de Autólico, nasceu Odisseu, um dos principais heróis do Ciclo Troiano.

As vitórias dos mortais contra os deuses, no entanto, duram pouco. Sísifo morreu de velhice e então voltou ao Hades pelas vias normais... e nunca mais saiu. Por precaução, os deuses o condenaram a uma tarefa contínua e eterna, que não lhe deixava tempo para descansar ou pensar em fugas: empurrar um pesado rochedo para o alto de um morro e, depois que a pedra rolava morro abaixo, empurrá-la de volta.

Uma das partes da lenda de Sísifo que não envolve nenhuma tramoia refere-se à instituição dos jogos ístmicos em homenagem ao seu falecido sobrinho Melicertes, filho de Átamas (Paus. 2.1.3-4).

Fontes e representações

A genealogia de Sísifo é mencionada na Ilíada (Il. 6.152-5) e seu castigo é descrito na Odisseia (Od. 11.593-600); Teógnis afirma que ele conseguiu escapar do Hades convencendo Perséfone (Thgn. 703-4). Outras partes da lenda são contadas, entre outros, por Ferécides de Atenas (ver Schol. Il. 6.153), Polieno (6.52.1), Pseudo-Apolodoro (1.9.3), Pausânias (2.1.3 e 2.5.1) e pela Suda.

Na segunda metade do século -VI, Sísifo e a pedra aparecem em alguns vasos de figuras negras [Ilum. 0884], em alguns vasos de figuras vermelhas (sæc. -V) e em algumas cenas que representam o mundo subterrâneo em vasos da Apúlia, datados da segunda metade do século -IV [Ilum. 0748a].

Uma métopa do heraion de Foce del Sele, Magna Grécia, mostra Sísifo, acossado por uma figura alada, empurrando sua pedra (c. -540). Sabe-se que Polignoto (fl. -480/-450) pintou o castigo de Sísifo em uma das áreas da extensa pintura que recobria as paredes de um edifício de Delfos (Paus. 10.31.10), mas nenhuma parte dessa pintura alcançou nossos dias.

Literatura e ópera

O diálogo filosófico Sísifo, durante muito tempo atribuído a Platão[1], nada tem a ver com o Sísifo lendário, apesar do título. No século -V, Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Crítias escreveram tragédias ou dramas satíricos baseados no mito de Sísifo; nenhum deles chegou até nós, assim como as comédias dos pouco conhecidos Apolodoro (sæc. -IV/-III), poeta grego, e Lucius Pomponius (fl. c. -90), poeta romano.

Dentre as obras modernas, citemos Sisyphus, King of Ephyra, libreto de ópera de Frederick e Henrietta Corder (1882); Sisyphus: An Operatic Fable, de Robert Trevelyan (1908); e vários poemas curtos, entre eles os de A. Rabbe (1924), Robert Garioch (1971?), Miguel Torga (1978), U.A. Fanthorpe (1982), Gary J. Whitehead (1997) e Stephen Dunn (2003).

O texto mais célebre e mais conhecido, no entanto, é o ensaio filosófico de Albert Camus, Le Mythe de Sisyphe (1942).

Outras iluminuras

 
Hermes, Hipno e Tânato.
Museu Arqueológico Nacional de Cerveteri
 
O suplício de Sísifo.
Coleção particular
 
Hades e Perséfone em seu palácio.
 
Orfeu encontra os grandes criminosos do Hades.

Notas

  1. Sabe-se hoje que ele deve ter sido escrito por um dos seguidores de Platão, durante a segunda metade do século -IV.

Créditos das ilustrações

i0884Ájax, Sísifo e a pedra → Ver comentários.
i0110Hermes, Hipno e Tânato → Ver comentários.
i0238O suplício de Sísifo → Ver comentários.
i0748Hades e Perséfone em seu palácio → Ver comentários.
i0020Orfeu encontra os grandes criminosos do Hades → Ver comentários.

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Imprenta

Artigo nº 0170
publicado em 06/06/1999. Atualização: 04/01/2008.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Sísifo. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0170. Consulta: 27/03/2017.
 
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