Os Diálogos de Platão  | |
Platão (429-347 a.C.) não apresentou suas idéias em nenhum tratado
sistemático, e seu pensamento tem de ser deduzido a partir dos textos escritos em forma
de "diálogo" em que ele não aparece abertamente. O encanto principal dos
Diálogos consiste na encenação dramática, na descrição dos cenários, nos
personagens divertidos e na ironia jovial de Sócrates (469-399 a.C.),
personagem principal de muitos deles. Embora a datação da obra de Platão ainda seja
objeto de grande controvérsia, pode-se agrupar os textos mais ou menos
desta maneira:
1º grupo [399 a 387 a.C.]: Sócrates e suas idéias são os personagens
principais (Ex.: Íon, Eutífron, Apologia, Críton);
2º grupo [387 a 367 a.C.]: Sócrates é figura dominante, mas grande
parte de seu pensamento é, na verdade, do próprio Platão (Ex.: Fédon,
Banquete, República, Teeteto);
3º grupo [360 a 347 a.C.]: Sócrates raramente aparece, e as idéias
apresentadas são as de Platão (Ex.: Sofista, Timeu, Leis).
Apologia[1] de
Sócrates
Atenienses, tenho por vós consideração e afeto mas antes quero
obedecer ao deus do que a vós, e, enquanto tiver um sopro de vida, enquanto me restar
um pouco de energia, não deixarei de filosofar e de vos advertir e aconselhar, a
qualquer de vós que eu encontre. Dir-vos-ei, segundo o meu costume: 'Meu
caro amigo, és ateniense, natural de uma cidade que é a maior e a mais afamada pela
sabedoria e pelo poder, e não te envergonhas de só cuidares de riquezas e dos meios
de as aumentares o mais que puderes, de só pensares em glória e honras, sem a mínima
preocupação com o que há em ti de racional, com a verdade e com a maneira de tornar a
tua alma o melhor possível'?
E, se algum de vós me replicar que com tudo isso se preocupa, não o largarei
imediatamente, não irei logo embora, mas interrogá-lo-ei, analisarei e
refutarei as suas opiniões e, se chegar à conclusão de que não possui a virtude,
embora o afirme, censurá-lo-ei de ter em tão pouca conta as coisas mais
preciosas e prezar tanto as mais desprezíveis. (...)"
Pl. Ap. 29c-d
Fédon
"Ora, examinemos a questão por este lado: é, em suma, no Hades que
estão as almas do defuntos, ou não? Pois, conforme diz uma antiga tradição nossa
conhecida, lá se encontram as almas dos que se foram daqui, e elas novamente,
insisto, para cá voltam e renascem dos mortos. E se assim é, se dos mortos nascem os
vivos, que podemos admitir senão que nossas almas devem mesmo estar lá? Sem dúvida,
não poderia haver novo nascimento para almas que já não tivessem existência, e para
provar esta existência bastaria tornar manifesto que os vivos não nascem senão dos
mortos. Mas se as coisas não se passarem assim, então algum outro argumento será
necessário."
"Isso é absolutamente certo", disse Cebes.
"Toma cuidado, pois", continuou Sócrates, "não caias no erro de
encarar essa questão unicamente em relação ao homem mas, se desejas que ela se torne
mais fácil, considera-a também em relação a tudo que é animal ou planta.
(...)".
Pl. Phd. 70
Político
ESTRANGEIRO
Ora, é claro que, de certo modo, a legislação é função real; entretanto o mais
importante não é dar força às leis, mas ao homem real, dotado de prudência. Sabes
por quê?
Qual é a tua explicação?
| Es. |
É que a lei jamais seria capaz de estabelecer, ao mesmo
tempo, o melhor e o mais justo para todos, de modo a ordenar as prescrições mais
convenientes. A diversidade que há entre os homens e as ações, e por assim dizer,
a permanente instabilidade das coisas humanas, não admite em nenhuma arte, e em
assunto algum, um absoluto que valha para todos os casos e para todos os tempos.
Creio que estamos de acordo sobre esse ponto. |
| So. |
Sem dúvida. |
Pl. Plt. 294
Tradução:
Apologia: Manuel O. Pulquério
Fédon e Político: J. Peleikat & J.C. Costa
Notas complementares- Apologia, em grego, é um "discurso de defesa". Nesse famoso diálogo, Platão reconstituiu a defesa apresentada por Sócrates (469-399 a.C.) em seu julgamento.
- Esse personagem não é "o" Sócrates, o célebre filósofo ateniense...
ReferênciasM.O. Pulquério, Platão. Apologia de Sócrates, Brasília, Ed. UnB, 1997, p. 28.
OS PENSADORES, COLEÇÃO. Platão. São Paulo, Nova Cultural, 1991, p. 73 e 242-243. Consulte também a bibliografia geral da área. RIBEIRO JR., W.A. Os Diálogos de Platão. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em www.greciantiga.org/iniciantes.asp?num=0220. Consulta: 02/09/2010. |
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