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O centauro Quíron

 
Peleu, Aquiles e o centauro Quíron

Quíron (gr. Χείρων), meio homem e meio cavalo, era filho do titã Crono e de Fílira, uma das oceânides. Crono uniu-se a Fílira na forma de um cavalo, daí a forma híbrida do filho.Quíron não tinha a natureza selvagem dos outros centauros, filhos de Íxion e da nuvem; ele era, na verdade, ‘o mais justo dos Centauros’ (Il. 11.832). Apesar de ser meio-irmão de Zeus, Posídon e Hades, vivia entre os mortais em numa gruta do monte Pélion, na Tessália. Os conhecimentos médicos foram transmitidos aos mortais por seu intermédio.

Grande caçador, conhecedor de música, de plantas medicinais, de cirurgia e de outros conhecimentos práticos prezados pelos antigos, Quíron era amigo dos heróis Peleu, a quem salvou certa vez da fúria dos outros centauros, e de Héracles. Foi o educador de vários outros heróis, entre eles Aristeu e seu filho Acteon, Aquiles, filho de Peleu, Asclépio, filho de Apolo, e Jasão, o futuro líder dos argonautas. Pode-se dizer que ele é o mais antigo professor da mitologia grega.

Consta que era casado com Caricló, possivelmente uma oceânide. Os principais mitos de que participa, além de suas atividades de professor, são o do casamento de Peleu e Tétis, o da visita dos argonautas (A.R. 1.554), e o da sua morte.

O mito de seu desaparecimento ou morte é muito interessante. Quíron foi atingido acidentalmente por uma flecha de Héracles, durante uma de suas escaramuças contra os outros centauros, ou especificamente na ocasião da visita do herói a Folo. A flecha, embebida no veneno da Hidra de Lerna, produzia feridas incuráveis, e o centauro sofria dores horríveis, que nem seus conhecimentos médicos eram capazes de mitigar[1]. Desesperado, Quíron renunciou então à sua imortalidade, conseguiu morrer e escapou do terrível sofrimento. Zeus colocou-o, então, entre as constelações (Sagittarius).

Fontes. As mais antigas menções a Quíron estão na Ilíada (4.219, 11.832, 16.140-4 e 19.387-91). As principais fontes do seu mito são, no entanto, Píndaro (P. 3.1-7, 4.101-15 e 9.26-65), Apolônio Ródio (2.506-15), o Pseudo-Apolodoro (1.2.4, 2.5.4, 3.4.4 e 3.13.5), Plutarco (Quest. conv. 647a) e Eratóstenes (Cat. 1.18).

Assim como outros centauros, nas representações mais antigas, usualmente na cerâmica do século -VI em diante, Quíron está representado com pernas dianteiras humanas e a parte traseira do corpo semelhante à de um cavalo. Imagens posteriores mostravam seu aspecto humano apenas do umbigo para cima.

Frequentemente, para ressaltar sua natureza civilizada, o artista colocava-lhe roupas e, para destacar sua competência de caçador, ocasionalmente trazia no ombro uma vara com diversos animais pendurados.

Sacrifícios eram oferecidos a ele no Monte Pélion.

O nome Quíron deriva da palavra χείρ, ‘mão’, e aqui tem provavelmente o sentido de ‘hábil com as mãos’. Indubitavelmente, o nome está relacionado à sua destreza como cirurgião — note-se que a palavra χειρουργία, ‘trabalho feito com as mãos, cirurgia’ deriva do mesmo radical. Os cheironidae, ‘quironidas’, membros de uma família de médicos da Magnésia, afirmavam descender de Quíron (Plu. Quest. conv. 647a, cf. Smith, 1867, s.v. Cheiron).

A educação de Aquiles

Quíron, sua sabedoria e suas atividades educativas são mencionadas — nem sempre positivamente — em muitas obras literárias, notadamente na Aquileida, de Estácio (sæc. I), em uma das Imagens de Filóstrato, o Jovem (865.12, sæc. III), no Polycraticus de John of Salisbury (1159), no Emblematum Liber de Andreas Alciato (1546), na Divina Comédia de Dante (Inferno, canto 12, 1308-1321), em O Príncipe, de Maquiavel (1532, cap. 18) e no Fausto, de Goethe (parte 2, ato 2, cena 5, 1832).

Da época romana em diante, numerosos artistas representaram Quíron e seu pupilo, Aquiles, em afrescos, relevos, esculturas (e.g. Rinaldi, 1817), pinturas (e.g. Rubens, 1630/1635; Cipriani, 1776; Barry, 1772; Gagneraux, 1785) e muitos outros suportes.

O mito inspirou uma novela de John Updike, The Centaur (1963).

Notas

  1. O tema do mau médico, doente e incapaz de se curar, já está presente em Ésquilo (Pr. 473-4) e consta, também, do Evangelho de Lucas (4.23): ἰατρέ, θεράπευσον σεαυτόν, ‘médico, cura a ti mesmo’. A forma latina (da Vulgata), medice, cura te ipsum, tornou-se um dos ditados mais conhecidos e difundidos da cultura Ocidental. Seria a lenda da doença e morte de Quíron um de seus fundamentos mais remotos?

Créditos das ilustrações

i0009Peleu, Aquiles e o centauro Quíron → Ver comentários.
i1383A educação de Aquiles → Ver comentários.

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Artigo nº 0690, publicado em 19/02/2000. Última atualização: 11/10/2006.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. O centauro Quíron. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0690. Consulta: 15/10/2019.
 
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