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Íxion, a nuvem e a centauromaquia

 
Centauro ataca um dos lápitas

Os centauros (gr. Κένταυροι) eram seres metade homem, metade cavalo e viviam nas montanhas e florestas. Segundo a tradição, descendiam de Íxion, rei dos lápitas (gr. Λαπίθαι), povo que habitava próximo aos montes Pélion e Ossa, na Tessália.

Embora mantivessem contatos frequentes com os seres humanos, eram brutais e tinham hábitos selvagens e desenfreados. Notáveis exceções eram os centauros Folo, amigo de Héracles, e Quíron, o educador de heróis. A explicação oferecida pelos mitógrafos era que esses dois centauros, diferentemente dos demais, não eram descendentes de Íxion...

Íxion e a Nuvem

Íxion (gr. Ἰξίων), descendia de Peneu, o deus-rio da Tessália, ou de Sísifo, segundo outra genealogia, e foi o primeiro mortal a matar um membro da própria família.

Para casar-se, Íxion prometeu vários presentes a Dioneu, o pai da noiva, conforme o costume. Mas quando o sogro foi recebê-los, depois do casamento, Íxion lançou-o em um fosso cheio de brasas. Com isso, tornou-se culpado de vários crimes e enlouqueceu. O primeiro crime de Íxion foi o perjúrio, pois o compromisso entre o futuro sogro e o noivo era selado com juramentos solenes; o segundo crime, a morte de Dioneu, em si; e o terceiro, crime de sacrilégio, pois o casamento criava laços religiosos entre os membros das duas famílias, o que envolvia inclusive os sacrifícios às mesmas divindades protetoras.

Ninguém quis purificá-lo de seus crimes, tamanho horror eles inspiraram. Mas Zeus, em dia de excepcional bom humor, purificou-o e recebeu-o na morada dos deuses. O velhaco agradeceu a dádiva assediando Hera, rainha dos deuses e esposa de Zeus. O pai dos deuses e dos homens, ainda de bom humor, riu-se de tamanha cara-de-pau e moldou uma nuvem com a forma de Hera, deu-lhe vida e assistiu, divertido, Íxion cortejar e seduzir a nuvem, Néfele (gr. Νεφέλη).

Quando, porém, Íxion começou se gabar de ter seduzido a própria Hera, a paciência divina se esgotou e Zeus decidiu punir exemplarmente o criminoso: prendeu-o em uma roda em chamas que girava sem cessar e lançou-o no Hades, onde deverá ficar por toda a eternidade.

Da união entre Íxion e a nuvem nasceu um ser metade homem e metade cavalo, Centauro, que tornou-se o pai dos selvagens centauros. Uma ‘nuvem’, i.e, Néfele, aparece também no mito de Átamas, mas não sei dizer se se trata do mesmo personagem.

A centauromaquia

Os centauros aparecem em diversos mitos, notadamente o de Atalanta e o de Héracles (Folo e Nesso); mas a lenda mais famosa, sem dúvida, é a de sua luta contra os lápitas.

Pirítoo (gr. Πειρίθοος), filho de Íxion, havia convidado os centauros para a festa de seu casamento, já que eram aparentados. Durante a festa, o abuso do vinho atiçou ainda mais sua natureza selvagem e eles tentaram raptar as mulheres presentes; consta que um deles, Êurito, tentou até mesmo violentar a noiva de Pirítoo, Hipodâmia.

Mas, além de todos os lápitas, também estava presente o herói ateniense Teseu, amigo de Pirítoo. Começou então uma luta violenta entre os centauros, Pirítoo, Teseu e os demais convidados, e por fim os monstros foram expulsos da festa. Seguiu-se uma verdadeira guerra entre centauros e lápitas em que a maioria dos centauros morreu e os poucos sobreviventes fugiram para longe da Tessália.

Fontes

As mais antigas referências à lenda de Íxion e dos centauros são a II Pítica de Píndaro (Pi. P. 2.39-48), a tragédia Eumênides, de Ésquilo (A. Eu. 441; 717-8) e a tragédia Filoctetes, de Sófocles (S. Ph. 676-9).

A maior parte dos dados é curta e provém, de forma esparsa, dos escólios[2] das obras de Píndaro, Eurípides, Sófocles, Apolônio de Rodes e Luciano. Até o Pseudo-Apolodoro, habitualmente informativo, faz um relato bastante conciso da lenda (Apollod. Epit. 1.20). Há informações um pouco mais extensas em Diodoro Sículo (D.S. 4.69.3-4).

Influências

Na Antiguidade, Íxion foi tema de tragédias perdidas de Ésquilo (Fr. 89-93), Sófocles (Fr. 296), Eurípides (Fr. 424-7, entre -420/-417 e -406) e Calístrato (em -418), e de uma comédia de Êubulo (Fr. 35).

Outras iluminuras

 
A roda de Íxion, Hermes, Néfele e Hera.
In situ
 
Um centauro.
Cidade do Vaticano, Museus Vaticanos
 
Vaso François.
Florença, Museu Arqueológico Nacional
 
Herói enfrenta centauro.
 
Cratera com centauros, guerreiros e carruagens.

Notas

  1. O tear vertical, extensivamente utilizado na Europa durante a Antiguidade, a Idade Média e até recentemente em alguns países do extremo norte da Europa, foi provavelmente inventado durante o Neolítico. As evidências europeias mais antigas datam de -6000/-4000, aproximadamente, e foram encontradas na área da cultura de Starčevo, que compreende o extremo sudeste da Europa, um pouco ao norte da península balcânica e da antiga Macedônia. Os fios são presos inicialmente em uma trave horizontal, mantidos em tensão com a ajuda de pesos e urdidos de cima para baixo com a ajuda de um bastão, o fuso.
    Imagem: reconstrução de tear neolítico no Museu de Pré-história de Milão. Giovanni Dall'Orto, 14/02/2009, CC BY 1.0
    Outras imagens: teares gregos → do século -VIdo século -V
  2. Escólios (gr. sg. σχόλιον) são breves anotações nas margens de manuscritos gregos e latinos que comentam / esclarecem certas passagens do texto. Seus autores, habitualmente desconhecidos, são chamados de escoliastas. É possível que os primeiros escoliastas tenham sido Aristóteles e seus discípulos, mas a atividade parece ter se desenvolvido sistematicamente só mais tarde, com as atividades filológicas e literárias dos eruditos ligados à Biblioteca de Alexandria (Aristófanes de Bizâncio, Aristarco, Calístrato e outros). Essas antigas “notas de rodapé” são sempre referidas em relação ao autor e ao texto que comentam. A abreviatura padronizada Σ Ar. Ra. 67, por exemplo, significa ‘escólio / escoliasta de As Rãs de Aristófanes, verso 67’.

Créditos das ilustrações

i0228Centauro ataca um dos lápitas → Ver comentários.
i0459A roda de Íxion, Hermes, Néfele e Hera → Ver comentários.
i0425Um centauro → Ver comentários.
i0281Vaso François → Ver comentários.
i0239Herói enfrenta centauro → Ver comentários.
i0480Cratera com centauros, guerreiros e carruagens → Ver comentários.

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Artigo nº 0239
publicado em 05/02/2000.
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RIBEIRO JR., W.A. Íxion, a nuvem e a centauromaquia. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0239. Consulta: 22/09/2017.
 
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