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O Minoico Recente

 
Afresco com o salto do touro

Desde a grande catástrofe de -1700, os palácios de Cnossos, Festos, Mália e Zakros não haviam cessado de receber reparos e sofrer modificações periódicas, possivelmente em decorrência de distúrbios naturais (terremotos, incêndios...) de menor intensidade.

O mesmo se deu com as mais importantes casas urbanas ou rurais (Agia Tríada, Tilissos, Nirou Khani, Pirgos, Vathypetro, etc.), algumas das quais eram verdadeiros minipalácios.

Minoico Recente I-II

O palácio de Cnossos, que dominava uma vasta planície, continuou a ser o maior e mais imponente de todos. Em -1450/-1400, além das estruturas usuais — pátio central, teatro, templo, alojamentos, salas para armazenagem, arquivos de tabuinhas com a linear A, sala do trono — era dotado de sofisticados aquedutos de terracota sob o pavimento, capazes de trazer água de uma fonte a 10 quilômetros de distância. Quase todas as paredes eram decoradas com maravilhosos afrescos[1] naturalistas.

Nessa época, o palácio ocupava uma área de 17.400 m2 e a distribuição das salas havia ficado tão intrincada com os sucessivos acréscimos que se tornou um verdadeiro labirinto[2]. O tamanho e o aspecto da construção podem ter produzido, então, um dos elementos mais notáveis e populares das lendas gregas arcaicas sobre Teseu e o minotauro.

Gúrnia ilustra bem o aspecto típico de uma cidade provinciana. Por volta de -1550/-1450 as casas eram retangulares e pequenas e muitas continham ferramentas para vários tipos de artesanato; havia também um pequeno templo. As ruas eram estreitas e tortuosas, às vezes ligadas por longas e elevadas escadarias, e confluíam para um pequeno palácio situado na parte sudoeste da cidade. Uma rua estreita separava o palácio das casas, o que implica o estreito relacionamento entre governante e governados (Pedley, 1998).

A sociedade minoica continuou a ser governada por uma elite dirigente a partir dos grandes palácios e, possivelmente, dos mini-palácios e das casas de campo mais imponentes. A escrita linear A, utilizada provavelmente para fins administrativos como sua sucessora, a linear B, continuou em uso até -1450.

Lendas gregas relatadas mil anos mais tarde por Heródoto, Tucídides e Baquílides falam de um Rei Minos que possuía uma frota poderosa, acabou com os piratas das ilhas egeias e lá instalou seus ‘filhos’ (Th. 1.4); pintura tumular egípcia da época de Tutmés III (-1504/-1450) menciona os chefes de Keftiu e das ilhas no meio do oceano. Mas, contra essa tradição da talassocracia minoica[3], a arqueologia apenas confirma que a cultura minoica se espalhou pelas ilhas do Egeu e influenciou intensamente as demais culturas da região. Em Filacopi (Melos), Akrotiri (Tera), Agia Irini (Ceos) e Trianda (Rodes) a presença de cretenses era tão preponderante que se fala até em colônias minoicas.

Há também evidências de contatos comerciais intensivos entre os cretenses e quase todas as regiões da Grécia Continental, litoral da Ásia Menor (Troia, Mileto, Iasos, Vathy, Tigani), Chipre, Síria, Palestina e Egito. Eram importadas, principalmente, matéria-primas como cobre, ouro, prata, marfim, madeira, obsidiana, pedras preciosas e semi-preciosas; as exportações consistiam, basicamente, de lã, vasos finos de cerâmica ou metal, joias e possivelmente azeite.

A queda dos palácios minoicos

Logo após a erupção de Tera, habituados a desastres naturais, os cretenses continuaram vivendo normalmente até -1450, mais ou menos, quando nova e definitiva catástrofe devastou a ilha. Cidades, grandes residências e quase todos os palácios sofreram danos massivos e não foram mais reconstruídos. A causa, sem dúvida, não foi a erupção de Tera, que antecedeu em várias décadas a última destruição dos centros urbanos da ilha. Mas ainda se discute muito a respeito do fim dos palácios cretenses e, principalmente, se a catástrofe final teve causas naturais ou foi obra de invasores.

De qualquer modo, independentemente da razão, em -1450 os micênios se instalaram na ilha e lá ficaram até o fim da Idade do Bronze. Introduziram, naturalmente, a língua grega, a escrita conhecida por Linear B, seus costumes e sua arte. O palácio de Cnossos foi ainda reconstruído para uso dos conquistadores, mas em 1400/-1375 foi novamente destruído e nunca mais restaurado.

O Minoico Recente III

Depois da destruição final do palácio de Cnossos (-1400/-1375), as rotas comerciais e os entrepostos minoicos foram assumidos pelos micênios. A vida continuou, no entanto, e pelo menos dois importantes núcleos micênicos se estabeleceram na ilha de Creta, um em Cnossos e outro em Cânia. Embora os minoicos não mais tivessem influência política e econômica no Egeu, sua cultura nunca deixou de se fazer presente. A arte minoica, apesar de ter submergido significativamente diante do gosto dos novos senhores pelo formalismo artístico e por temas agressivos como a caça e a guerra, permanceu atuante durante todo o domínio micênico.

Creta foi poupada, aparentemente, das devastações generalizadas que caracterizaram o último século do Bronze Recente. Há evidências, porém, de fragmentação política e de acentuação das características regionais na cultura material.

A cultura minoica do Bronze Recente

A arte de Creta atingiu o apogeu entre -1550 e -1450 e, mesmo depois da conquista micênica, manteve algumas de suas características.

Os afrescos minoicos, caracterizados pelo naturalismo, pelo movimento e pela graciosidade, recobriram as paredes dos palácios e casas mais importantes até -1450. Estatuetas de bronze e de terracota e vasos rituais de pedra com relevos esculpidos enchiam templos e santuários; vasos de cerâmica com fundo claro e temas florais (estilo floral), abstratos (estilo padrão) e marinhos (estilo marinho) foram encontrados em Creta e em todo o Egeu; joias finíssimas, criadas pelos ourives cretenses segundo técnicas usadas desde o Minoico Médio, foram encontrados nos famosos círculos tumulares de Micenas (-1550/-1500).

Selos cretenses de vários formatos esculpidos em metal e em pedras semi-preciosas foram recuperados pelos arqueólogos em grande quantidade. Nos exemplares confeccionados até -1450, predominavam as cenas religiosas, os animais e as acrobacias com touros; durante o domínio micênio eram comuns os arranjos heráldicos, um dos tema favoritos dos conquistadores, mas a técnica empregada era totalmente minoica. Depois da destruição de Cnossos a arte da gravação em Creta declinou rapidamente (Higgins, 1981).

Caixões de terracota pintada, às vezes moldados em forma de banheira e comuns em Creta após a conquista micênica, eram ainda decorados, muitas vezes, com temas puramente cretenses. Algumas estatuetas de terracota de -1300/-1200, conhecidas por “deusas do lar”, ilustram igualmente uma certa persistência do estilo minoico mesmo durante a fase de domínio micênico.

Uma das mais notáveis características da cultura minoica é a aparente posição de destaque que as mulheres tinham na sociedade. A julgar pela sua representação nas pinturas, desfrutavam de ampla liberdade, podiam maquiar-se e participavam normalmente de festas e rituais públicos, como as danças e o “salto do touro”.

Talvez a importância da mulher resultasse do destacado papel das divindades femininas na religião minoica, fato observado já no Minoico Médio. O touro, figura igualmente notável, era presença constante em afrescos, sinetes, estatuetas votivas, vasos de pedra e de metal. Em diversas obras de arte há duas outras imagens importantes na religião minoica: o machado duplo e os “cornos de consagração”, estes certamente uma representação estilizada dos chifres do touro. Na falta de registros escritos, infelizmente, não sabemos exatamente qual era seu papel no culto.

Assim como no período anterior, a prática religiosa se dava em pequenos templos nos palácios e casas maiores, em santuários e altares localizados em lugares elevados e nas grutas. Constava, notadamente, do oferecimento de sacrifícios, libações e estatuetas de bronze e terracota com representações de animais. Algumas estatuetas representam os fiéis fazendo suas preces com os dois braços elevados, ou com a mão direita apoiada na cabeça. Uma cena pintada em um sarcófago de Agia Triada e datado de -1400, época do domínio micênico, mostra alguns detalhes de uma cerimônia fúnebre.

A forma mais comum de sepultamento era o túmulo de câmara (tolo[4]), que abrigava habitualmente mais de um defunto. A estrutura consistia basicamente de um corredor de entrada (dromos), um portal (stomion) e uma câmara abobadada (tálamo). Os corpos eram simplesmente depositados no chão ou colocados em pitos[5] ou caixões de terracota (lárnaces). Cistas[6] escavadas no assoalho dos tolos eram também comuns.

Outras iluminuras

 
O palácio de Cnossos.
 
O palácio de Mália.
In situ
 
O palácio de Kato Zakros.
In situ
 
Jarro minoico de pedra.
 
Polvo minoico estilizado.
 
Vaso de pedra em forma de touro.
 
Joias minoicas variadas.
 
Machado duplo minoico.
 
Deusa minoica, adorador e leões.
 
O sarcófago de Agia Tríada.
 
Jarro minoico no estilo palacial.
 
Homem dominando touro.
 
Casa e templo de Karfi.
 
Orante minoico.
 
Quatro dançarinas minoicas.

Notas

  1. Afrescos são pinturas em geral de grande tamanho efetuadas sobre a argamassa ainda fresca das paredes, de modo que a tinta fica integrada à parede. Na Grécia, os afrescos mais antigos datam do fim do século -XV.
    Imagem: afresco minoico → Iluminura 0267.
  2. A cultura minoica teve grande impacto nos primeiros gregos e, provavelmente, a língua minoica exerceu também uma certa influência. Alguns linguistas atribuem, por exemplo, origem minoica a alguns nomes de lugares em -nthos e em -ssos: Tirintos, cidade do Peloponeso, Cnossos, cidade de Creta, e a palavra labýrinthos (gr. clássico λαβύρινθος). É bem possível, portanto, que tenham sido os micênios que apelidaram o palácio de Cnossos, notável pela sua complicadíssima planta, de “labirinto”. A palavra lábrys (gr. λάβρυς), de origem lídia e presente em alguns antigos dialetos gregos, significa ‘machado de dois gumes’; talvez labirinto, para os minoicos, era apenas a ‘sala ou casa dos machados’. Só muito mais tarde essa palavra assumiu a conotação de construção intrincada e de difícil saída.
  3. A palavra talassocracia é uma composição dos radicais gregos θαλασσ-, ‘mar’, e κρατο-, ‘poder’. Em relação à talassocracia minoica durante a Idade do Bronze, popularizada através da lenda de Teseu e do minotauro, acredita-se atualmente que se tratava muito mais de domínio cultural e econômico do que de domínio político.
  4. Na Antiguidade Clássica, o tolo (lê-se tólo), do gr. θόλος (pl. θόλοι, lat. sg. tholu), era um edifício circular, às vezes cercado de colunas e utilizado como templo; os arqueólogos, no entanto, usam esse termo para designar estruturas circulares com abóbada. Nas antigas culturas do Mediterrâneo e do Oriente Médio a base das paredes era geralmente de pedra, e ainda há muita discussão quanto à técnica empregada na construção da abóbada. As mais antigas edificações com esse formato são, aparentemente, as da Ásia Ocidental (exemplo ao lado). Em tempo: a forma transliterada tholos deve ser abandonada em favor da forma “tolo”, já dicionarizada (cf. Aurélio s.v.).
    Imagem: Arpachiyah, Turquia, -5000/-4000, planta (E) e reconstituição (D). Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0.
  5. O pito (πύθος, pl. πύθοι) é um enorme vaso de cerâmica para armazenagem de líquidos ou de cereais, com paredes grossas, boca larga e extremidade mais afilada, característico de Creta; chegava a atingir 1.74 metros de altura. Deve-se evitar a forma transliterada “pythos”, uma vez que os dicionários já trazem a forma portuguesa desse substantivo (cf. Aurélio, s.v.).
    Imagem: pito com decoração em relevo. Cnossos, c. -1500. Paris, Museu do Louvre. Marie-Lan Nguyen, pd.
  6. Cista (do lat. cista, ‘caixa’) é uma sepultura em forma de caixa revestida de pedras no fundo. As cistas podiam ser enterradas abaixo do nível do chão ou construídas na superfície; nesse caso, eram habitualmente cobertas por um monte de terra (túmulo). Em alguns tipos mais avançados as paredes eram eventualmente revestidas com lajes de pedra.
    Imagem: túmulo em cista de Micenas, Heládico Médio. Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0mais informações AQUI.

Créditos das ilustrações

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Artigo nº 0459
publicado em 05/01/2003.
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RIBEIRO JR., W.A. O Minoico Recente. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0459. Consulta: 26/04/2017.
 
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