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Sófocles

Ὁρῶ γὰρ ἡμᾶς οὐδὲν ὄντας ἄλλο πλὴν
εἴδωλ', ὅσοιπερ ζῶμεν, ἢ κούφην σκιάν.
Sófocles Aj. 125-6

Vejo, pois, que nada somos além de fantasmas,
todos nós que vivemos: apenas sombras vazias.

 

Sófocles (gr. Σοφοκλῆς), o segundo dos poetas trágicos canônicos, foi ainda em vida o mais bem sucedido autor de tragédias do século -V. Consta que obteve o maior número de vitórias nos concursos dramáticos de Atenas.

Os atenienses veneravam Ésquilo e compreendiam Eurípides apenas em parte; mas amavam Sófocles apaixonadamente. Desde sua primeira vitória, aos 28 anos, foi festejado e homenageado como o maior dos poetas trágicos e, de acordo com a tradição biográfica, participou ativamente da vida pública de Atenas.

Biografia

Sófocles (-496/-405)

O poeta nasceu perto de Atenas, em Colono, c. -496; era de família abastada, mas não aristocrática; o pai chamava-se Sófilo. Viveu sempre em Atenas e lá morreu, nonagenário, em -406/-405.

Era bem apessoado e afável; consta que foi amigo de Péricles e de Heródoto e que Iofon, seu filho, e Ariston, seu neto, foram tragediógrafos de renome. Diz-se que, meses antes de sua morte, ao saber que seu rival Eurípides morrera, vestiu o coro e os atores de preto e, em lágrimas, deu ao público a notícia (Vit. Eur. IA.11).

Segundo a tradição, liderou o coro de jovens que celebrou a vitória de Salamina e, graças ao seu prestígio, foi tesoureiro da Liga de Delos em -443, estrátego em -441 (ao lado de Péricles) e por volta de -428 (na época de Nícias). Em -413, após o desastre da Sicília, foi um dos dez próbulos[1] que governaram provisoriamente a cidade. Segundo a tradição, era devoto de Asclépio e, enquanto o asclepieion de Atenas era construído, a estátua do deus ficou acomodada em sua casa. Em agradecimento pelo serviço prestado à divindade, Sófocles foi honrado como um herói após a sua morte.

Estreou em -468 nas Dionísias Urbanas com a tragédia Triptólemo; embora concorresse com o próprio Ésquilo, recebeu o primeiro prêmio. Venceu os concursos 18 ou 24 vezes, e nunca obteve menos que o segundo lugar. Os testemunhos antigos atribuem-lhe cerca de 120 tragédias e dramas satíricos, dos quais cerca de 18 eram tetralogias, um hino a Apolo e alguns poemas. Somente sete tragédias, no entanto, chegaram até nós na íntegra.

Obras sobreviventes

Das tragédias sobreviventes, Ájax, Antígona, As traquinianas, Édipo Rei, Electra, Filoctetes e Édipo em Colono, somente o Filoctetes pode ser datado com precisão. Note-se que Édipo Tirano é mais conhecida pela tradução incorreta do título original, Édipo Rei, e que Édipo em Colono foi encenada e apresentada pelo jovem Sófocles, neto de Sófocles, anos depois da morte do poeta. Do drama satírico Rastreadores, de data incerta, temos boa parte dos versos, mas não o drama completo.

Os enredos de todas as tragédias provêm da mitologia grega; o drama satírico Rastreadores foi, no entanto, inspirado por um antigo hino homérico a Hermes, tradicionalmente atribuído a Homero.

Características da obra

Alguns eruditos sustentam que, com Sófocles, a tragédia grega atingiu a perfeição. Ele teria aumentado ainda mais os diálogos dos personagens e reduzido as falas do coro, embora tenha elevado o número de seus componentes. Acrescentou um terceiro ator para conferir mais dinamismo às cenas, recurso utilizado posteriormente por Ésquilo na Oresteia. Em sua época as tetralogias não eram mais compostas de tragédias interligadas e os enredos se tornaram mais complexos.

Sua poesia é simples, elegante e ne, mas sem pompa; algumas das mais belas linhas da poesia grega são de sua autoria. O personagem sofocliano é um ser humano ideal, dotado dos mais elevados atributos humanos. Seu caráter, habilmente delineado pelo poeta, frequentemente contrasta com o de outros personagens. O comportamento às vezes muda, e até traços de caráter se alteram diante das reviravoltas da fortuna.

Os deuses aparecem em segundo plano, são constamente citados mas raramente intervêm em pessoa; praticamente toda a ação se desenvolve no plano humano. Como se costuma dizer, ao teocentrismo de Ésquilo opunha-se o antropocentrismo de Sófocles.

Arrogância, orgulho desmedido e pecado levam ao desastre, e a moderação é sempre apresentada como o melhor caminho. O sofrimento trágico é inevitável diante dos atos cometidos, e mesmo os descendentes sofrem, mas esses atos são cometidos livremente pelos personagens.

Manuscritos e edições

As fontes mais importantes das tragédias de Sófocles são os manuscritos Mediceus (Laurentianus 32.9), da Biblioteca Laurenciana de Florença, datado do final do século X, e o Parisinus 2712, do século XIII, conservado na Biblioteca Nacional de Paris.

As tragédias de Sófocles também foram editadas isoladamente; ver monografias em Obras.

A editio princeps de Sófocles é a Aldina (Veneza, 1502), logo seguida pelas de Henri Estienne (Paris, 1568) e Canter (Antuérpia, 1579), este o primeiro a organizar os cantos corais em estrofe e antístrofe. A primeira edição realmente moderna do texto grego, no entanto, com tradução latina e escólios, é a de Brunck (Estrasburgo, 1786/1789).

Posteriormente, as mais importantes edições coletivas das sete tragédias sobreviventes foram as de Musgrave (Oxford, 1800/1801), Erfurdt e Herrmann (Leipzig, 21823/1925), Elmsley (Oxford, 1826), Dindorf (Oxford, 1832/1836), Wunder (London, 1855) e Jebb (Cambridge, 1881/1896). Atualmente, as edições mais cômodas e mais usadas são a de Dain e Mazon (Paris, 1958/1960), a de Lloyd-Jones e Wilson (Oxford, 1990) e a de Lloyd-Jones para a coleção Loeb (1996 e corr. add.2003).

As tragédias foram já todas traduzidas para o português, isoladamente; não dispomos, porém, de edição "coletiva" com a tradução de todas as peças.

Outras iluminuras

 
Edição de Sófocles impressa por Commelinus.

Notas

  1. O próbulo (gr. πρόβουλος) era uma espécie de representante de um corpo deliberativo, possivelmente com poderes executivos. De acordo com Tucídides (8.1.3), em -413 os 10 próbulos nomeados em Atenas parecem ter assumido algumas funções do Conselho (Βουλή).

Leitura complementar brpt

Karl Reinhardt, Sófocles, trad. O. Tolle, Brasília, Ed. UnB, 2007.

Créditos das ilustrações

i0482Sófocles (-496/-405) → Ver comentários.
i1087Edição de Sófocles impressa por Commelinus → Ver comentários.

Links externos

Imprenta

Artigo nº 0075
publicado em 18/10/1998. Atualização: 13/06/2007.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Sófocles. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0075. Consulta: 26/04/2017.
 
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