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a principio ad anno domini 529

Diógenes Laércio e sua "Vida e opiniões dos filósofos"

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Laertii Diogenis De Vitis Dogmatis ..., 1594.

A mais completa obra que a Antiguidade nos legou sobre os filósofos gregos e suas doutrinas chama-se Vida e opiniões dos mais eminentes filósofos (gr. Βίοι καὶ γνῶμαι τῶν ἐν φιλοσοφίαι εὐδοκιμησάντων) e foi compilada, segundo a tradição, por Diógenes Laércio (gr. Διογένης Λαέρτιος).

Diógenes Laércio

Praticamente nada se sabe a respeito desse Diógenes. É possível que seu sobrenome indique a cidade de origem — a cidade de Laerte, na Cílícia (Ásia Menor), ou a família romana dos Laërtii. Floresceu, provavelmente, na primeira metade do século III.

Escreveu em grego e parece ter recebido alguma formação na área de filosofia; do ponto de vista literário, o estilo é pobre, descuidado até. Diógenes raramente cita suas fontes, mas chega a mencionar mais de quarenta obras consultadas[1] — todas, provavelmente, compilações tardias de informações variadas e contraditórias sobre os filósofos gregos. As informações registradas são, portanto, de terceira mão, muitas vezes anedóticas, digressivas e quase sempre apresentadas sem qualquer crítica ou discussão.

Diógenes também escreveu uma coletânea de epigramas com epitáfios de homens ilustres (gr. Πάμμετρον, ver D.L. 1.39), que reproduz aqui e ali no texto de Vidas e opiniões ... A inspiração e a qualidade literária desses epigramas são, no máximo, sofríveis.

Apesar de tudo, o texto de Diógenes Laércio é uma fonte inestimável de informações a respeito da vida e do pensamento dos filósofos gregos da Antiguidade; muitos são conhecidos apenas através de sua citações.

Resumo

O texto está dividido em 10 livros de extensão desigual, que ocupam 170 meias páginas da edição grega, com tradução latina simultânea, publicada em 1850 por Cobet.

O livro I começa por um Proêmio de 21 parágrafos em que a crença de que a filosofia começou entre os "bárbaros" (egípcios, persas) e não entre os gregos é contestada; a seguir, Diógenes faz um rápido panorama dos filósofos e escolas filosóficas que floresceram na Grécia.

Eis o plano da obra[2]:

Livro I. Proêmio. Os Sete Sábios e outros precursores da filosofia: Tales, Sólon, Quílon, Pítaco, Bias, Cleóbulo, Periandro, Anacarsis, Míson, Epimenides e Ferecides.

Livro II. Os primeiros filósofos e seus sucessores: Anaximandro, Anaxímenes, Anaxágoras, Arquelau, Sócrates, Xenofonte, Ésquines, Aristipo, Fédon, Eucleides, Estílpon, Críton, Símon, Glauco, Símias, Cebes, Menedemo.

O Livro III é dedicado inteiramente a Platão e à Academia; o Livro IV, a seus discípulos: Espeusipo, Xenócrates, Polemon, Crates, Crântor, Arcesilau, Bíon, Carneades e Cleitômaco. O Livro V trata dos peripatéticos, i.e., de Aristóteles e seus discípulos: Teofrasto, Estráton, Lícon, Demétrio de Fáleron, Heracleides.

No Livro VI estão os filósofos da Escola Cínica: Antístenes, Diógenes, Mônimo, Onesícrito, Crates, Metrocles, Hiparquia, Mênipo e Menedemo. No Livro VII, os da Escola Estoica: Zênon, Aríston, Hérilo, Dionísio, Cleantes, Esfairo, Crisipo.

Pitágoras e os pitagóricosEmpédocles, Epicarmo, Árquitas, Alcmeon, Hípaso, Filolau, Eudoxo — estão no Livro VIII. O Livro IX trata dos céticos e de alguns filósofos que "não classificáveis": Heráclito, Xenófanes, Parmênides, Melisso, Zênon de Eléia, Leucipo, Demócrito, Protágoras, Diógenes de Apolônia, Anaxarco, Pirro e Tímon.

O Livro X, finalmente, é dedicado a Epicuro e a seus discípulos.

Manuscritos, edições, traduções. Selecta

Dentre os numerosos manuscritos que chegaram até nós, os melhores são o Codex Barbonicus, da Biblioteca Nacional de Nápoles (c. 1200), o Parisinus graecus 1759, da Biblioteca Nacional de Paris (c. 1300), e o Florentinus gr. plut. 69,13 (1200/1400), da Biblioteca Laurenciana de Florença.

A editio princeps das partes do texto com as vidas de Aristóteles e de Teofrasto é a edição Aldina, publicada em 1497, juntamente com as obras de Aristóteles; a da obra completa, a de Froben, publicada em 1533. Outras edições antigas: Estienne (1570), Casaubon (1594), Pearson (1664), Meibomius (1691/1692) e Longolius (1791). Dentre as edições mais recentes, as mais importantes são as de Hubner (1828/1831), Cobet (1850), Hicks (1925) e Long (1964). Há também algumas poucas edições específicas de partes da obra.

A primeira e única tradução portuguesa é a de M.G. Kury (1977).

Notas

  1. A principal fonte de Diógenes Laércio parece ter sido Hermipo de Esmirna (fl. -250/-200), possível seguidor de Calímaco. Sua principal obra, Βίοι (Vidas), continha dezenas de biografias de filósofos, oradores, historiadores e, talvez, de poetas. Ela chegou até nós na forma de alguns fragmentos, em geral passagens mencionadas por Diógenes Laércio e outros autores antigos.
  2. Em nossos dias, a distribuição dos filósofos pelas diversas "escolas" de pensamento não é exatamente a mesma seguida por Diógenes Laércio.
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Leitura complementar    br   pt

M.G. Kury, Diôgenes Laêrtios - Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, Brasília, Ed. UnB, 21977.

Referências e bibliografia

C.G. Cobet, Diogenes Laertii De Clarorum Philosophorum Vitis, Dogmatibus et Apophthegmatibus, Parisiis, Didot, 1850.

s consulte também a bibliografia geral da área