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A medicina hipocrática

 
Asclépio e Hipócrates em Cós

Por volta da metade do século -V, teorias para explicar o funcionamento do corpo humano e o mecanismo das doenças haviam já sido formuladas. As ideias eram equivocadas, porém consistentes com os conhecimentos científicos da época.

A arte da medicina

Nas últimas décadas desse século, a medicina procurava se dissociar das práticas filosóficas, puramente teóricas, e se estabelecer como saber próprio, como τέχνη — ‘ciência, arte’ — específica e autônoma.

O médico era já um profissional respeitado, que praticava em consultório e tinha orgulho de sua atividade. Veja-se, por exemplo, o discurso do médico Erixímaco descrito por Platão em O Banquete.

Os mais antigos textos da coleção hipocrática, datados da segunda metade do século -V, transmitem um panorama razoável das teorias e da prática médica da época. O médico viajava muito e os tratamentos eram remunerados geralmente pelo próprio doente, quando ele tinha meios para isso. Não era requerida nenhuma qualificação formal, e ao lado de médicos sérios proliferavam muitos charlatães. Devido ao caráter estritamente patriarcal da sociedade grega, somente os homens tinham acesso à profissão.

Todos os sofrimentos do corpo eram da alçada do médico, inclusive os problemas odontológicos. Cirurgias rudimentares eram praticadas com relativo sucesso, especialmente no tratamento de fraturas, ferimentos e abscessos.

A terapêutica atuava em dois níveis: o do restabelecimento do equilíbrio dos humores, prejudicado pela doença, e o da remoção da causa da doença, quando possível. Efetuado o diagnóstico e estabelecido o prognóstico, o médico procurava determinar o ‘momento oportuno’ (gr. κρίσις) da sua intervenção. Um procedimento quase constante nos tratamentos era a purgação ou ‘purificação’ (gr. κάθαρσις), a evacuação dos humores nocivos através de clisteres, vomitórios, sangrias, fumigações, banhos quentes e frios, alimentos especiais e preparações medicinais à base de plantas.

Preconizava-se também uma dieta, que compreendia o regime de vida em sua totalidade: tipo, horário e quantidade de alimentos, exercícios, horas de sono, higiene pessoal, o uso do vinho, as relações sexuais e, eventualmente, mudança de residência ou de cidade.

Não havia hospitais, nem enfermeiras; os doentes mais graves eram assistidos em suas próprias casas e os cuidados eram prestados pelos próprios familiares, pelos servos da casa e, eventualmente, pelos discípulos do médico.

Escolas de Cós e de Cnidos

Cnidos, pólis situada na costa ocidental da Ásia Menor, ao sul, e Cós, pólis de uma ilha de mesmo nome da mesma região, eram os dois mais importantes e influentes centros de medicina[1]. Os médicos mais conhecidos do fim do século -V foram Nicômaco, pai do filósofo Aristóteles, e Filistion de Lócris, ambos ligados a Cnidos; e o famoso Hipócrates de Cós, a quem a tradição atribui a elevação da Medicina à categoria de "arte".

No início do século -IV, mais ou menos na época da morte de Hipócrates, a importância dos médicos de Cós e de Cnidos começou a declinar progressivamente. Do século -III em diante os grandes centros médicos foram Alexandria, no Egito, e Pérgamo, na Ásia Menor.

Outros sistemas de cura

Observe-se finalmente que, a despeito de todo o progresso de natureza intelectual e prática, a medicina religiosa dos templos de Asclépio e outras formas de medicina alternativa nunca desapareceram e se mantiveram como práticas populares durante toda a Antiguidade [Ilum. 0943].

Notas

  1. De forma análoga à “escola” de Filosofia, o termo “escola” de Medicina se aplica a certos sistemas de conhecimentos médicos da Antiguidade sobre o funcionalmento do corpo humano, etiologia de doenças e princípios de diagnóstico e tratamento. Embora algumas delas sejam ligadas a determinadas póleis devido a origem de alguns dos médicos mais conhecidos, não significa que nelas havia uma instituição ou que havia sistema de ensino sediado em algum edifício ou templo.

Leitura complementar brpt

R. Siqueira-Batista e F.R. Schramm, Platão e a medicina. Hist. Cienc. Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 3, 2004, p. 619-34. URL: www.scielo.br.

Créditos das ilustrações

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Artigo nº 0695
publicado em 19/02/2000.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. A medicina hipocrática. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0695. Consulta: 25/05/2017.
 
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