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730 palavras

O geométrico recente

 
Lamentação do morto

Entre -760 e -700, aproximadamente, as figuras de homens e animais conhecidos desde o geométrico médio começaram a ocupar espaço cada vez maior na superfície dos vasos. Ornamentos puramente geométricos ainda recobriam, no entanto, boa parte dos vasos.

As imagens, esquemáticas, desenhadas praticamente sem perspectiva e altamente estilizadas, com frequência formavam cenas reconhecíveis da vida comum. É impossível afirmar, no entanto, que essa ou aquela cena representa episódios míticos popularizados nos vasos dos séculos seguintes, mas a presença de centauros parece indicar que os mitos gregos já inspiravam os artistas da época.

Ática

Nas últimas décadas do século -VIII, o aumento da população e da prosperidade refletiu-se na quantidade e qualidade dos vasos, principalmente nos encontrados em sepulturas mais ricas. Ânforas enormes e ricamente decoradas com elaboradas figuras em painéis marcavam esses túmulos e, embora simples, as imagens eram expressivas e constituíam verdadeiras narrativas.

Fig. 0175. Lamentação (πρόθεσις).

Painéis com desfiles, cenas musicais, batalhas e navios em viagem são particularmente impressionantes. Duas cenas fúnebres são emblemáticas desse período: a lamentação (gr. πρόθεσις) do morto[1] e o cortejo (gr. ἐκφορά) até a sepultura. Nas cenas de lamentação (Fig. 0175), o defunto usualmente jaz sobre algum tipo de leito e está cercado de várias figuras femininas de pé ou sentadas, as mãos erguidas até a cabeça, representando o arrancamento ritual de cabelos. Nos cortejos (Fig. 0176), guerreiros armados à pé e em carruagens com vários cavalos desfilam, portando escudos arredondados e até capacetes.

Fig. 0176. Cortejo fúnebre (ἐκφορά).

Em Atenas, que aparentemente esteve na vanguarda das inovações, é possível reconhecer o estilo de alguns pintores ou de alguns grupos. Não sabemos o nome de nenhum deles, mas os eruditos recorrem a uma série de apelidos para diferenciá-los. Os mais importantes são o Pintor do Dipylon (c. -760/-750), o Pintor de Hirschfeld (-750/-735) e os membros de seus ateliês.

Outras regiões

Na Ática, o estilo geométrico recente perdurou até -700, mais ou menos. Nas demais regiões, inclusive em novos territórios povoados por imigrantes gregos, se estendeu até a segunda parte do século -VI. Em certos casos (e.g. Lacônia, Beócia) se fala em estilo subgeométrico.

A influência dos ceramistas e decoradores atenienses é generalizada, embora a preponderância de vasos de figuras, de cenas ou de motivos geométricos varie muito de região para região. Na Eubeia, predominam detalhadas cenas com homens e com animais, e o Pintor de Cesnola (c. -750/-740) é o mais importante dos artistas da época. Em Corinto e na Beócia a influência oriental é acentuada, e algumas cenas pintadas na Beócia têm nítida inspiração mítica. Alguns vasos coríntios mostram apenas duas aves separadas por delicados ziguezagues.

Fig. 0177. Fragmento de cratera de Ísquia.

Nas Cíclades, notadamente em Paros e em Tera, predominavam representações estilizadas de rodas, círculos e aves; na Argólida, de homens e cavalos; em Creta e em diversas ilhas, de aves. E o misterioso Grupo de Tapsos, presente em Delfos, Tebas, Peloponeso e Sicília, decorou diversos vasos com cenas náuticas.

Um fragmento de cratera de Ísquia, ilha povoada por imigrantes da Eubeia, traz parte do nome do mais antigo ceramista / pintor grego conhecido (Fig. 0177). A inscrição contém, da direita para a esquerda, a fórmula que se tornaria comum nos séculos seguintes: [...]ΙΝΟΣ Μ' ΕΠΟΙΕΣ[ΕΝ], ‘...ino me fez’ ou ‘me pintou’.

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Notas

  1. A lamentação é tema comum nas obras artísticas da Idade Média e Renascimento que representam os lamentos de Maria e outros personagens em torno do corpo morto de Cristo. Em geral é a arte cristã que recorre a temas e convenções da arte grega; aqui, ao contrário, tomei emprestado termo usualmente restrito à arte cristã para traduzir a palavra grega πρόθεσις, que designa a parte da tradicional cerimônia fúnebre grega na qual mulheres choravam de forma exagerada ao lado do morto, antes do cortejo fúnebre. A palavra portuguesa “prótese” deriva de outros significados da palavra grega.
    Imagem: óleo sobre tela de David Kindt, 1631. Paris, Museu do Louvre, A. Dequier & M. Bard, cl / uso não comercial.

Referências

Jeffrey Klein, A Greek Metalworking Quarter, Expedition Magazine, v. 14, n. 2, 1972, p. 34-9. URL: www.penn.museum/sites/expedition/?p=2280. Data: 21/01/2013. Camila Diogo de Souza, Carolina K. Barcellos Dias, The iconography of death: continuity and change in prothesis ritual through iconographical techniques, motifs, and gestures depicted in greek pottery. Classica, v. 31, n. 1, p. 61-87, 2018. [disponível on-line]

Créditos das ilustrações

i1304Lamentação do morto → Ver comentários.
f0175Desenho de Yannis Nakas, apud Il. i0955. Fonte: Souza e Dias (2018, p. 68) → / CC BY-SA 4.0.
f0176Desenho de Yannis Nakas. Fonte: Souza e Dias (2018, p. 67) → / CC BY-SA 4.0.
f0177Fonte: Klein (1972, p. 39) → / Fair use.

Imprenta

Artigo nº 1157, publicado em 14/11/2004. Última atualização: 25/01/2019.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. O geométrico recente. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=1157. Consulta: 15/10/2019.
 
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