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Aristóteles

Καὶ ἔστι τοῦ φιλοσόφου περὶ πάντων δύνασθαι θεωρεῖν.
Aristóteles Metaph. 1004a-b

E é próprio do filósofo ser capaz de estudar tudo.

 
 
Aristóteles (-384/-322)

Aristóteles (gr. Ἀριστοτέλης) foi o mais importante dos discípulos de Platão e, assim como ele, teve profunda e duradoura influência no pensamento ocidental, até mesmo durante a Idade Média.

Biografia

Nasceu em Estagira, na Calcídica, em -384; era filho de Nicômaco, médico pessoal de Amintas, rei da Macedônia (-393/-370), pai de Felipe II (-382/-336) e avô de Alexandre III (-356/-323). Nada sabemos de sua juventude; mas podemos imaginar que, graças ao pai, desenvolveu um certo gosto pelas ciências naturais.

Viveu em Atenas e estudou na Academia de Platão entre -367 e -347. Após a morte do mestre, ficou três anos em Atarneus (ou Assos), perto de Troia, juntamente com Teofrasto (-371/-287) e outros ex-alunos da Academia, e casou-se com Pítias, filha de Hérmias, tirano local e também ex-aluno de Platão. Em -345 foi para Mitilene, em Lesbos, onde, ao lado de Teofrasto, realizou a maior parte de suas famosas investigações biológicas.

Em -343 aceitou tornar-se preceptor de Alexandre, filho de Felipe II, então com treze ou quatorze anos; nessa época, ficou amigo de Antípatro (-397/-319), um dos futuros diádocos. Viveu em Pela, na corte macedônica, até -335, quando Alexandre subiu ao trono.

De volta a Atenas, no mesmo ano, fundou o famoso Liceu[1], ou escola peripatética, assim chamada devido ao hábito do filósofo de discutir e ensinar enquanto passeava (gr. περιπατέω) pelas alamedas da escola. Lá, ele e seus discípulos realizaram pesquisas filosóficas e científicas em alta escala e reuniram vasto material referente a todo o conhecimento da época.

Aristóteles dirigiu o Liceu até -323, pouco depois da morte de Alexandre III. Devido à grande animosidade dos atenienses contra os macedônios, deixou a escola aos cuidados de Teofrasto (-371/-287) e retirou-se para Cálcis, na Eubeia, onde morreu no ano seguinte, -322.

Obras sobreviventes

Τῆς παιδείας ἔφε τὰς μὲν ῥίζας εἶναι πικράς, τὸν δὲ καρπὸον γλυκύν. A educação tem raízes amargas, mas os frutos são doces.
Aristóteles (apud D.L. 5.18)

Aristóteles publicou grande quantidade de obras de caráter didático, destinadas ao público em geral, sob a forma de diálogo. Nenhum desses textos exotéricos (para os externos) chegou até nós; possuímos apenas pequenos trechos e um ou outro resumo.

Sobreviveram somente os escritos esotéricos (para os internos), concisos e de caráter mais técnico, baseados nas anotações do filósofo para aulas e exposições destinadas aos discípulos da escola entre -335 e -323. Eis uma classificação simplificada dos textos do corpus aristotélico, proposta por Luce (1994):

Lógica
Categorias, Da interpretação, Primeiros Analíticos, Segundos Analíticos, Tópicos, Refutações sofísticas
Ciências naturais (física)
Do Céu, Da Geração e Corrupção, Meteorologia, Física (sc. "o mundo natural), Metafísica
Ética
Ética a Eudemo*, Ética a Nicômaco, Magna moralia*
Psicologia
Da alma, Da sensação e do sensível+, Da memória+, Do sono e da vigília+, Dos sonhos+, Da adivinhação pelos sonhos+, Da extensão e brevidade da vida+, Da juventude e da velhice, da vida e da morte, da respiração+
Biologia
Investigações sobre os Animais, Das partes dos animais, Do movimento dos Animais, Do modo de andar dos animais, Da geração dos animais
Política
Política, Constituição dos atenienses*
Crítica literária
Retórica, Poética

As ideias de Aristóteles sobre alguns temas, como por exemplo a teoria a linguagem, estão dispersas em vários tratados.

Os textos de lógica são conhecidos, em conjunto, por Organon (gr. ὄργανον), que significa ‘instrumento, ferramenta’. Metafísica não é uma palavra aristotélica; originalmente, designa os livros do tratado que vem logo depois da Física (gr. μετὰ τὰ φυσικά), nas antigas edições do corpus aristotelicum, e apenas em nossos dias assumiu a conotação de estudo da realidade do ser e da existência. Os textos assinalados com o sinal + são coletivamente conhecidos por Parva naturalia, ‘pequenos tratados sobre a Natureza’.

Temos ainda muitos fragmentos e alguns poemas, como o Hino à virtude, atribuídos a ele sem justificativas apropriadas; muitos tratados que acompanham o corpo aristotélico não são considerados autênticos pelos estudiosos; os três mais importantes estão marcados, na lista acima, com o sinal +. Ética a Eudemo não é, com certeza, de Aristóteles; Magna Moralia parece ter sido escrito por um discípulo de Aristóteles, baseado nas aulas dos mestre; e a Constituição dos Atenienses chegou até nós em papiro, à parte do corpus aristotelicum.

O pensamento de Aristóteles

Aristóteles rejeitou a teoria das formas (ideias) de seu mestre, Platão, pois ela envolvia conceitos excessivamente abstratos; para ele, existem apenas seres e objetos concretos e reais, que podem ser percebidos pelos sentidos e analisados em termos de forma, constituição, construção e finalidade. Todas as coisas têm caracteres gerais, que permitem agrupá-las, e caracteres específicos, que as distinguem umas das outras.

Esse sistema permeia toda a obra de Aristóteles. Sua contribuição fundamental à Filosofia foi, no entanto, a criação da lógica formal e da lógica material, métodos que organizam e ordenam o raciocínio e o pensar. Dentre outras importantes contribuições, cite-se a retórica, estudo da palavra, uma das mais distintivas características do homem; a ética, estudo dos princípios racionais da virtude humana; e a política, estudo do comportamento do homem em comunidade.

Aristóteles estudou, ordenou, classificou e escreveu a respeito de toda a ciência e toda a filosofia antiga; não teve continuadores, e sim comentadores (Humbert, 1961). O pensamento aristotélico dominou de forma absoluta a Idade Média ocidental, influenciou os árabes e continuou praticamente incontestado até o século XIX.

Edição do textos

A primeira edição da obra de Aristóteles data possivelmente do final do século -I e foi preparada por Andrônico de Rodes, de quem quase nada se sabe. Tradicionalmente, os textos aristotélicos (lat. corpus aristotelicum) ainda são agrupados de acordo com essa edição.

Outras iluminuras

 
Escola de Atenas.
Cidade do Vaticano, Museus Vaticanos
 
O mosaico de Aristóteles.

Notas

  1. O nome Liceu vem da localização da escola, situada perto de um bosque consagrado a Apolo Lykeios. Esse epíteto é um tanto obscuro: pode ser interpretado como ‘da Lícia’, referência a uma das possíveis origens do mito; como ‘destruidor de lobos’, consequência da palavra λυκῆ, ‘pele de lobo’, e de alguma antiga lenda que não chegou até nós; ou ainda como ‘luminoso’, derivado de *λύκη, ‘luz’.

Créditos das ilustrações

i0348Aristóteles (-384/-322) → Ver comentários.
i0016Escola de Atenas → Ver comentários.
i0973O mosaico de Aristóteles → Ver comentários.

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Artigo nº 0422
publicado em 30/12/2001.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Aristóteles. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0422. Consulta: 24/06/2017.
 
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