Græcia Antiqua INTRODUÇÃOARTECIÊNCIASFILOSOFIAGEOGRAFIAHISTÓRIALÍNGUALITERATURAMITOLOGIAMÚSICARELIGIÃO

O Neolítico na Grécia continental

A Grécia continental é uma das regiões do Egeu onde as culturas neolíticas mais antigas são desprovidas de cerâmica. Essa fase durou até os primeiros séculos do V milênio a.C.

Fig. 0168. Principais sítios neolíticos da Grécia continental.

Fase acerâmica

Essa etapa cultural é representada principalmente por Argissa, na Tessália (-6500/-6000), pequena aldeia de choças arredondadas com assoalho abaixo do nível do chão. Em Gremnos, perto dali, havia no entanto construções com plantas de forma quadrada.

Fig. 0109. A e B, lâminas de pedra; C, “tampão de ouvido”; D, anzol de osso. Cultura de Argissa, -6500/-6000.

Argissa é um dos mais antigos sítios com indícios de domesticação de gado bovino. Numerosos objetos de pedra, que os arqueólogos chamam de tampões de ouvido por causa de seu curioso formato, foram encontrados na aldeia; a maioria dos outros instrumentos de pedra polida era de obsidiana[1].

Da Tessália, os pioneiros dirigiram-se tanto para o norte, rumo à Europa Oriental[2], como para o sul, rumo ao Peloponeso, onde chegariam séculos mais tarde.

Fase cerâmica

Costuma-se dividir os três milênios do Neolítico cerâmico da Grécia Continental em diversas fases de desenvolvimento. Os sítios mais representativos de cada fase são Nea Nicomedia (-5800/-5300), Sesklo (-5300/-4400) e Dimini (-4300/-3300).

Fig. 0110. Planos esquemáticos. A: Tsangli (-5300/-4400), casa de um cômodo com telhado sustentado por postes. B: Dimini (-4400/-3300), mégaro (ver Fig. 0112). O número 1 marca uma lareira.

Os habitantes de Nea Nicomedia vieram provavelmente da Anatólia e, de lá, se espalharam pelo resto da Tessália, Grécia Central e Peloponeso. A cultura de Dimini pode ser atribuída a novas levas de imigrantes, oriundos provavelmente da Macedônia e da Trácia, ou talvez até de mais longe. No final do Neolítico, a julgar pelos poucos esqueletos encontrados até agora, a grande variedade de tipos humanos era a regra em toda parte.

As aldeias típicas eram pequenas, abertas e homogêneas, sem muralhas defensivas ou cercas; as casas eram em geral quadradas, com fundações de pedra e paredes de tijolos de barro. Em algumas regiões do Peloponeso, cavernas eram também usadas como moradia. E, “como disse a lenda grega, séculos mais tarde, as coisas começaram com a Idade de Ouro, quando a guerra ainda não existia” (Burn, 1965).

Em Nea Nicomedia, porém, já havia uma grande construção (12 x 12 m) cercada por outras quatro, pouco menores. Pode ter sido um templo primitivo, a residência do líder, ou ainda um simples celeiro comunitário — é impossível dizer com certeza...

Fig. 0111. Cerâmica de Nea Nicomedia (A, -5800/-5300) e Sesklo (B, -5300/-4400).

Sesklo tinha 3.000 a 4.000 habitantes e cerca de 100 km² de área. As construções principais situavam-se numa elevação, e essa acrópole[3] parece ter sido cercada por um muro de aproximadamente um metro de espessura. Perto do centro havia um mégaro[4] primitivo, sem colunas, o primeiro da Grécia.

Dimini, embora bem menor (área de cerca de 5.000 m²), também ocupava o alto de uma colina e tinha um grande mégaro (8 X 8 m), cercado de um anel defensivo de seis ou sete muralhas concêntricas de pedra e barro, não necessariamente construídas ao mesmo tempo, com 0,6-1,4 metros de espessura e possivelmente 2 a 3 metros de altura.

Fig. 0112. Plano da cidadela de Dimini, Tessália, -4300/-3300. O mégaro está no centro, cercado pela mais interna das muralhas.

Em nenhum caso há indícios da função específica dessas construções monumentais na comunidade. “Parece que Dimini era arquitetonicamente organizada em torno de uma família dirigente ou de um chefe de aldeia” (Vermeule, 1972); evidências conclusivas, porém, como por exemplo oferendas fúnebres especiais em sepulturas, não foram descobertas até o momento, embora uma das casas (Casa N) seja efetivamente maior do que as demais.

A decoração dos vasos de cerâmica, inexistente a princípio, logo se desenvolveu e cada aldeia e cada fase tinha seu estilo peculiar. Em Sesklo e Dimini utilizava-se variados padrões geométricos e, em Sesklo, alguns vasos (e também algumas estatuetas) eram recobertos com uma pintura leve e um pouco lustrosa convencionalmente chamada de Urfirnis neolítico.

À parte a cerâmica pintada, outras evidências de arte eram as estatuetas representando mulheres nuas com nádegas proeminentes, selos primitivos (“pintaderas”) nos estabelecimentos mais antigos e sinetes nos mais recentes. Menção à parte é a pintura / desenho de uma forma humanóide em caco de cerâmica descoberto em Otzaki: data de c. -5000 e é a mais antiga representação humana encontrada na Grécia.

Fig. f0113. Figura antropomórfica (desenho? pintura?). Otzaki Magoula, Tessália, c. -5000.

A técnica e o sentido estético das estatuetas apurou-se especialmente a partir de Sesklo e, em Dimini, tornaram-se comuns as estatuetas de deusas-mãe associadas a um menino, semelhantes às de Hacilar, Anatólia, manufaturadas mais de um milênio antes. Os habitantes de Dimini eram já capazes de trabalhar o metal e alguns artefatos de ouro produzidas nesta época mostram grande habilidade técnica.

Quanto aos sepultamentos, em Nea Nicomedia os mortos eram simplesmente enterrados em covas individuais dentro da aldeia, sem oferendas fúnebres. Em Sesklo e Dimini não foram encontradas sepulturas, o que parece indicar que os enterros eram efetuados fora da aldeia. O único cemitério neolítico bem conhecido é o de Soufli (Tessália, -3000), em que os ossos cremados eram colocados em jarros de cor negra e depois sepultados em covas individuais.

As maiores contribuições do Neolítico à cultura grega como um todo foram, provavelmente, a religião (a deusa-mãe) e a arquitetura (o mégaro). Embora ainda muito controvertido, talvez se devesse acrescentar à lista algumas palavras da língua grega que designam montanhas, plantas, deuses, etc., possivelmente usadas pelos povos neolíticos estabelecidos na península balcânica antes de -3000.

Outras iluminuras

 
O mégaro de Sesklo.
 
Uma casa de Dimini.
In situ
 
Artefatos neolíticos e cerâmica de Sesklo.
 
Artefatos neolíticos de Olinto.
Museu Arqueológico de Tessalônica
 
Cerâmica neolítica de Dimini.
 
Cerâmica neolítica de Lerna.
Museu Arqueológico de Argos
 
Deusa-mãe de Nea Nikomedia.
Museu Arqueológico de Veroia
 
Deusa-mãe neolítica com a criança.
 
Estatueta feminina de Lerna.
Museu Arqueológico de Argos
 
Um pensador neolítico.
 
Impressão de selo em argila.
 
Cilindro de argila com incisões.

Notas

  1. A obsidiana é uma rocha vulcânica de cor negra e aspecto vitrificado, muito utilizada na confecção de facas, pontas de flecha e outros artefatos durante o Paleolítico, Mesolítico, Neolítico e Idade do Bronze. No Egeu, a principal fonte de obsidiana era a ilha de Melos, nas Cíclades.
    Imagem: lâminas de obsidiana de Melos, Cíclades. Zdeněk Kratochvíl, CC BY-SA 4.0.
  2. Nea Nicomedia, na Tessália, assim como as culturas gregas posteriores, tinha estreitas relações com a cultura de Starčevo-Kőrös-Criş da Europa Oriental. Essa cultura é importantíssima para a compreensão do povoamento neolítico do resto da Europa, iniciado entre -5500 e -4000.
  3. Acrópole (gr. ἀκρόπολις) é o nome dado às colinas fortificadas que nas antigas cidades gregas foram ocupadas primeiramente pelos palácios micênicos e, já na época clássica, pelos mais importantes prédios públicos da pólis (os templos, por exemplo).
    Imagem: a acrópole de Atenas no século XIX → Iluminura 1134.
  4. Mégaro (do gr. μέγαρον) é uma construção retangular que tem as paredes mais longas formando um pórtico em frente a um dos lados menores, onde há uma entrada; pode haver pilares para sustentação do teto. A forma “mégaron”, transcrita do grego, deu lugar à forma “mégaro” nos modernos dicionários da língua portuguesa (cf. Aurélio, s.v.).
    Imagem: mégaro de Jericó, Israel, -7000/-6000. Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0.

Referências

G. Bailloud, O Neolítico, in A. Leroi-Gourhan (org.), Pré-História, trad. J. Uratsuka & C.D.R. Garcia, São Paulo, Pioneira e EdUSP, 1981, p. 143-84.

Créditos das ilustrações

0168Contorno: “Fut.Perf.”, 2009. Dados: Wilson A. Ribeiro Jr., 2017. Fonte: Wikimedia Commons/ Domínio público.
0109Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1999. Apud Bailloud (1981) → / Fair use.
0110Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1999. → / CC BY-NC-ND 4.0.
0111Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1999. Apud Leroi-Gourhan (1981, p. 155). Acervo: Atenas, Museu Arqueológico Nacional. → / Fair use.
0112Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1999. Apud Vermeule (1992)/ Fair use.
0113Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1999. Apud Vermeule (1992)/ Fair use.
i0180O mégaro de Sesklo → Ver comentários.
i0006Uma casa de Dimini → Ver comentários.
i0786Artefatos neolíticos e cerâmica de Sesklo → Ver comentários.
i0788Artefatos neolíticos de Olinto → Ver comentários.
i0737Cerâmica neolítica de Dimini → Ver comentários.
i1035Cerâmica neolítica de Lerna → Ver comentários.
i0011Deusa-mãe de Nea Nikomedia → Ver comentários.
i0072Deusa-mãe neolítica com a criança → Ver comentários.
i0970Estatueta feminina de Lerna → Ver comentários.
i0738Um pensador neolítico → Ver comentários.
i0977Impressão de selo em argila → Ver comentários.
i0978Cilindro de argila com incisões → Ver comentários.

Em outras partes do Portal

Links externos

Imprenta

Artigo nº 0293
publicado em 06/07/2000. Atualização: 17/04/2009.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. O Neolítico na Grécia continental. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0293. Consulta: 17/11/2017.
 
Portal Grécia Antiga ISBN 1679-5709 On-line desde 04/11/1997 f   t   i   i Sobre o Portal Ajuda FAQs Mapa do site Termos de uso 10/11/2017 ← novidades Contato Outras páginas do autor
 Wilson A. Ribeiro Jr., 1997-2017