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Os livros gregos

Pro captu lectoris habent sua fata libelli.
Terentianus Maurus, saec. I/II

Os livros têm seu próprio destino, de acordo com a compreensão do leitor.

 
 
Leitura feminina

A transmissão dos (relativamente) poucos textos gregos que conhecemos se deu de duas maneiras: através de achados arqueológicos ou por meio de sucessivas cópias manuscritas.

Antes de -750, data da redescoberta da escrita na Grécia, a literatura era transmitida oralmente em forma de poesia; somente com o advento das primeiras obras em prosa, no século -VI, iniciou-se a tradição de conservar a literatura através da escrita. A Ilíada de Homero, a mais antiga obra literária europeia conhecida, deve ter sido uma das primeiras a ser escrita.

Na Grécia, o papiro começou a ser utilizado para textos mais extensos provavelmente nessa época. Ele era confeccionado a partir do caule fibroso da planta homônima originária do Egito, mas os gregos o importavam através da cidade de Biblos, na antiga Fenícia, daí a denominação grega βύβλος (pl. βύβλοι) para o papiro e, por extensão, para os textos conservados em papiro.

Os primeiros livros (também chamados da forma diminutiva βιβλίον (pl. βιβλία) eram apenas um conjunto de grandes rolos de papiro, conservados em prateleiras ou caixas. A partir do século I o frágil papiro progressivamente deu lugar ao códice de pergaminho que, apesar de caro, era bem mais resistente que o papiro. O pergaminho era confeccionado a partir da pele de animais e os códices eram montados com folhas individuais de pergaminho, cosidas umas às outras, como nos livros modernos.

Já no século -V surgiram as primeiras bibliotecas públicas e particulares em Atenas, excelente costume adotado pelos romanos alguns séculos depois. Na grande Biblioteca de Alexandria, criada no século -III por um antigo general de Alexandre III (-356/-323), o rei Ptolomeu I do Egito (c. -355/-282), efetuou-se monumental seleção e catalogação de toda a literatura grega. Segundo a tradição, a biblioteca contava com 400.000 volumes e todos foram queimados em 642, quase mil anos depois, pelos conquistadores árabes do Egito. A maioria das obras que chegaram até nós provém de antigas cópias dos textos da Biblioteca.

A redescoberta

O papiro era altamente perecível e muitas obras, embora copiadas e recopiadas ao longo de séculos pelos próprios gregos e mais tarde pelos romanos, se perderam para sempre. Infelizmente, apenas uma pequena fração do que os gregos produziram chegou até nossos dias.

Em 1752 foram descobertos os primeiros papiros na cidade de Herculanum, soterrada pelo Vesúvio em 79 juntamente com Pompeia mas, desde então, as mais frutíferas descobertas arqueológicas têm se dado no Egito. O mais antigo papiro literário conhecido data do século -IV; a grande maioria, no entanto, remonta ao Período Helenístico.

Com a queda do Império Romano do Ocidente a literatura grega conservou-se, primeiro, graças aos esforços dos sábios bizantinos, e depois devido ao paciente trabalho dos monges medievais, que copiaram à mão e guardaram em abadias e mosteiros tudo o que puderam. Infelizmente, com as sucessivas turbulências sofridas pelo Império Bizantino e pela Europa Medieval, mais uma vez a grande maioria das obras se perdeu.

O papel

A partir do século VIII o papel, invenção chinesa difundida pelos árabes na Europa, começou a substituir o pergaminho. Desde o século XIV, aproximadamente, utiliza-se quase que exclusivamente o papel e, com o desenvolvimento da impressão, a partir do século XV as cópias manuais logo desapareceram. Dentre as primeiras edições impressas de textos gregos na Europa destacam-se as famosas edições Aldinas, preparadas em Veneza a partir de 1495 por Aldus Manutius (1449/1515) e, mais tarde, pelos Giunta em Florença. No século XVI, destacaram-se também as edições da família Estienne na Suiça e na França (sob o nome latinizado Stephanus), e de Herwagen (Hervagius), Oporinus e Commelinus na Alemanha.

Do final do século XVIII em diante várias edições críticas, preparadas a partir da comparação entre os diversos códices e papiros disponíveis, têm aparecido regularmente na Alemanha, na Inglaterra, na França e em outros países. Em nossos dias esses textos são as principais fontes para o estudo dos textos gregos.

Em nossos dias

Papiros, manuscritos e as primeiras edições impressas dos textos gregos (várias anteriores a 1500)[1] hoje são encontrados na British Library, no Musée du Louvre e em outras bibliotecas nacionais, no Vaticano, em bibliotecas de universidades, em antigas bibliotecas públicas, em monastérios e abadias que sobreviveram aos séculos e até mesmo em coleções particulares.

Os modernos eruditos que precisam dessas obras para suas pesquisas têm que viajar bastante; felizmente algumas delas, como a British Library, começaram a digitalizar e a disponibilizar as obras na Web, reduzindo a manipulação desse material tão antigo e perecível.

Outras iluminuras

 
Lino e Museu.
 
Médico romano lendo.
 
Virgílio (-70/-19).
Túnis, Museu Nacional do Bardo
 
Trecho do Contra Ctesifonte, de Ésquines.
 
A partida de José.
 
Edição de Trabalhos e Dias, de Hesíodo.
 
Manuscrito de ‘Descrição da Grécia’, de Pausânias.
 
Texto grego e latino do juramento de Hipócrates.
 
Biblioteca de Adriano.
In situ
 
Biblioteca de Celsus.
In situ
 
Biblioteca da Abadia de Melk.
In situ

Notas

  1. Livros impressos antes de 1500, nos primórdios da tipografia mecânica, são chamados de incunábulos.

Referências

Terentianus Maurus, De litteris, syllabis, pedibus et metris Horatii, Mediolani, Vldericum Scinzenzeler, 1497.

Créditos das ilustrações

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Artigo nº 0606
publicado em 13/01/1999. Atualização: 05/08/2015.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Os livros gregos. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0606. Consulta: 26/02/2017.
 
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