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Bibliotecas e eruditos

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Moeda com efígie de Ptolomeu I Sóter (-367/-283)

Segundo a tradição, os dois mais importantes centros intelectuais do Período Helenístico foram as cidades de Alexandria, no Egito, e Pérgamo, na Ásia Menor. Não por coincidência, essas cidades abrigavam bibliotecas e eram, além de centros culturais, centros políticos, onde viviam os reais patronos das bibliotecas, os reis das dinastias dos Ptolomeus (Alexandria) e dos Atálidas (Pérgamo).

Primórdios

Na Grécia, uma das primeiras bibliotecas privadas conhecidas foi, provavelmente, a do poeta trágico Eurípides (Ar. Ra 943). A biblioteca pública criada por Psístrato, mencionada por Aulo Gélio (Gell. 7.17), é certamente uma lenda; provavelmente, a primeira biblioteca propriamente dita, destinada a um grupo de pessoas, foi a estabelecida por Aristóteles no Liceu de Atenas, pouco depois de -335, data da fundação da instituição.

A biblioteca do Liceu destinava-se, naturalmente, ao uso dos membros do Liceu, mas serviu aparentemente de modelo para a Biblioteca de Alexandria (Str. 13.1.54), a primeira biblioteca pública[1] da Antiguidade.

Biblioteca de Alexandria

A Real Biblioteca de Alexandria, a mais importante biblioteca da Grécia Antiga, foi fundada em -295, aproximadamente, por Ptolomeu I Sóter (-367/-282), o antigo general de Alexandre III que iniciou a dinastia ptolemaica do Egito.

Estrutura física: de certa forma parecida com a de Herculano ?

Organização:

Demétrio de Fáleron, um dos discípulos de Aristóteles, ajudou Ptolomeu I a organizar a Biblioteca, mas nunca foi bibliotecário.

A biblioteca chegou a possuir cerca de 500.000 rolos (Tz. Proll. Com. 2.10-1), o que equivale aproximadamente a 100.000 livros modernos.

Catalogação: os Pinakes de Calímaco de Cirene, primeira metade do século -III.

Calímaco também nunca foi um dos bibliotecários-chefes; provavelmente só trabalhava no Museu. Essa antiga controvérsia foi recentemente resolvida pela descoberta de um antigo papiro (P.Oxy. 1241) com a lista dos bibliotecários.

Lista dos bibliotecários-chefes (Dickey, 2007, p. 4-6):

Zenódoto de Éfeso, de -284 a -260.

Apolônio de Rodes, de -260 a -246.

Eratóstenes de Cirene, de -245 a -195

Aristófanes de Bizâncio, de -195 a -180,

Apolônio, o Eidógrafo, de -180? a ?[2]

Aristarco de Samotrácia, de ? a -146.

Biblioteca de Pérgamo

A Biblioteca de Pérgamo, construída pelo rei Átalo I (-241/197) ou por seu sucessor, Eumenes II (reinou entre -197 e -159), chegou a ter quase 200.000 volumes (Plu. Ant. 58). O declínio da Biblioteca começou em -133, quando Pérgamo passou para o domínio romano.

Fisicamente, a biblioteca compreendia uma grande sala de leitura, com cerca de 180 m2, muito bem ventilada, com prateleiras em todos os lados e uma estátua de Atena no centro. Calcula-se que uma sala desse tamanho abrigaria, no máximo, cerca de 17.000 rolos. Os textos, escritos em papiro e em pergaminho — a palavra "pergaminho", aliás, deriva de "Pérgamo" — a partir do século -II, ficavam enrolados nas prateleiras.

Sabemos muito pouco sobre bibliotecários-chefes; há referências somente a Crates de Malos (sæc. -II) e a Atenodoro Cordílion (fl. -100/-50).

Outras bibliotecas helenísticas

A Biblioteca de Antióquia foi fundada por Antíoco, o Grande (-223/-187), possivel também em associação com um "museu". O primeiro bibliotecário foi o poeta e gramático[3] Eufórion de Cálcis (n. -275), que viveu muito tempo em Atenas e assumiu a função em Antióquia por volta de -221. A biblioteca e o museu duraram, pelo menos, até meados do século -I.

Acredita-se que praticamente todas as grandes cidades do Período Helenístico tinham bibliotecas públicas, embora nenhum vestígio arqueológico o confirme sem deixar margem a dúvidas (ver Sarton, 1953, p. 230). Antígono II Gônatas (-320/-239) fundou uma em Pela, Macedônia, c. -250, e há igualmente referências em textos antigos a bibliotecas públicas em Atenas, Rodes, Esmirna e Cós, pelo menos.

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Notas

  1. As bibliotecas “públicas” da Antiguidade não eram muito parecidas com as bibliotecas públicas modernas. O acesso era severamente controlado, dado o preço elevado dos rolos de papiro e de pergaminho e a raridade das obras copiadas. Em Alexandria, por exemplo, acredita-se que somente os familiares dos Ptolomeus, os bibliotecários e os sábios ligados ao Museu e à corte real tinham livre acesso aos livros.
  2. Apolônio, o Eidógrafo (gr. ειδογράφος, ‘classificador’), foi o quinto bibliotecário-chefe da Biblioteca de Alexandria. Sabemos apenas que faleceu c. -175 e que estudou as obras de Aristófanes e de Píndaro.
  3. Os antigos gramáticos (lat. sg. grammaticus), sobre quem Suetônio (c. 69/140) fala extensivamente em sua obra De Grammaticis, não eram “professores de gramática” no sentido mais moderno do termo. A principal atividade desses gramáticos era a explicação dos textos e, consequentemente, estão mais próximo dos “professores de literatura” de nossa época... Os eruditos que estudavam os antigos textos na Biblioteca de Alexandria e em outros centros do saber eram também muitas vezes chamados de “gramáticos”.
    E. Julien, Les Professeurs de littérature de l´ancienne Rome ..., Paris, Delagrave, 1886.

Referências

Eleanor Dickey, Ancient Greek Scholarship, New York, Oxford University Press, 2007. Manar Badr, L'ancienne bibliothèque d'Alexandrie: un regard d'historien, Villeurbanne, ENSSIB, 2005, p. 107-116.

Leitura complementar brpt

Luciano Canfora, A biblioteca desaparecida, trad. F. Carotti, São Paulo, Cia. das Letras, 1989.

Créditos das ilustrações

i0031Moeda com efígie de Ptolomeu I Sóter (-367/-283) → Ver comentários.

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Artigo nº 0623
iniciado em 02/12/2007. Atualização: 10/01/2014.
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Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Bibliotecas e eruditos. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0623. Consulta: 23/10/2017.
 
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