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A coleção hipocrática

Corpus hippocraticum[Hippoc.]
 
Edição aldina do Corpus hippocraticum

Uma heterogênea coleção de escritos médicos em dialeto iônico, criados ao longo de quase sete séculos, constitui o que hoje denominamos ‘coleção hipocrática’ (lat. corpus hippocraticum).

São 60 tratados, aproximadamente, de temática muito variada e distribuídos em mais ou menos 70 livros.

Origem e autoria

Os textos mais antigos datam provavelmente de -450/-430 e os mais novos, dos séculos III e IV. Uma das hipóteses correntes é a de que todos os escritos médicos da escola de Cós (e provavelmente também alguns da de Cnidos) foram reunidos no Período Helenístico pelos sábios alexandrinos.

O núcleo mais antigo da coleção continha, aparentemente, apenas 21 tratados, conforme o testemunho de Báquio de Tânagra no século -III. O cânone definitivo com 60 tratados foi estabelecido no século XI, provavelmente, pelos eruditos bizantinos.

Embora a coleção tenha sido tradicionalmente atribuída a Hipócrates de Cós, nenhum dos escritos pôde ter sua autoria a ele vinculada com qualquer grau de certeza, nem mesmo o famoso Juramento de Hipócrates (Lloyd, 1991). Somente o tratado Da Natureza do Homem, escrito por volta de -400, pode ser atribuído com alguma plausibilidade a Pólibo, genro de Hipócrates.

Os textos

Além de tratados médicos propriamente ditos, há vários outros tipos de texto: conferências sobre medicina e filosofia, textos para leigos, notas para orientação de alunos, rascunhos e minutas de discursos. A extensão e a qualidade é muito desigual.

Classificação

Os escritos podem ser agrupados de várias formas. Eis uma classificação prática com alguns textos representativos:

  • Medicina geral: Da arte, Da medicina antiga
  • Comportamento profissional: Juramento, Do médico, Do decoro
  • Anatomia e fisiologia: Da anatomia, Da natureza do homem, Do coração
  • Medicina preventiva: Da dieta
  • Patologia geral: Epidemias, Da Doença Sagrada, Das Doenças
  • Patologia especial: Da visão, Das enfermidades das mulheres, Do parto de oito meses
  • Terapêutica: Da dieta nas enfermidades agudas, Do uso dos líquidos
  • Cirurgia: Das articulações, Dos ferimentos na cabeça, Das úlceras
  • Temas diversos: Da dentição, Aforismos

Sinopses

O corpus hippocraticum chegou até nossos dias praticamente na íntegra; somente alguns poucos tratados se perderam.

Outras sinopses serão futuramente acrescentadas.

Manuscritos e edições

Os manuscritos mais importantes são o Vindobonensis medicus IV (Biblioteca Nacional, Viena, sæc. X); o Parisinus 2253 (Biblioteca Nacional, Paris, sæc. XI); o Laurentianus 74.7 (Biblioteca Laurenciana, Florença, sæc. XI-XII); e o Vaticanus gr. 276 (Biblioteca do Vaticano, sæc. XII).

Índice da coleção hipocrática, MS Vaticanus gr. 277, 1512

Nenhum manuscrito contém a coleção completa e a lista de tratados em cada um deles é diferente. Na Antiguidade existiam, certamente, diferentes “coleções” de textos atribuídos a Hipócrates. A primeira edição completa (editio princeps) dos manuscritos no Ocidente é a Aldina, de 1526.

A mais antiga e, até o momento, a única edição completa é a do médico e erudito francês Émile Littré (1801/1881), publicada em 10 volumes entre 1839 e 1861 e acompanhada de tradução para o francês. Essa foi, também, a primeira edição dos manuscritos segundo as modernas técnicas filológicas.

Edições posteriores e mais atualizadas estão em curso desde 1923 nas coleções Loeb (inglês), Belles Lettres (francês), Corpus Medicorum Graecorum (alemão), e Biblioteca Clasica Gredos (espanhol). Em italiano, há algumas traduções esparsas; em português... muito pouco!

Traduções

Traduzi, há alguns anos, os cinco textos ligados à ética médica: Juramento, Da lei, Do médico, Do decoro, Preceitos, e meu amigo Henrique Cairus, professor de língua e literatura grega da UFRJ, já traduziu três importantes tratados, Da Doença Sagrada, De Águas, Ares e Lugares e Da Natureza do Homem.

vários tratados foram editados e traduzidos isoladamente

Essas oito traduções, acompanhadas de extensos comentários, de uma introdução à Coleção Hipocrática e de uma detalhada biografia de Hipócrates, foram publicadas em 2005 (Cairus e Ribeiro, 2005).

Julieta Alsina traduziu em 2015 o Livro IV do tratado Da Dieta, também conhecido por Dos Sonhos, e Alves de Souza coordenou em 2018 uma tradução dos tratados Dos fetos de oito meses, Das mulheres inférteis, Das doenças das jovens, Da superfetação e Da fetotomia.

Mais traduções, espero, estão a caminho...

Influências

Na Antiguidade, os tratados foram estudados e comentados por vários médicos e muitos estudiosos, notadamente Herófilo (-335/–280), Báquio de Tânagra (sæc. -III), Heraclides de Tarento (fl. sæc. III/II), Erotiano (fl. 54/68), Galeno e Sorano de Éfeso. Erotiano e Báquio também compilaram glossários de termos encontrados na coleção.

Médico romano lê um papiro, talvez um texto hipocrático

A coleção hipocrática, juntamente com os textos de Galeno, eram considerados textos básicos de medicina no Ocidente até fins do século XVIII. Somente as modernas descobertas da ciência ultrapassaram, a partir do século XIX, sua importância nas escolas médicas.

O método de abordagem do doente e da doença, a postura do médico, os princípios básicos de diagnóstico e tratamento, mais as bases filosóficas e éticas estabelecidas pela coleção continuam, todavia, tão atuantes hoje quanto há 2000 anos.

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