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Pitágoras de Samos

Πυθαγόρας Pythagoras Phil. Pythag.

Pitágoras de Samos o ‘mais hábil filósofo grego’ (Heródoto 4.95), é considerado o fundador do pitagorismo.

Ainda não se sabe com certeza se ele realmente existiu; é possível que “Pitágoras” tenha sido apenas um personagem mítico a quem foram atribuídas as realizações de filósofos pitagóricos antigos e anônimos.

Biografia

Segundo a tradição, Pitágoras nasceu c. -570 em Samos, no litoral da Ásia Menor; seu pai era Mnesarco, mercador fenício, e sua mãe era samiana. De acordo com Diógenes Laércio, foi discípulo de Ferécides de Siros (D.L. 1.118).

Consta, finalmente, que emigrou entre -540 e -522 para a cidade de Crotona, na península italiana, por discordar da tirania de Polícrates.

Contavam-se muitas lendas a seu respeito, entre elas a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo e a de recordar as vidas passadas. Independentemente disso, era respeitado como sábio e fundou na cidade uma espécie de comunidade eminentemente religiosa, mas que participava ativamente da política local. Dedicou-se também à matemática e à teoria musical.

Pitágoras?

No fim da vida, desentendimentos políticos obrigaram-no a emigrar para Metaponto, ao norte de Crotona, onde morreu por volta de -495.

A confraria pitagórica

Segundo algumas referências tardias, a confraria ou irmandade criada por Pitágoras em Crotona reunia cerca de trezentos jovens, que viviam separadamente dos outros cidadãos e mantinham os bens em comum. Tudo o que era ensinado tinha de ser mantido em segredo, e nada se revelava aos de fora[1], sob pena de exclusão.

A finalidade da confraria era, aparentemente, uma satisfação interior que a religião tradicional não dava, mas mesmo assim não há provas de que tivessem rompido com ela. Pitágoras oferecia sacrifícios aos deuses e parece mesmo ter havido fortes ligações entre os pitagóricos e o culto de Apolo em Delfos.

Parece ter havido, também, alguma influência do orfismo, um misterioso movimento religioso-filosófico do século -VI do qual pouco se conhece. A irmandade era aparentemente um clube de pessoas que cultivavam um estilo de vida particular e exclusivo, com seus rituais e segredos.

Devido ao voto de silêncio, somente especulações quanto à natureza dos ensinamentos ministrados por Pitágoras chegaram até nós, e de veracidade muito variável. Havia precauções rituais, como por exemplo evitar alimentar-se de favas, galos brancos e certos peixes[2], não apanhar o alimento que cai das mesas, e até supertições primitivas. Iâmblico (250/325) transmitiu-nos uma delas: ‘Quando te calçares, começa com o pé direito; ao lavares os pés, pelo esquerdo’ (Iamb. Protr. 21).

Pitágoras e seus ensinamentos

Exercícios físicos, música e estudos referentes à teoria musical e à matemática, assim como sua aplicação à natureza do Universo, aparentemente também faziam parte do currículo. Atribuía-se aos números um significado místico e para eles a τετρακτύς, ‘número quaternário’ (o número 10, formado pela adição dos quatro primeiros números: 1+2+3+4) era o fundamento de todas as coisas.

A obediência devida ao mestre era absoluta, e o argumento final de qualquer discussão era um “foi ele que disse”[3]. Daí as variadas coleções de ditos proverbiais denominados ἀκούσματα, ‘coisas ouvidas’, transmitidos já na Antiguidade sob o nome de Pitágoras.

A despeito de algumas oposições nem sempre pacíficas, os discípulos e seguidores de Pitágoras continuaram difundindo sua doutrina e desenvolvendo atividades políticas em várias cidades do sul da Itália até fins do século -IV, pelo menos.

Escritos e doutrinas

ἀριθμῶι δέ τε πάντ' ἐπέοικεν. [Pitágoras]: tudo está ajustado ao número. Sexto Empírico, Contra os matemáticos 7.94.3

Pitágoras, caso tenha realmente existido, nada escreveu. Não há nenhuma indicação, nos escritores posteriores, dos argumentos e razões apresentadas por ele para explicar qualquer uma de suas doutrinas. O mais correto, consequentemente, utilizarmos a notação [Pitágoras].

A crença na reencarnação, transmigração da alma ou ainda metempsicose é a mais conhecida e popular das doutrinas pitagóricas. Acreditava-se que sua meta era a necessidade da purificação da alma, que ocorria no final de vários ciclos de reencarnação. Embora Heródoto (2.123) atribua a origem dessa crença aos egípcios, consta que pelo menos três outros povos contemporâneos da Índia, da Ásia Central e do sul da Rússia a conheciam.

Uma generalização da descoberta das relações numéricas entre os tons musicais levou, provavelmente, à ideia de que os números definem tudo aquilo que existe (ver epígrafe, supra): “só aquilo que se pode determinar numericamente é um existente” (Lesky, 1971).

Alguns fragmentos esparsos, finalmente, deixam entrever uma verdadeira escatologia[4] pitagórica:

  1. a alma, após a morte, está sujeita a um julgamento divino;
  2. a seguir, há um castigo no mundo subterrâneo para os perversos;
  3. há um melhor destino para os bons que, isentos de maldade no próximo mundo e em posterior reencarnação, podem alcançar a Ilha dos Bem-Aventurados[5].

Os textos

Fragmentos e doxografia

Dezenas de tratados chegaram até nós sob o nome de Pitágoras, mas são meras ficções criadas no Período Greco-romano, na época do neo-pitagorismo.

A reconstrução das doutrinas pitagóricas se baseia exclusivamente em alguns poucos fragmentos de Filolau de Crotona, que viveu mais de um século depois de Pitágoras, e em testemunhos doxográficos de valor muito desigual.

Alguns dos autores mais importantes para o estudo do pitagorismo foram Aristóteles (-384/-322), Diógenes Laércio (200-250), Iâmblico (250-325), Porfírio (232-305) e Estobeu (fl. 450-500).

Coletânea

Passagens selecionadas, com tradução:

Edições e traduções

As coletâneas mais importantes de fragmentos e trechos doxográficos são a de Mulach (1868) e a de Hercher (1873). A edição de Kirk, Raven e Schofield (41994), que existe em versão portuguesa, traz uma seleção de vários testemunhos no texto original, com a tradução.

A mais antiga tradução para o português data de 1795 e se refere às “ficções” mencionadas acima, mas tem inegável valor histórico: Versos de Ouro que vulgarmente andam em nome de Pythagoras, traduzidos do grego e ilustrados com escólios e anotações críticas por Luís António de Azevedo.

Em nossos dias, a doxografia foi traduzida por Gerd Bornheim em 1967.

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