Eurípides / Fragmentos satíricos

Seção: literatura grega970 palavras
Fragmenta Eur. F

No século -III, os eruditos da Biblioteca de Alexandria conheciam apenas oito dramas satíricos de Eurípides, mas é provável que o poeta tenha escrito muitos mais.

Um deles, O ciclope (gr. Κύκλωψ), está completo; dos outros temos o título, exíguos fragmentos e algumas informações conservadas por eruditos que leram os textos na Antiguidade.

Os dramas satíricos fragmentários são: Autólico A, Autólico B, Busíris, Epeu, Euristeu, Os ceifeiros, Lâmia, Sísifo, Círon e Sileu.

Não temos certeza sobre o exato papel de Sileno e dos sátiros no enredo de alguns desses dramas; em dois deles, Ceifeiros e Epeu, nem mesmo conhecemos o tema básico (Ribeiro Jr. 2018a-b).

E a única data de que temos certeza é a de Os Ceifeiros, representado juntamente com Medeia em -431 (Ribeiro Jr., 2015; 2018c).

Temas satíricos

Nos dramas Busíris, Euristeu, Círon e Sileu, Eurípides recorreu ao tema da vitória do herói (Héracles ou Teseu) sobre um poderoso ogro (não necessariamente monstruoso como no Ciclope), provavelmente libertando os sátiros dominados por eles.

O tema exato dos dois Autólicos e do Sísifo são muito menos evidentes, e praticamente nada sabemos sobre o enredo de Epeu (gr. Ἐπειός, F *988), de Os ceifeiros (gr. Θερισταί, sem fragmentos) e de Lâmia (gr. Λάμια, F 472m). Especulações, há muitas; dados indiscutíveis e fatos, muito poucos...

Autólico A e Autólico B

F 282-4 (gr. Αὐτόλυκος αʹ, βʹ). Autólico era um dos filhos de Hermes (Od. 19.395-6; Hes. F 65; 67-8; Ov. Met. 11.313-5), notável pela habilidade de enganar, por seus perjúrios e pela capacidade de roubar sem ser descoberto.

Acredita-se que o drama A se baseia no episódio do roubo do gado de Sísifo, conservado pelo Pseudo-Higino (Fab. 201), e que o drama B trata do episódio conservado por Tzetzes (H. 8.435-53), no qual Autólico entrega sua filha Anticleia (mãe de Odisseu) a Sísifo, mas recorre às suas habilidades para trazer a bela moça de volta e deixar em seu lugar um sátiro velho e feio, isto é, Sileno.

O F 282, com 28 versos e o mais extenso dos fragmentos satíricos de Eurípides, é uma inventiva contra os atletas e não se conseguiu ainda situá-la em um dos dois possíveis enredos.

Busíris

Argumento (P. Oxy. 3651.22-7) e F 313-5 (gr. Βούσιρις). A presença do faraó Busíris, que sacrificava todos os estrangeiros que chegavam ao Egito para evitar a seca, sinaliza que o drama se baseia em parte no 11º Trabalho de Héracles.

 
Ilum. 1244 / Héracles liquida Busíris e entourage

Passando pelo Egito, Héracles foi preso pelos acólitos do faraó e levado ao altar de sacrifícios, mas quebrou as correntes e matou Busíris, o filho dele, o arauto egípcio, os sacerdotes, os guardas, etc. e tal e continuou a viagem. Não se sabe exatamente qual teria sido a partipação dos sátiros, mas eles certamente foram libertados do cativeiro (?) no final. É possível que o vaso mostrado na Fig. 1242 (Héracles e sátiro, supra) represente uma das cenas do drama.

Os fragmentos e o argumento já foram traduzidos e publicados (Ribeiro Jr. 2018c).

Euristeu

F 371-80 (gr. Εὐρυσθεύς). Embora exíguos, os fragmentos se ajustam razoavelmente à participação de Euristeu no mito do 12º Trabalho de Héracles, o que permite uma reconstrução aproximada do enredo e da participação dos sátiros.

iHéracles, Cérbero e Euristeu

Sileno provavelmente apresenta o prólogo e conta que foram escravizados por Euristeu; os sátiros entram a seguir (párodo) e Héracles logo depois (1º episódio). Ele conta que veio receber ordens, e Euristeu aparece para dá-las; o herói sai então de cena, rumo ao mundo subterrâneo, e volta após um intervalo coral com um boneco que representa Cérbero e assusta os sátiros, mas Héracles os tranquiliza. Euristeu retorna para verificar o cumprimento da tarefa, mas provavelmente se assusta com o boneco e foge; Héracles então anuncia o fim de sua submissão a Euristeu e a liberdade dos sátiros.

Fragmentos já traduzidos e publicados (Ribeiro Jr. 2018d).

Sísifo

Argumento? (P. Oxy. 2455) e F 673-4 (gr. Σίσυφος). Héracles era provavelmente personagem desse drama, mas não há episódios míticos que relacionem Sísifo e Héracles e nos dêem pistas sobre o enredo.

Uma possibilidade: Probo (ad Verg. Georg. 1.137) diz que Sísifo teria roubado as éguas carnívoras de Diomedes enquanto Héracles as levava para Euristeu (8º trabalho), mas trata-se de autor muito posterior a Eurípides e não há garantias de que a informação tenha algo a ver com o enredo do drama satírico.

Círon

iTeseu e Círon

Hipótese parcial (P. Oxy. 2455 fr. 6) e F 674a-81 (gr. Σκίρων). Círon era um dos bandidos mortos pelo jovem Teseu na sua viagem de Trezena a Atenas.

Sileno, no prólogo, conta que Círon ocupa uma rocha, vive de roubos e o faz vigiar a entrada do desfiladeiro. Os sátiros chegam então ao local (párodo), dançando e na companhia de prostitutas (sátiros disfarçados?), que utilizam para atrair os passantes.

Conjugando-se essas informações com os fragmentos e com o que sabemos do mito, provavelmente Teseu chega ao local, mata o vilão e liberta os sátiros.

Sileu

Hipótese (Tzetzes, Proll. Com. 2.62-70) e F 686a-87 (gr. Συλεύς). O mito é conhecido basicamente por algumas cenas de vaso e pelo argumento do próprio drama satírico de Eurípides.

iHéracles põe abaixo a casa de Sileu

Sileu possuía uma vinha e obrigava os passantes a trabalhar durante o dia, para depois roubá-los e matá-los à noite. Héracles, vendido como escravo para expiar a morte involuntária de seu amigo Ífito, foi comprado para trabalhar na vinha[1].

À noite, contudo, Héracles considerou mais apropriado comer e beber o que havia na casa, matar o patrão, inundar o lugar desviando um rio próximo e de quebra seduzir a bela filha de Sileu.

Os sátiros provavelmente foram libertados após a morte do “ogro”.