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Como em muitas lendas gregas, a história da Guerra de Tróia começa muito
antes, com um problema entre os deuses, mais especificamente Zeus, Posídon e
a nereida Tétis.
A beleza de Tétis
Tétis (gr. Θέτις), a mais formosa das
nereidas, era cobiçada por vários deuses. A lenda diz que Posídon e o
próprio Zeus estavam tão entusiasmados com ela que chegaram ao ponto de
quase lutar entre si. Quando, porém, um oráculo vaticinou que o filho gerado
por Tétis se tornaria mais poderoso que o pai[1], o entusiasmo de ambos arrefeceu. Zeus ficou tão
preocupado que decidiu arranjar-lhe um marido mortal, para que
de nenhum modo a atual ordem do universo se alterasse.
O escolhido foi Peleu (gr. Πηλεύς), rei da Ftia
(Tessália), filho de Éaco e neto de Zeus, por parte de pai, e grande amigo
de Héracles. Era também amigo ou irmão do herói Télamon. Peleu havia sido
educado por Quíron, o mais sábio dos centauros e, além de ter ajudado
Héracles em Tróia, entre outras aventuras, havia participado da caça ao
Javali de Cálidon e da viagem dos Argonautas.
Tétis não queria se casar e usou sua capacidade de assumir diversas
formas, característica das divindades marinhas, para tentar escapar do
"noivo". Peleu, porém, instruído por Quíron, não se assustou com as
transformações e segurou-a com firmeza, até que a deusa
finalmente cedeu.
O casamento de Peleu e Tétis
Peleu e Tétis casaram-se no alto do monte Pélion em magnífica cerimônia.
Os deuses honraram-na com sua divina presença, e pela última
vez, estiveram reunidos com simples mortais. As próprias musas entoaram o
epitalâmio (canto nupcial) e cada um dos deuses deu um presente, conforme a
tradição. Posídon, por exemplo, presenteou os noivos com dois cavalos
imortais, Bálio e Xanto, capazes também de falar.
Zeus, porém, não havia convidado Éris, filha de Érebo e Nix, a antiga
divindade que personificava a discórdia. Mas Éris compareceu assim mesmo e
lançou, diante de Hera, Afrodite e Atena, um belíssimo pomo de ouro com a
maliciosa e provocativa inscrição: "à mais bela".
Com esse simples gesto Éris desencadeou a acirrada disputa entre as três
deusas que, mais tarde, levaria à destruição de Tróia e, nas palavras de
Homero, "lançou no Hades muitas almas valorosas de heróis" (Il.
1.3-4).
Nascimento e juventude de Aquiles
Independentemente da desagradável cena do "pomo da discórdia", o
casamento de Peleu e Tétis não foi bem-sucedido. A deusa
abandonava frequentemente o marido para ficar no palácio de Nereu, seu pai,
e matou inadvertidamente os seis primeiros filhos ao tentar
torná-los imortais. A técnica, segundo a lenda, era perigosa:
Tétis mergulhava a criança recém-nascida no fogo para que os
elementos mortais, provenientes de Peleu, pudessem ser consumidos. Somente o
sétimo filho, Aquiles (gr. Ἀχιλλεύς),
sobreviveu, pois o pai retirou-o a tempo do fogo.
Frustrada na tentativa de tornar Aquiles imortal, a deusa conseguiu no
entanto torná-lo invulnerável mergulhando-o no
Estige, rio subterrâneo que corria no Hades. Mas a nereida teve de segurar a
criança pelos calcanhares, e assim essa parte de seu corpo continuou
vulnerável...
Abandonado por Tétis, encolerizada com sua interferência, Peleu levou
então o filho ao centauro Quíron para que o educasse. Com o sábio centauro o
jovem Aquiles aprendeu, além das artes guerreiras, a medicina.
Peleu, ciente de que seu filho morreria caso participasse da guerra de
Tróia, procurou evitar sua morte obrigando-o a ir para a corte
do amigo Licomedes, soberano da Ilha de Squiros. Licomedes vestiu Aquiles de
mulher e escondeu-o nos aposentos das mulheres, mas isso pelo
menos não o impediu de se unir a Deidâmia, filha do rei, e gerar um filho
chamado Neoptólemo.
A despeito de todos os cuidados, no entanto, Aquiles e também Neoptólemo
teriam papéis decisivos na conquista de Tróia, anos depois. Aquiles
tornou-se o mais poderoso dos guerreiros gregos; sua força,
ferocidade e velocidade na corrida tornaram-se mais lendários
do que a própria lenda. Homero chamava-o, por exemplo, de
πόδας
ὠκὺς
Ἀχιλλεύς ("Aquiles de pés
rápidos" — v.g. Il. 1.84).
Iconografia
Há diversas representações, notadamente em vasos, da cena em que Peleu
agarra firmemente a deusa Tétis, que tenta inutilmente se desvencilhar.
Muitos vasos antigos e diversas pinturas neoclássicas mostram também Peleu
entregando o jovem Aquiles a Quíron.
Notas- A origem do oráculo a respeito do filho poderoso da nereida Tétis é controvertida entre os mitógrafos. Uns creditam-no à titânide Têmis, a deusa das leis eternas, e outros a Prometeu, filho do titã Jápeto.
ReferênciasConsulte a bibliografia geral da área. RIBEIRO JR., W.A. A guerra de Tróia. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0228. Consulta: 07/09/2010. |