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a principio ad anno domini 529

Pitágoras de Samos

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Pitágoras (-570/-495), Período greco-romano.

INITitágoras de Samos (gr. Πυθαγόρας), o "mais hábil filósofo grego" (Hdt. 4.95), é considerado o fundador do pitagorismo, mas ainda não se sabe com certeza se ele realmente existiu ou se é um personagem mítico a quem foram atribuídas as realizações de pitagóricos antigos e anônimos.

Biografia

Segundo a tradição, Pitágoras nasceu c. -570 em Samos, no litoral da Ásia Menor; seu pai era Mnesarco, um mercador fenício, e sua mãe era samiana. De acordo com Diógenes Laércio, foi discípulo de Ferécides de Siros (D.L. 1.118). Consta, finalmente, que emigrou entre -540 e -522 para a cidade de Crotona, na península italiana, por discordar da tirania de Polícrates.

Contavam-se muitas lendas a seu respeito, entre elas a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo e a de recordar as vidas passadas. Independentemente disso, era respeitado como sábio e fundou na cidade uma espécie de comunidade eminentemente religiosa, mas que participava ativamente da política local. Dedicou-se também à matemática e à teoria musical.

No fim da vida, desentendimentos políticos obrigaram-no a emigrar para Metaponto, ao norte de Crotona, onde morreu por volta de -495.

A confraria pitagórica

Segundo algumas referências tardias, a confraria ou irmandade criada por Pitágoras em Crotona reunia cerca de trezentos jovens, que viviam separadamente dos outros cidadãos e mantinham os bens em comum. Tudo o que era ensinado tinha de ser mantido em segredo, e nada se revelava aos de fora[1], sob pena de exclusão.

A finalidade da confraria era, aparentemente, uma satisfação interior que a religião tradicional não dava, mas mesmo assim não há provas de que tivessem rompido com ela. Pitágoras oferecia sacrifícios aos deuses e parece mesmo ter havido fortes ligações entre os pitagóricos e o culto de Apolo em Delfos. Parece ter havido, também, alguma influência do orfismo, um misterioso movimento religioso-filosófico do século -VI do qual pouco se conhece. A irmandade era aparentemente um "clube" de pessoas que cultivavam um estilo de vida particular e exclusivo, com seus rituais e segredos.

Devido ao voto de silêncio, somente especulações quanto à natureza dos ensinamentos ministrados por Pitágoras chegaram até nós, e de veracidade muito variável. Havia precauções rituais, como por exemplo evitar alimentar-se de favas, galos brancos e certos peixes[2], não apanhar o alimento que cai das mesas, e até supertições primitivas. Iâmblico (250/325) transmitiu-nos uma delas: "Quando te calçares, começa com o pé direito; ao lavares os pés, pelo esquerdo" (Iamb. Protr. 21).

Exercícios físicos, música e estudos referentes à teoria musical e à matemática, assim como sua aplicação à natureza do Universo, aparentemente também faziam parte do "currículo". Atribuía-se aos números um significado místico e para eles a τετρακτύς, "número quaternário" (o número 10, formado pela adição dos quatro primeiros números: 1+2+3+4) era o fundamento de todas as coisas.

A obediência devida ao mestre era absoluta, e o argumento final de qualquer discussão era um "foi ele que disse"[3]. Daí as variadas coleções de ditos e "provérbios" chamados de ἀκούσματα, "coisas ouvidas", transmitidos já na Antiguidade sob o nome de Pitágoras.

A despeito de algumas oposições nem sempre pacíficas, os discípulos e seguidores de Pitágoras continuaram difundindo sua doutrina e desenvolvendo atividades políticas em várias cidades do sul da Itália até fins do século -IV, pelo menos.

Textos e doutrina

Pitágoras, caso tenha realmente existido, nada escreveu; não há nenhuma indicação, nos escritores posteriores, dos argumentos e razões apresentadas para explicar qualquer uma de suas doutrinas.

A crença na reencarnação, transmigração da alma ou ainda metempsicose é a mais conhecida e popular das doutrinas pitagóricas. Acreditava-se que sua meta era a necessidade da purificação da alma, que ocorria no final de vários ciclos de reencarnação. Embora Heródoto (-484/-425) atribua a origem dessa crença aos egípcios (Hdt. 2.123), consta que pelo menos três outros povos contemporâneos da Índia, da Ásia Central e do sul da Rússia a conheciam.

Uma generalização da descoberta das relações numéricas entre os tons musicais levou, provavelmente, à idéia de que os números definem tudo aquilo que existe (ver epígrafe, supra): "só aquilo que se pode determinar numericamente é um existente" (Lesky, 1971).

Alguns fragmentos esparsos, finalmente, deixam entrever uma verdadeira escatologia[4] pitagórica: 1) a alma, após a morte, está sujeita a um julgamento divino; 2) a seguir, há um castigo no mundo subterrâneo para os perversos; 3) há um melhor destino para os bons que, isentos de maldade no próximo mundo e numa posterior reencarnação, podem alcançar a Ilha dos Bem-Aventurados[5].

Fragmentos e doxografia

Dezenas de tratados chegaram até nós sob o nome de Pitágoras, mas são meras ficções criadas no Período Greco-romano, na época do neo-pitagorismo. A reconstrução das doutrinas pitagóricas se baseia exclusivamente em alguns poucos fragmentos de Filolau de Crotona, que viveu mais de um século depois de Pitágoras, e em testemunhos doxográficos de valor muito desigual.

Alguns dos autores mais importantes para o estudo do pitagorismo foram Aristóteles (-384/-322), Diógenes Laércio (200-250), Iâmblico (250-325), Porfírio (232-305) e Estobeu (fl. 450-500).

Edições e traduções

As coletâneas mais importantes de fragmentos e trechos doxográficos são a de Mulach (1868) e a de Hercher (1873). A edição de Kirk, Raven e Schofield (41994), que existe em versão portuguesa, traz uma seleção de vários testemunhos no texto original, com a tradução.

A mais antiga tradução para o português data de 1795 e se refere às "ficções" mencionadas acima, mas tem inegável valor histórico: Versos de Ouro que vulgarmente andam em nome de Pythagoras, traduzidos do grego e ilustrados com escólios e anotações críticas por Luís António de Azevedo. Em nossos dias, a doxografia foi traduzida por Gerd Bornheim em 1967.

Notas

  1. A palavra "esotérico", que se refere a ensinamentos reservados a um círculo específico de pessoas, remonta à denominação dada pelos membros da confraria pitagórica aos seu membros e que significa, literalmente, "os de dentro".
  2. A crença muito difundida de que os pitagóricos eram vegetarianos, isto é, se abstinham de carne, não tem qualquer fundamentação nas fontes antigas confiáveis que chegaram até nós.
  3. Eis aqui um genuíno ancestral do famoso magister dixit ("foi o mestre que disse") da escolástica medieval européia. A expressão era muito utilizada em relação às obras de Aristóteles (-384/-322), entendidas na época como verdade absoluta e definitiva.
  4. Em Religião e em Filosofia, "escatologia" se refere às "últimas coisas", notadamente a morte e o fim do mundo. No Cristianismo, relaciona-se igualmente com os dogmas do Juízo Final, Céu e Inferno.
  5. Na Mitologia Grega mais antiga, as "ilhas dos bem-aventurados" (gr. Μακάρων νῆσοι, Od. 4.561) eram o local para onde os deuses enviavam seus escolhidos, após a morte terrena, para uma nova vida, perfeita e agradável. A ilha era vagamente situada no extremo oeste do rio Oceano. Na época clássica falava-se dos "Campos Elíseos" (gr. Ἠλύσιον πέδιον), um prado aprazível e de grande beleza situado igualmente na margem ocidental do Rio Oceano; em versões tardias das lendas, situava-se o Ἡλύσιον em algum lugar do hades, o mundo subterrâneo dos mortos. Aparentemente, é essa a origem do conceito de "Céu" dos cristãos e muçulmanos.
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Leitura complementar    br   pt

Gerd A. Bornheim, Pitágoras de Samos, in _______, Os filósofos pré-socráticos, São Paulo, Cultrix, 1967, p. 47-50.

Referências e bibliografia
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