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Salmoneu e Tiró

 
A loucura de Salmoneu / Átamas

Salmoneu (gr. Σαλμωνεύς), filho mais velho de Éolo e irmão de Sísifo, Átamas e Alcione, é conhecido basicamente por um episódio que psiquiatras contemporâneos classificariam de insanidade pura e simples.

Oriundo da Tessália, Salmoneu emigrou para a Élida, região do noroeste do Peloponeso, e estabeleceu um reino conhecido por Salmonia (ou Salmone) perto de Pisa, fundado por ele com o auxílio de alguns companheiros tessalianos (Apollod. 1.9.7, Str. 8.3.32, D.S. 4.68.1-3 e 6.6.4). Sua esposa se chamava Alcídice e tiveram apenas uma filha, Tiró (gr. Τυρώ).

A Υβρις[1] de Salmoneu

Salmoneu era arrogante e altivo, mas era rei e tudo ia muito bem até que se convenceu de que era Zeus, nada mais, nada menos... Exigiu que os súditos lhe oferecessem os sacrífícios devidos a Zeus e lhe prestassem as homenagens correspondentes (Verg. Aen. 6.585-94). E prendeu χάλκεοί τε λέβητες, ‘caldeirões e bronzes’, à sua carruagem e atirava tochas (Ehoeae Fr. 26-7, Apollod. 1.9.7), tentanto imitar o trovão e o raio, atributos pessoais do deus.

Zeus obviamente não gostou nem um pouco da empáfia de Salmoneu e da ridícula apropriação de suas prerrogativas divinas. Fulminou-o com um raio de verdade, lançou-o nas profundezas do Tártaro e arrasou a cidade e seus habitantes, mas poupou Tiró, que tentara dissuadir o pai de suas loucuras. Talvez a punição divina tenha se estendido aos súditos de Salmoneu porque eles atendiam suas insanas exigências.

A(des)venturas de Tiró

Depois da destruição de Salmoneu e de seu reino, a jovem e bela Tiró foi levada por Zeus ao seu tio Creteu, em Iolco, que acabou de criá-la (Ehoeae Fr. 27). Quando chegou à idade apropriada, Posídon se apaixonou por ela e a engravidou às margens do rio Enipeu. Segundo a Odisseia (11.238-53), ela havia por sua vez se enamorado de Enipeu e ia sempre até suas águas, e Posídon assumiu o aspecto do rio para abordá-la.

Tiró teve dois filhos gêmeos com Posídon, Pélias e Neleu, futuros reis de Iolco e de Pilos, respectivamente. De acordo com tradições tardias que possivelmente refletem temas recorrentes nos dramas áticos do Período Clássico, ela teve que abandonar as crianças e era maltratada por Sidero, esposa de Creteu. Os meninos foram, no entanto, salvos por pastores ou mercadores que por ali passaram, cresceram, voltaram, salvaram a mãe dos maus tratos da madrasta e mataram Sidero.

Mais tarde seu tio Creteu se casou com ela e lhe deu mais três filhos (Od. 11.258-9): Éson, futuro pai de Jasão, Amitáon, futuro pai de Melampo, e Feres, futuro pai de Admeto.

Fontes antigas

Há um resumo da história de Tiró na Odisseia (11.235-59), e da história de Salmoneu e Tiró no Catálogo das Mulheres (Fr. 26-30). Detalhes de seu mito e da localização do reino de Salmoneu só são encontrados, no entanto, em autores gregos e romanos tardios, notadamente Virgílio (Aen. 6.55-94), Pseudo-Apolodoro (1.9.7-8), Estrabon (8.3.32), Diodoro Sículo (4.68.1-3 e 6.6.4), Pseudo-Higino (60, 61 e 239) e Galeno (10.18-19).

A única representação antiga de Salmoneu que chegou até nós, e ainda controvertida, é uma cena de vaso [Ilum. 1193] de meados do século -V, e há referências a uma pintura de Salmoneu feita por Polignoto (AP 3.9), que viveu também nessa época. Tiró aparece em alguns espelhos etruscos e em pelo menos um baixo relevo da Itália meridional, todos do final do Período Clássico e início Período Helenístico. Datam também dessa época algumas estatuetas de terracota que representam Tiró e os gêmeos [Ilum. 1194].

Variantes

A Odisseia (11.236) estranhamente qualifica Salmoneu de ἀμύμονος, ‘irrepreensível’. Valério Flaco, na Argonautica (1.569), diz que Salmoneu sobreviveu à sua loucura e teve oportunidade de ajudar seu sobrinho Jasão.

No epigrama 3.9 da Antologia Palatina e em Diodoro Sículo (4.68.1, 6.7.2-3), é o próprio Salmoneu, casado em segundas núpcias com Sidero, que maltrata Tiró. Sidero atormenta a jovem porque é sua madrasta, ou porque descobriu que ela foi seduzida.

O Pseudo-Higino (60 e 239) afirma que Sísifo, irmão de Salmoneu, teve filhos com Tiró, mas que ela os matou porque o Oráculo de Apolo vaticinou que eles futuramente matariam o pai dela, Salmoneu.

Influências

Salmoneu e Tiró foram, na Antiguidade, personagens de tragédias (Tiro I e Tiro II, de Sófocles), de dramas satíricos (Salmoneu, de Sófocles) e de comédias (Epitrepontes, de Menandro); todas chegaram até nós em estado altamente fragmentário. Sófocles menciona Salmoneu na tragédia perdida Ájax, o Lócrio (Fr. 10c) e Eurípides, na tragédia perdida Éolo (Fr. 14).

Os poetas romanos Ovídio (Her. 19.139) e Propércio (1.13 e 3.19) lembraram Salmoneu e Tiró em seus poemas e, em nossos dias, o poeta Ezra Pound falou sobre Tiró no Canto II de seus The Cantos (1924/1925).

Outras iluminuras

 
Tiró e seus filhos.

Notas

  1. A palavra grega ὕβρις, ‘insolência’, ‘desmedida’, se refere ao orgulho e à confiança excessiva, fundamentada ou não, que os seres humanos eventualmente expressam. Essa reprovável atitude aos olhos dos gregos antigos se contrapunha diretamente à moderação que, a seu ver, deveria nortear todos os tipos de comportamento humano. Na mitologia grega, os deuses invarialmente punem os mortais que, em palavras ou atos, ultrapassam a justa medida de orgulho pelo sucessos obtidos tanto pelo acaso, reflexo dos desígnios dos deuses, quanto pelo resultado da competência e da capacidade humana.

Créditos das ilustrações

i1193A loucura de Salmoneu / Átamas → Ver comentários.
i1194Tiró e seus filhos → Ver comentários.

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Artigo nº 1053
publicado em 16/07/2016.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
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RIBEIRO JR., W.A. Salmoneu e Tiró. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=1053. Consulta: 16/12/2017.
 
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