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Heládico Recente: os micênios até -1400

 
Círculo tumular A

A cultura micênica, desenvolvida a partir da crescente interação entre mínios e cretenses de -1700 em diante, floresceu no Peloponeso, especialmente na Argólida e na Messênia. A transição do Heládico Médio (mínios) para o Heládico Recente (micênios), cristalizou-se por volta de -1550 e não foi tão brusca como se pensava até recentemente.

A evidência mais marcante dessa passagem foi o progressivo enriquecimento material de algumas comunidades no fim do Heládico Médio, representado pelo riquíssimo mobiliário fúnebre encontrado em Micenas, na Argólida, e em vários locais da Messênia. Características da cultura miniana, porém, continuaram presentes durante muito tempo em toda parte, notadamente na Tessália.

A arquitetura fúnebre

A maioria dos sepultamentos era efetuada em fossas simples e em cistas[1], mais ou menos como antes; na etapa micênica inicial, porém, se destacam os túmulos de poço (shaft graves) de Micenas e os túmulos-tolos[2] e túmulos de câmara da Lacônia (Vafio), da Argólida (Micenas) e da Ática (Thorikos). Os túmulos-tolos são um pouco mais antigos do que os túmulos de câmara.

Os túmulos de poço do Círculo Tumular A de Micenas, datados de -1600/-1500, estão entre as mais famosas edificações fúnebres do mundo. Foram construídos praticamente da mesma forma que os túmulos do Círculo Tumular B, mais antigos, mas eram mais profundos, mais bem acabados e muito, muito mais ricos do que eles. E eram usados, também, para sepultamentos múltiplos.

O recinto dos túmulos de câmara, escavado em uma rocha ou em uma encosta, tinha formato muito variável, com entrada (stomion) e corredor de acesso (dromos). O túmulo-tolo também tinha dromos, só que o stomion era em geral um pórtico monumental e a câmara fúnebre se construía segundo um plano circular. O teto do tolo, caracteristicamente abobadado, era mais tarde recoberto com terra e resultava em um monte artificial.

Escultura e cerâmica

As únicas peças de escultura monumental do período são as treze estelas de pedra que marcavam as sepulturas do Círculo Tumular A de Micenas, com baixos-relevos representando cenas de caça, guerra e combates, temas nitidamente micênicos. As cinco máscaras funerárias encontradas nos túmulos de poço, modeladas em finíssima folha de ouro colocada sobre madeira esculpida (aparentadas à mascara de electro[3] do Círculo Tumular B) são também peças únicas. Duas, talvez, reproduzem com certa fidelidade as feições do defunto; as outras são representações convencionais. Havia também pequenas peças esculpidas em marfim, todas de temática micênica.

A cerâmica miniana e a cerâmica de “fundo mate”, características do Heládico Médio, continuaram sendo produzidas em grande quantidade, ao lado de simples imitações de vasos cretenses. Os primeiros vasos eminentemente micênicos, encontrados apenas no Peloponeso, mostram a fusão de elementos continentais, cretenses e cicládicos. Por volta de -1450 os temas se tornaram cada vez mais estilizados e estereotipados, afastando-se então quase totalmente da influência minoica.

Há evidências de uma pequena produção de vasos e objetos de faiança na Argólida.

Joias e outros objetos

As ferramentas não evidenciam nenhuma evolução significativa; o armamento, por outro lado, progrediu intensamente. Facas, punhais, espadas curtas e longas (uma novidade no continente), lanças, capacetes de dentes de javali (mencionados por Homero), escudos em oito e de forma cilíndrica, assim como carros de combate, evidenciam a mentalidade guerreira das comunidades ou, pelo menos, das elites.

As joias, adereços, gemas gravadas e numerosos objetos de luxo, encontrados principalmente nas ricas sepulturas do Círculo Tumular A, mostram grande predominância da estética e das técnicas minoicas. São notáveis os diademas, os pequenos discos de ouro gravados, as armas de aparato e as taças de ouro e de prata.

Aglomerações urbanas e economia

A despeito de sérias lacunas em nossos conhecimentos, há evidências de expansão demográfica em diversos sítios que já existiam no Heládico Médio, notadamente no Peloponeso. As concentrações mais significativas foram detectadas em locais que, mais tarde, iriam se transformar em centros de poder: Micenas, Pilos, Tebas e Orcômeno. As características básicas dos edifícios e das aglomerações urbanas, por outro lado, continuaram praticamente as mesmas do Heládico Médio, exceto talvez pelo maior tamanho de alguns edifícios.

O aumento demográfico pode refletir melhores condições econômicas da população, que continuava vivendo basicamente da agricultura. Em Lerna, foi introduzido o sistema tripartido de culturas (oliveira, vinha e cereais) praticado há muito tempo em Creta e nas Cíclades. Em Laurion (Ática) as minas de chumbo argentífero começaram a ser exploradas pouco antes de -1500.

Além dos intensivos contatos com as comunidades cretenses e cicládicas, há evidências de contatos com o Oriente Médio (Fenícia, Egito, Chipre), com Troia VI e com a Europa Ocidental. Não há provas, porém, de que os micênios já dispusessem de marinha mercante de longo curso nessa época; é possível, portanto, que praticamente todos os contatos através do Egeu tenham sido intermediados pelos cretenses, então em seu apogeu. As trocas com a Europa Ocidental podem não ter ocorrido, igualmente, de forma direta.

Estrutura social

As mais significativas mudanças no estilo de vida das comunidades parecem ter se dado somente no âmbito dos construtores das sofisticadas estruturas fúnebres da Argólida e da Messênia. A espantosa riqueza dos túmulos, assim como as superiores condições físicas dos corpos sepultados, sugerem que esses homens e mulheres ocuparam os mais elevados estratos sociais da comunidade. Pela quantidade desses túmulos, várias famílias tinham podem aquisitivo e, possivelmente, influência bastante para representar o que poderíamos chamar de classe dirigente. Se os enterros múltiplos eventualmente representam dinastias locais, havia seguramente mais de uma. Não há nenhuma evidência, até hoje, de centralização política ou econômica de qualquer natureza.

Discute-se ainda — e com certa veemência — a origem das riquezas ostentadas pela elite micênica, sucessora dos chefes comunitários do Heládico Médio. Dada a grande quantidade de armas encontradas nos túmulos, é lícito supor que as atividades militares tenham sido pelo menos um dos fatores envolvidos. Segundo Martin (1996, p. 27), um possível reflexo dessa sociedade pode ser encontrado na Ilíada: os belicosos heróis do poema de Homero viviam longe de casa (...), sempre interessados em saquear Troia e outros locais. Uma taça de prata com relevos, encontrada no túmulo IV do Círculo Tumular A, representa efetivamente uma cidade fortificada sitiada por soldados.

Além da classe dirigente, há evidências da existência de uma classe de artesãos especializados que confeccionava vasos e objetos de luxo destinados, certamente, às diversas elites.

Religião

O único local de culto conhecido é o do Monte Kynortion, próximo de Epidauro, porém não há semelhanças evidentes com os cultos minoicos em locais elevados. Alguns objetos encontrados em tumbas sugerem a possibilidade de uma tradição religiosa puramente local, sem conexão com a cultura minoica, mas há realmente pouquíssimos elementos para qualquer conclusão.

Outras iluminuras

 
Jarro micênico do estilo marinho.
 
Relevo micênico com espirais e cena de caça.
 
Adaga com cena de caça.
 
Duas deusas e a criança.
 
Máscara mortuária do Período Micênico.
 
Diademas e joias micênicas.
 
Homem dominando touro.
 
Jarra efireia.
 
Cidadela de Tirinto.

Notas

  1. Cista (do lat. cista, ‘caixa’) é uma sepultura em forma de caixa revestida de pedras no fundo. As cistas podiam ser enterradas abaixo do nível do chão ou construídas na superfície; nesse caso, eram habitualmente cobertas por um monte de terra (túmulo). Em alguns tipos mais avançados as paredes eram eventualmente revestidas com lajes de pedra.
    Imagem: túmulo em cista de Micenas, Heládico Médio. Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0mais informações AQUI.
  2. Na Antiguidade Clássica, o tolo (lê-se tólo), do gr. θόλος (pl. θόλοι, lat. sg. tholu), era um edifício circular, às vezes cercado de colunas e utilizado como templo; os arqueólogos, no entanto, usam esse termo para designar estruturas circulares com abóbada. Nas antigas culturas do Mediterrâneo e do Oriente Médio a base das paredes era geralmente de pedra, e ainda há muita discussão quanto à técnica empregada na construção da abóbada. As mais antigas edificações com esse formato são, aparentemente, as da Ásia Ocidental (exemplo ao lado). Em tempo: a forma transliterada tholos deve ser abandonada em favor da forma “tolo”, já dicionarizada (cf. Aurélio s.v.).
    Imagem: Arpachiyah, Turquia, -5000/-4000, planta (E) e reconstituição (D). Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0.
  3. O electro é uma liga natural com predomínio de ouro (40-90%) e prata, associados a traços de cobre e outros metais. Na Antiguidade era encontrado notadamente em jazidas da Ásia Menor e considerado ouro de qualidade inferior.
    Imagem: amostra do Estado de Washington, EUA. Pittsburgh, Museu Carnegie de História Natural. James St. John, CC BY 2.0.

Créditos das ilustrações

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Artigo nº 0482
publicado em 03/08/2003.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
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RIBEIRO JR., W.A. Heládico Recente: os micênios até -1400. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0482. Consulta: 28/06/2017.
 
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