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a principio ad anno domini 529

Poética, de Aristóteles

INIT Poética (gr. Περὶ Ποιητικῆς) é um dos mais influentes — e controvertidos — textos legados pela Antiguidade. Nele, Aristóteles analisou e sistematizou, pela primeira vez, o formato e a estética de dois importantes gêneros literários gregos, a tragédia e a epopéia; com isso, praticamente fundou a disciplina conhecida atualmente por "teoria literária".

O tratado pertence, aparentemente, à categoria dos escritos esotéricos ("internos"); evidências presentes na Poética em outras obras aristotélicas, notadamente a Retórica e a Política, situam a data de criação por volta de -334. Aparentemente, o filósofo ocupara-se de questões literárias anteriormente, a julgar pelo título de um diálogo perdido, Περὶ ποητῶν (Sobre os Poetas).

Originalmente, a Poética compreendia dois volumes, dos quais apenas o primeiro chegou até nós. Há evidências de que o volume perdido tratava da poesia iâmbica e da comédia. A perda ocorreu, provavelmente, antes do século VI.

Menção à parte merecem os estudos e comentários sobre a Poética efetuados pelos eruditos do Renascimento. O irlandês Jonathan Swift, nas Viagens de Gulliver (cap. 8, 1726), afirmou jocosamente que os comentadores de Aristóteles eram tão numerosos que não cabiam em uma sala, e centenas tinham que esperar "no pátio e nas salas exteriores do palácio" do governador de Glubbdubdrib... Ironias à parte, eles muito contribuiram para a divulgação das doutrinas aristotélicas no Ocidente.

O texto expõe, de forma ordenada e coerente, as idéias do filósofo sobre a composição poética; dado, porém, seu caráter expositivo, semelhante ao de uma preleção oral, não é de estranhar que apresente incoerências, lacunas e obscuridades, alimento fecundo de controvérsias que já duram séculos...

Resumo

O texto grego da Poética compreende as páginas 1447a-1462b da edição de Bekker (1831) e ocupa cerca de 47 páginas da edição de Hardy (1932), que serviu de base para este esboço.

Após uma introdução geral sobre a arte poética, Aristóteles discorre detalhadamente sobre a poesia trágica e sobre a poesia épica; no final, faz uma comparação entre ambas (os exemplos infra foram dados pelo próprio Aristóteles).

    1. Considerações iniciais

[1447a] A poesia faz parte das "artes imitativas" e tem as seguintes espécies: epopéia, tragédia, comédia, ditirambo, aulética e citarística, que se distinguem por diferentes meios, objetos e maneiras de imitar; em comum, essas espécies têm ritmo, linguagem e melodia, combinados ou não. [1447b] A arte que imita apenas através da linguagem (mimos, diálogos socráticos) não tem denominação própria[1]; quem emprega versos, sem imitar, não deve ser chamado de poeta. [1448a] As imitações poéticas referem-se a homens em ação, que podem ser representados piores (comédia) ou melhores (epopéia, tragédia) do que são; outra diferença se refere à a imitação por narrativa (epopéia) ou pela ação de personagens (tragédia).

[1448b] A poesia originou-se a partir do natural instinto de imitação do homem, que imita ações elevadas ou vulgares, e de sua predisposição para a melodia e o ritmo. Cada poeta compõe de acordo com seu temperamento; [1449a] os poetas dramáticos, por exemplo, compõem tragédias ou comédias de acordo com sua índole.

    2. Plano da obra

Estabelecidos os conceitos preliminares essenciais, Aristóteles continua o texto de acordo com o seguinte plano:

  1. Origem e evolução da tragédia e da comédia; comparação entre tragédia e epopéia [1449a-b].
  2. Definição e partes constitutivas da tragédia; o metro trágico [1449b-1451a].
  3. Estudo do enredo trágico, o mais importante dos componentes da tragédia; enredos simples e complexos, peripécia, reconhecimento, o evento patético e, mais uma vez, as partes da tragédia. Condições para um bom enredo e o herói trágico [1451b-1453b].
  4. O terror, a piedade e a catarse das emoções[2]; características desejáveis dos personagens trágicos [1453b]. O deus ex machina; os tipos de reconhecimento [1454a-1455a]. O desenvolvimento dos episódios a partir da idéia geral, o nó e o desfecho da trama; as quatro espécies de tragédia; a extensão do enredo e o Coro [1455b-1456a].
  5. O pensamento, a elocução e suas partes constitutivas, a clareza e a nobreza de expressão, neologismos e metáforas [1456b-1459a].
  6. A epopéia: unidade de ação, espécies e partes, extensão e metro; o maravilhoso, o engano, a elocução; semelhanças e diferenças entre epopéia e tragédia [1459a-1460b].
  7. Crítica dos poetas; princípios, problemas e soluções [1460b-1461b]; a superioridades da tragédia em relação à epopéia [1461b-1462b].

Manuscritos, Edições e traduções

Os mais importantes manuscritos para o estabelecimento do texto grego da Poética são o Parisinus 1741 (Paris, Bibliotèque Nationale, sæc. X-XI), completo, e o Riccardianus 46 (Florença, Biblioteca Medicea Laurenziana, sæc. XIV), mutilado no início e no fim. Dispomos ainda do manuscrito Ar. 882 a (Paris, Bibliotèque Nationale, início do sæc. X), que contém uma versão árabe do texto, efetuada por Abu´l-Baschar Matta a partir de um manuscrito grego perdido, datado do sæc. VI.

A editio princeps da Poética é a própria edição Aldina dos textos de Aristóteles, publicada em 1508 por Aldus Manutius, em Veneza. A primeira edição isolada da Poética, a de Franciscus Robortellus (Librum Aristotelis de arte poetica explicationes), foi editada em 1548, em Florença. As edições modernas mais importantes são as de Hermann (1802), Bekker (1831), Vahlen (1868), Bywater (1897), Rostagni (1927), Hardy (1932), Kassel (1965), Lucas (1968) e, finalmente, a de Dupont-Roc e Lallot (1980).

A Poética foi traduzida para o latim antes mesmo da primeira edição em grego, em plena Idade Média (William of Moerbeke, 1278). Mais tarde, durante o Renascimento, a primeira versão latina foi efetuada por Giorgio Valla (1498). Em 1536, Allessandro de Pazzi publicou uma edição bilíngue (grego e latim) e em 1548 Francesco Robortello publicou o primeiro comentário completo da Poética (In Librum Aristotelis de Arte Poetica Explicationes).

A primeira tradução para o português, anônima, data de 1779; mais tarde, em 1789, foi publicada a tradução de Ricardo Raimundo Nogueira, A 'Poética' de Aristóteles traduzida do grego em português (Lisboa, Régia Oficina Tipográfica). Muito depois seguiram-na a de Eudoro de Souza (1951) e a de Jaime Bruna (1990).

Notas

  1. Jaime Bruna (1992) sugeriu a palavra "literatura" para designar esse tipo de imitação.
  2. Desde o Renascimento se discute, sem cessar, o que vem a ser exatamente essa catarse (gr. κάθαρσις) ou "purificação" das emoções suscitadas pela tragédia. A bibliografia sobre esse único item da Poética é muito, muito extensa.
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Leitura complementar    br   pt

Eudoro de Sousa, Aristóteles. Poética, Porto Alegre, Globo, 1966. [tradução e extenso estudo]

Eudoro de Sousa, Aristóteles. Poética, São Paulo, Ars Poetica, 1992. [texto grego e tradução]

Jaime Bruna, Aristóteles, Horácio, Longino - A Poética Clássica, São Paulo, Cultrix, 51992.

L.M. da Costa, A poética de Aristóteles - Mímese e verossimilhança, São Paulo, Ática, 1992.

Referências e bibliografia

D.W. Lucas, Poetics - Aristotle, Oxford, Oxford University Press, 1968.

J. Hardy, Aristote - Poétique, Paris, Les Belles Lettres, 1932.

Jaime Bruna, Aristóteles, Horácio, Longino - A Poética Clássica, São Paulo, Cultrix, 51992.

s consulte também a bibliografia geral da área