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Heládico médio: os mínios

 
Homem de pé na proa de barco

Aqui, nestas páginas, os primeiros gregos serão chamados convencionalmente de “mínios”, em homenagem a Schliemann[1], o arqueólogo que descobriu seus vestígios em 1881/1882. Muitos outros arqueólogos utilizam também essa nomenclatura para se referir ao Heládico Médio.

A emergência dos gregos

Não há evidências de descontinuidade entre a cultura material dos povos do Heládico Médio e a cultura micênica (-1550/-1100). Como os micênios utilizavam a linear B para escrever textos em língua grega, a maioria dos arqueólogos considera os mínios, a meu ver com toda razão, os mais remotos ancestrais dos povos helênicos.

Fig. 0117. Guerreiro mínio. Selo de ametista, túmulo Γ do círculo tumular B de Micenas. -1650/-1550.

É inútil, naturalmente, procurar o parentesco entre as primeiras gerações mínias e monumentos do porte de Ésquilo, Sócrates e Fídias. A bem da verdade os remanescentes encontrados pelos arqueólogos são pobres, muito pouco impressionantes e em geral de qualidade bem inferior aos do Heládico Antigo. “Talvez”, disse ironicamente Vermeule (1994), “o esforço de se mudar para a Grécia deixou-os tão exaustos que ficaram convalescendo durante dois séculos”.

Também não é nem um pouco verdadeira a imagem romântica dos agressivos invasores indo-europeus nômades que conquistaram o continente grego entre -2200 e -2000 com seus cavalos, carruagens, longas espadas de bronze, cidades fortificadas e a eficiente roda de oleiro. Na realidade, as “características gregas” dos mínios parecem ter resultado de uma simples evolução cultural iniciada no fim do Heládico Antigo após uma boa mistura entre as diversas populações da península balcânica, aí incluídos os indo-europeus que chegaram à península balcânica nessa época.

Aldeias e muralhas

As povoações mínias ocupavam os mesmos sítios do Heládico Antigo, em geral no alto de colinas que dominavam as planícies próximas do litoral. As casas eram compridas e estreitas, dispostas de forma caótica ao longo de ruas irregulares.

Fig. 0118. Planta de casa de Korakou: PB, porta bloqueada; L, forno / lareira. -2000/-1550

As casas do Heládico Médio tinham tipicamente dois ou três cômodos, base de pedra, paredes finas de tijolos feitos de argila e plano retangular ou apsidal[2], semelhantes a construções do fim do Neolítico. No exemplo da Fig. 0118, as extremidades dianteiras (antae) formam uma espécie de vestíbulo, sem dúvida aparentado ao mégaro[3], e o quarto dos fundos era usado como depósito. Em Lerna foram encontradas pelo menos duas construções especializadas, uma pequena fundição e a casa de um ferreiro.

Até agora não há evidências de construções proeminentes, como por exemplo palácios e templos comunitários. A mais imponente, até o momento, é a cidadela de Malthi, escavada na acrópole que domina a planície do Pamisos (Messênia). A aldeia, situada bem no centro do perímetro, era semelhante a todas as outras, embora de bom tamanho. Malthi e outros sítios como Peristeria e Pilos (Messênia), Kiafa Thiti (Ática) e Argos tinham muralhas bem menos imponentes que as de Colona (Egina) e Haghia Eirene (Ceos, nas Cíclades).

Em alguns sítios do Peloponeso foram encontrados ossos de cavalos domesticados e de galináceos. Em Troia VIa-c também foram encontrados ossos de cavalos, o que pode indicar parentesco ou laços estreitos entre o Peloponeso e Troia durante o Bronze Médio.

Cerâmica e utensílios

A cerâmica “miniana”, confeccionada na roda de oleiro e sucessora direta da cerâmica produzida no fim do Heládico Antigo, é a única nota de sofisticação da cultura dos primeiros gregos. Os vasos tinham bordas espessas e alças geralmente longas e elegantes; além da aparência polida e brilhante, a superfície se caracterizava por uma textura saponácea ao toque.

Mais tarde, entre -1900 e -1700, surgiu a “cerâmica de pintura mate”, com decoração escura e desenhos sobre fundo mais claro. Não se sabe exatamente quem produzia esses vasos, mas parecem ter sido introduzidos a partir das Cíclades. Esse estilo logo se fundiu com a cerâmica miniana e, no final do Heládico Médio, depois de receber intensivas influências cicládicas e minoicas, evoluiu diretamente para os estilos micênicos.

Quase todos os utensílios eram feitos de pedra (pederneira, obsidiana) ou osso. As ferramentas de bronze e objetos de luxo eram raros e foram encontrados em quantidades inferiores às do Heládico Antigo.

Comércio

Fig. 0119. Navio. Desenho de fragmento de cerâmica de Iolcos, -2000/-1550.

Ao norte, os mínios efetuavam importantes contatos com a Tessália e a Europa Oriental; no ultramar, com as ilhas próximas ao continente, Troia VI, Cíclades, Creta e as Ilhas Lípari, ao norte da Sicília. O desenho de um homem de pé sobre um barco com proa em forma de peixe [Ilum. 0512]e outros desenhos de barcos (Fig. 0119) indicam a grande importância do mar para eles.

A partir de -1800 os contatos com os cretenses se tornaram cada vez mais intensos, assim como sua influência cultural. Os mínios importavam cerâmica e objetos de luxo; os minoicos se interessavam, aparentemente, por matérias-primas. Uma das fontes de cobre utilizadas por eles, além de Chipre, eram as minas de Laurion, na Ática.

Cerâmica de nítida influência minoica e produzida em Colona, na ilha de Egina, foi encontrada em sítios litorâneos da Argólida, em volta do Golfo Sarônico, na Grécia Central (Beócia, Ática) e na Eubeia. Um outro tipo de cerâmica era produzido em Kastri (Citera), onde existia uma colônia minoica desde -2000. No fim do período, especificamente, ceramistas minoicos de Citera se instalaram no sul da Lacônia.

Religião

A forma predominante de sepultamento dos adultos era o túmulo individual em cista[4], semelhante às cistas cicládicas do Bronze Antigo, escavada em cemitérios fora das aldeias. Os túmulos em cista minianos consistiam de uma cova oblonga, pouco profunda, revestida com lajes de pedra e com o fundo habitualmente recoberto de cascalho. O corpo do defunto era disposto de lado, juntamente com as oferendas fúnebres.

Fig. 0120. Túmulo em cista (Π) do Círculo Tumular B de Micenas.

Os presentes fúnebres, bastante pobres, consistiam geralmente em um ou dois vasos — às vezes, nada. No final do Heládico Médio a quantidade de sepulturas e a riqueza dos presentes aumentou consideravelmente, assim como o número de enterros na mesma cista.

Bebês e crianças eram sepultados diretamente sob o chão das casas, hábito até então desconhecido na Grécia Continental. Às vezes, mesmo os adultos eram enterrados em corredores ou atrás de paredes. Em Haghios Ioannis (Messênia) havia um túmulo pouco usual, com diversos pitos[5] de grande tamanho e um ou dois corpos contraídos em cada um.

Em Colona (Egina) foi encontrado um túmulo retangular escavado mais profundamente, “em poço”, datado de -1700/-1600. Nele foi sepultado, provavelmente, um guerreiro ou talvez um líder militar, pois o corpo estava acompanhado de uma espada de bronze, um capacete, diademas de ouro e vasos importados de Creta e das Cíclades. Essa é a mais antiga e a única evidência que prenuncia o esplendor da cultura micênica na Argólida e na Messênia por volta de -1600.

Do Heládico Médio ao Heládico Recente

Dois tipos especiais de sepultamento, o túmulo em poço (shaft grave) de Micenas, Argólida, e o túmulo-tolo[6] de vários sítios da Messênia (Osmanaga, Peristeria, Pilos, etc.) assinalam a transição para o Período Micênico.

Os sepultamentos com frequência são múltiplos e a riqueza do mobiliário fúnebre é cada vez maior, o que indica a emergência de uma elite e/ou de famílias poderosas. O tolo Vagenas, da Messênia, continha diademas de ouro, vasos de cerâmica e de prata e numerosas armas de bronze. Os túmulos de poço do Círculo Tumular B, datado tradicionalmente de -1650/-1550, continham esse mesmo tipo de mobiliário. Um deles continha, ademais, um selo de ametista com a imagem de um guerreiro, uma máscara fúnebre de electro[7] e um vaso de cristal de rocha em forma de pato.

Como assinalado anteriormente, os achados da Argólida e da Messênia mostram grande influência minoica, especialmente na decoração da cerâmica. Mais do que em importação de artefatos, porém, deve-se pensar na presença de artífices minoicos trabalhando para a elite local, assim como os ceramistas do sul da Lacônia.

Outras iluminuras

 
Fortaleza de Dorion.
In situ
 
Vaso miniano.
Museu Arqueológico de Argos
 
Vasos do Heládico Médio.
Museu Arqueológico de Olímpia
 
Jarro heládico com decoração geométrica.
Museu Arqueológico de Egina
 
Tesouro de Egina.
 
Sepultura do Heládico Médio.
Museu Arqueológico de Náuplio
 
Túmulo de poço Ε do círculo tumular B.
In situ
 
Túmulo de poço Γ do círculo tumular B.
Museu Arqueológico de Micenas
 
Vaso de cristal.

Notas

  1. O alemão Heinrich Schliemann (1822/1890) foi o primeiro a descobrir em Troia, Micenas, Tirinto, Ítaca e Orcômeno os vestígios da Grécia pré-histórica. Embora não fosse arqueólogo profissional, era dotado de pertinência e entusiasmo; sua intenção era comprovar, através das escavações arqueológicas, a veracidade das lendas descritas por Homero em seus poemas. A despeito dos sucessos, tinha a tendência de romantizar e identificar seus achados com personagens da Mitologia Grega. Batizou, por exemplo, de “tesouro de Príamo” um conjunto de joias encontrado em Troia II e de “máscara de Agamêmnon” uma máscara mortuária encontrada em Micenas. Quando escavou em Orcômeno, na Beócia, descobriu um tipo de cerâmica até então desconhecido e a atribuiu aos mínios, povo lendário ligado a essa cidade. Mais informações → Heinrich Schliemann.
    Imagem: Foto de 1883. S. Kohn. Fonte: Gallica. pd.
  2. As construções apsidais têm, basicamente, plano retangular com um dos lados menores de forma arredondada e convexa.
    Imagem: Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0.
  3. Mégaro (do gr. μέγαρον) é uma construção retangular que tem as paredes mais longas formando um pórtico em frente a um dos lados menores, onde há uma entrada; pode haver pilares para sustentação do teto. A forma “mégaron”, transcrita do grego, deu lugar à forma “mégaro” nos modernos dicionários da língua portuguesa (cf. Aurélio, s.v.).
    Imagem: mégaro de Jericó, Israel, -7000/-6000. Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0.
  4. Cista (do lat. cista, ‘caixa’) é uma sepultura em forma de caixa revestida de pedras no fundo. As cistas podiam ser enterradas abaixo do nível do chão ou construídas na superfície; nesse caso, eram habitualmente cobertas por um monte de terra (túmulo). Em alguns tipos mais avançados as paredes eram eventualmente revestidas com lajes de pedra.
    Imagem: túmulo em cista de Micenas, Heládico Médio. Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0mais informações AQUI.
  5. O pito (πύθος, pl. πύθοι) é um enorme vaso de cerâmica para armazenagem de líquidos ou de cereais, com paredes grossas, boca larga e extremidade mais afilada, característico de Creta; chegava a atingir 1.74 metros de altura. Deve-se evitar a forma transliterada “pythos”, uma vez que os dicionários já trazem a forma portuguesa desse substantivo (cf. Aurélio, s.v.).
    Imagem: pito com decoração em relevo. Cnossos, c. -1500. Paris, Museu do Louvre. Marie-Lan Nguyen, pd.
  6. Na Antiguidade Clássica, o tolo (lê-se tólo), do gr. θόλος (pl. θόλοι, lat. sg. tholu), era um edifício circular, às vezes cercado de colunas e utilizado como templo; os arqueólogos, no entanto, usam esse termo para designar estruturas circulares com abóbada. Nas antigas culturas do Mediterrâneo e do Oriente Médio a base das paredes era geralmente de pedra, e ainda há muita discussão quanto à técnica empregada na construção da abóbada. As mais antigas edificações com esse formato são, aparentemente, as da Ásia Ocidental (exemplo ao lado). Em tempo: a forma transliterada tholos deve ser abandonada em favor da forma “tolo”, já dicionarizada (cf. Aurélio s.v.).
    Imagem: Arpachiyah, Turquia, -5000/-4000, planta (E) e reconstituição (D). Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0.
  7. O electro é uma liga natural com predomínio de ouro (40-90%) e prata, associados a traços de cobre e outros metais. Na Antiguidade era encontrado notadamente em jazidas da Ásia Menor e considerado ouro de qualidade inferior.
    Imagem: amostra do Estado de Washington, EUA. Pittsburgh, Museu Carnegie de História Natural. James St. John, CC BY 2.0.

Referências

Carl W. Blegen, Tróia e os Troianos, trad. R. Machado, Lisboa, Verbo, 1971. S. Karouzou, National Museum, Athens, Ekdotike Athenon, 1999.

Créditos das ilustrações

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0117S. Tsavdaroglou, M. Skiadaresis e N. Kontos, 1977. Fonte: Karouzou (1999). Acervo: Atenas, Museu Arqueológico Nacional. → / Autorizado - só no Portal.
0118Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1999. Apud Taylour (1970, p. 90)/ Fair use.
0119Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1999. Apud Taylour (1970). Acervo: Museu Arqueológico de Volos. → / Fair use.
0120Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1999. Fonte: Wace e Stubbings, apud Blegen (1971, p. 73) → / Fair use.
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i1114Túmulo de poço Γ do círculo tumular B → Ver comentários.
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Artigo nº 0397
publicado em 18/09/2001.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Heládico médio: os mínios. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0397. Consulta: 22/07/2017.
 
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