Hespérides

Seção: mitologia grega760 palavras

As hespérides personificam a luz crepuscular do final da tarde, na transição entre o dia e a noite.

Origem e natureza

As hespérides (gr. Ἑσπερίδες) são descendem diretas de Nix. Ninfas de bela voz, vivem em longínquo e inacessível jardim situado no extremo Oeste, além das margens de Oceano, onde o sol se põe. Atlas sustentava o céu ali perto e as górgonas viviam nas proximidades.

O jardim das Hespérides era particularmente conhecido pelas árvores com maçãs (pomos) de ouro, plantadas pela deusa Hera. As maçãs foram presente de Gaia a Hera, por ocasião de seu casamento com Zeus. O jardim também tem fontes de ambrosia e Zeus costuma ir lá repousar.

iHespérides, Ládon, Héracles e Iolau

Árvores e pomos de ouro eram vigiados por uma gigantesca serpente, Ládon (gr. Λάδων), que descendia de Fórcis e Ceto. De acordo com os pintores de vasos, hespérides e serpente se davam muito bem.

As hespérides eram três: Egle, Hespera e Eriteis (ou Eriteia). Os nomes são alusões, respectivamente, à luz do sol, ao entardecer e à vermelhidão do céu.

Os mitos das Hespérides

O jardim e as hespérides participam, juntamente com Atlas, do 11º trabalho de Héracles.

Pouquíssimo tempo depois da saída de Héracles, as hespérides auxiliaram os argonautas a encontrar água.

De acordo com Colutos (Rapto de Helena 59-63), o “pomo da discórdia” que Éris utilizou para desencadear a Guerra de Troia veio de lá.

Hesíodo, Teogonia 215-7, 274-5, 333-5 e 517-8; Mimnermo 12; Estesícoro S 8; Ferécides F 16; Eurípides, Hipólito 742-51 e Héracles 394-9; Apolônio de Rodes 4.1396-449; Pausânias 5.11.6, 5.17.2 e 6.19.8.

Iconografia

Do Período Arcaico em diante as hespérides foram retratadas por escultores, como Teocles (c. -550) e Fídias (c. -490/-430), mas essas obras se perderam. Algumas cenas de vasos do Período Clássico chegaram, no entanto, até nós.

As hespérides eram representadas como mulheres jovens e belas em meio a árvores frutíferas, usualmente na companhia de uma serpente enroscada no tronco de uma delas. Héracles estava presente com frequência.

Variantes

De acordo com Êumelo (Titanomaquia F 9), Acusilau (F 10) e Epimênides dizem que as harpias são as guardiãs do jardim, porém as identifica com as hespérides. Diodoro Sículo afirma que elas cuidavam de belos carneiros, e não de maçãs, e que Drácon era o nome de seu pastor.

Em Ferécides (F 16), as hespérides são filhas de Zeus e Têmis; em Apolônio de Rodes (1414), de Oceano; e em [Higino] (Histórias, prefácio 1) e Cícero (Da natureza dos deuses 3.44), de Érebo e Nix. Diodoro Sículo (4.27) detalha que são filhas de um mortal denominado Atlas e sua sobrinha-esposa Hesperis. Há outras versões, todas tardias.

iO jardim das hespérides

A quantidade de hespérides varia de duas (Fídias) a sete (Diodoro Sículo 4.27), dependendo do autor ou artista. Os nomes variam muito.

O Jardim se localiza na Líbia (Diodoro Sículo 4.26) ou no extremo norte, entre os hiperbóreos ([Apolodoro], Biblioteca 2.5.11), ou em Tartesso (Estrabon, Geografia 3.2.13), no sul da Península Ibérica. Há mais versões, entre elas a de Luís de Camões (Lusíadas 5.8.1-6, 1576), que situou o jardim no arquipélago de Cabo Verde (Neto 2008, p. 191).

Para Ateneu (3.83c), os pomos eram ‘cidras’ (gr. sg. κίτριον), os frutos da cidreira.

Recepção

As hespérides e seu jardim eram frequentemente mencionadas pelos poetas, particularmente Estesícoro e Eurípides, entre os antigos, e Nono de Panópolis (375-450), entre os da Antiguidade tardia. Poetas romanos (e.g. Virgílio, Eneida 4.480-6) também as citavam.

Até meados da Idade Média, a laranja doce não era conhecida na Europa. Da mesma família da cidra, foi introduzida pelos árabes no século X e, em alguns séculos, a laranja era uma espécie de moda na mesa dos ricos e poderosos. Na Itália, durante a Renascença, jardins ornamentais com laranjeiras eram equiparados ao Jardim das Hespérides; a fruta, aos míticos pomos de ouro; e Héracles se tornou o mítico introdutor dos dourados frutos do Jardim no mundo dos mortais (Paulus, 2017).

Poetas como Giovanni Pontano (1500), Robert Greene (1594) e Robert Herrick (1647) cantaram muito as laranjas, o Jardim e as hespérides, e pouco a serpente. Botânicos como Giovanni Battista Ferrari (1646) e Johann Christoph Volkamer escreveram sobre laranjas, sob o título Hesperides (1646 e 1708, respectivamente). E pintores como Jan van Eyck (O Casal Arnolfini, 1434) e Sandro Boticelli (Primavera 1477/1482) recorreram a laranjas e laranjeiras em suas obras.

iAs guardiãs do jardim

Após a Renascença, notadamente em pinturas de William Turner (A deusa da discórdia..., 1806), Frederic Leighton (O Jardim..., 1892) e outros, o Jardim era visto como sinônimo de tranquilidade, ócio e beleza.

Em 1721, Pietro Metastasio (libreto) e Nicola Porpora (música) apresentaram em Nápoles uma cantata intitulada Gli Orto Esperidi, ‘O Jardim das Hespérides’. E, como no antigo mito, as Hespérides cantaram...