Homero / Ilíada: livro 1

Seção: literatura grega900 palavras
Ἰλιάς Α Ilias 1 Il. 1 (ou Hom. Il. 1) -750 / -725

O primeiro livro da Ilíada contém 611 versos e aborda a peste, a querela entre Aquiles e Agamêmnon e o desígnio de Zeus, funesto para os gregos.

A principal função do Livro 1 é o estabelecimento do cenário e dos personagens do poema. O narrador conta como começou a cólera de Aquiles, presente em toda a obra, introduz personagens importantes, como Agamêmnon, Calcas, Nestor e Odisseu, e delineia a participação dos deuses gregos na história.

Resumo

1.1-7 Invocação à musa e enunciação do tema da epopeia. 8-42 No acampamento grego, Crises, sacerdote de Apolo, oferece rico resgate a Agamêmnon em troca de uma cativa, sua filha Criseida. Agamêmnon recusa grosseiramente e expulsa o velho; Crises invoca a ira de Apolo 43-53 e o deus provoca uma praga que mata homens e animais durante nove dias.

iA súplica de Crises

54-100 No décimo dia, Aquiles convoca uma assembleia e Calcas revela que a culpa é de Agamêmnon e que a praga cessará somente com a devolução de Criseida e um sacrifício a Apolo. 101-87 Agamêmnon cede, aborrecido, e se desentende com Aquiles ao exigir que Briseida, cativa de Aquiles, substitua Criseida. Indignado, Aquiles ameaça retirar-se da luta e voltar à Ftia, com seus mirmidões, 188-222 e está a ponto de matar Agamêmnon quando a deusa Atena, visível apenas para ele, intervém. 223-307 O idoso e sábio Nestor tenta, inutilmente, reconciliar os dois antagonistas.

308-347 Agamêmnon envia Criseida numa nau liderada por Odisseu, providencia a purificação dos soldados e sacrifícios a Apolo e envia seus arautos para tomarem Briseida. Aquiles não oferece resistência, todavia reforça seu juramento de se afastar dos combates. 348-429 A seguir, amargurado e enfurecido, invoca sua mãe, a deusa Tétis, e pede-lhe que intervenha junto a Zeus a favor dos troianos, para que os gregos se arrependam de não tê-lo a seu lado. Tétis, a quem Zeus deve um favor, concorda. 430-92 Enquanto isso, em Crisa[1], Odisseu devolve a filha de Crises a seu pai e oferece um sacrifício a Apolo, que interrompe a praga.

iA tomada de Briseida

493-532 Dias depois, no Olimpo, Tétis apresenta sua súplica a Zeus e é atendida. 533-69 Hera reprova a decisão de Zeus; ela e o marido discutem asperamente, mas 570-608 seu filho Hefesto consegue desanuviar o ambiente. Os deuses olímpicos festejam e se recolhem; 609-11 Zeus e Hera dormem pacificamente, lado a lado.

Influências

A tristeza de Aquiles após a perda de Briseida foi retratada por Ésquilo na tragédia fragmentária Mirmidões (F 131-42) por meio da cabeça encoberta do herói e de seu prolongado silêncio, motivo que se tornou célebre. A terceira carta imaginária das Heroídes de Ovidio (c. -25/-16) é de Briseida e dirigida a Aquiles.

Criseida, inicialmente confundida com Briseida e considerada filha de Calcas, tornou-se personagem do romance medieval Roman de Troie, de Benoît de Saint Maure (1155-1160). A história não homérica de seu triângulo amoroso com Troilo, filho de Príamo e com o guerreiro grego Diomedes, inspirou por sua vez poemas e peças de teatro. As obras mais importantes são as de Giovanni Boccaccio (Filostrato, 1335-1340), Geoffrey Chaucer (Troilus and Criseyde, c. 1385), Robert Henryson (The testament of Cressida, sæc. XV) e William Shakespeare (Troilus and Cressida, 1602).

iA querela de Aquiles e Agamêmnon

Vários episódios do livro 1 inspiraram obras de arte gregas, romanas e pós-antigas, notadamente a súplica de Crises a Agamêmnon, a querela de Agamêmnon e Aquiles, a tomada de Briseida e a súplica de Tétis a Zeus.

Da arte grega destacam-se cenas de vasos de figuras vermelhas que representam a súplica de Crises (Paris K 1 = [Ilum. 0831]), Aquiles e Briseida juntos (Lecce 571) e a tomada / entrega de Briseida (Paris G 146, Londres 1843,1103.92 = [Ilum. 1468]). Mosaicos romanos (Nabeul 1555680, Nápoles 10006 e 9105) se inspiraram na súplica de Crises, na querela de Agamêmnon e Aquiles e na tomada de Briseida, e um papiro ilustrado (PMonac. 128, sæc. IV) tem um esboço com a tomada de Briseida.

iA súplica de Tétis

Todos os episódios, inclusive a devolução de Criseida e cenas de Aquiles e Briseida sozinhos, representados como um casal, foram reproduzidas por muitos pintores e desenhistas neoclássicos. Destacam-se, dentre as obras dos grandes mestres, duas Iras de Aquiles (Peter Paul Rubens, 1630-1635 e Giovanni Battista Tiepolo, 1757), uma representação de Aquiles recebendo os emissários de Agamêmnon (Jean Auguste Dominique Ingres, 1801) e a súplica de Tétis a Zeus (Ingres, 1811).

Edições e traduções

A mais recente edição comentada e específica do primeiro livro da Ilíada é a de Simon Pulleyn (2000).

Passagens selecionadas

O primeiro livro foi estudado e traduzido isoladamente no século XIX por José Maria da Costa e Silva (“Elpino Tagidio”, 1810/1811), Joaquim José Caetano Pereira e Souza e Francisco Xavier Monteiro de Barros, estes últimos em data desconhecida.

Nos séculos XX-XXI, dispomos de traduções de Haroldo de Campos e Trajano Vieira (1994), e de Antonio Medina Rodrigues (2007).