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A coleção hipocrática

 
Edição aldina do Corpus hippocraticum

Uma coleção heterogênea de escritos médicos em dialeto iônico que abrange quase sete séculos constitui, hoje, o que denominamos coleção hipocrática (corpus hippocraticum). São 60 tratados, aproximadamente, de temática muito variada e distribuídos em mais ou menos 70 livros. Os diversos livros da coleção hipocrática foram considerados textos básicos de medicina no Ocidente até fins do século XVIII e somente as modernas descobertas da ciência ultrapassaram, a partir do século XIX, sua importância nas escolas médicas.

O método de abordagem do doente e da doença, a postura do médico, os princípios básicos de diagnóstico e tratamento, mais as bases filosóficas e éticas estabelecidas pela coleção continuam, todavia, tão atuantes hoje quanto há 2000 anos.

Origem e autoria

Os textos mais antigos datam provavelmente de -450/-430 e os mais novos, dos séculos III e IV. Uma das hipóteses correntes é a de que todos os escritos médicos da escola de Cós (e provavelmente também alguns da de Cnidos) foram reunidos no Período Helenístico pelos sábios alexandrinos. O núcleo mais antigo da coleção continha, aparentemente, apenas 21 tratados, conforme o testemunho de Báquio de Tânagra no século -III. O cânone definitivo de 60 tratados foi estabelecido no século XI, provavelmente, pelos eruditos bizantinos.

Embora a coleção tenha sido tradicionalmente atribuída a Hipócrates de Cós, nenhum dos escritos pôde ter sua autoria a ele vinculada com qualquer grau de certeza, nem mesmo o famoso Juramento de Hipócrates (Lloyd, 1991). Somente o tratado Da Natureza do Homem, escrito por volta de -400, pode ser atribuído com alguma plausibilidade a Pólibo, genro de Hipócrates.

Os textos

Além de tratados médicos propriamente ditos, há vários outros tipos de texto: conferências sobre medicina e filosofia, textos para leigos, notas para orientação de alunos, rascunhos e minutas de discursos. A extensão e a qualidade é muito desigual.

Os escritos podem ser agrupados de várias formas; eis uma classificação prática e amostra representativa:

Medicina Geral
Da Arte, Da Medicina Antiga
Comportamento profissional
Juramento, Do Médico, Do Decoro
Anatomia e fisiologia
Da Anatomia, Da Natureza do Homem, Do Coração
Medicina preventiva
Da Dieta
Patologia geral
Epidemias, Da Doença Sagrada, Das Doenças
Patologia especial
Da Visão, Das Enfermidades das Mulheres, Do Parto de Oito Meses
Terapêutica
Da Dieta nas Enfermidades Agudas, Do Uso dos Líquidos
Cirurgia
Das Articulações, Dos Ferimentos na Cabeça, Das úlceras
Temas diversos
Da Dentição, Aforismos

O corpus hippocraticum chegou até nossos dias praticamente na íntegra; somente alguns poucos tratados se perderam. No Portal, há uma amostra representativa dos principais textos.

Edições e traduções

A primeira edição completa dos manuscritos, no Ocidente, é a Aldina, de 1526. A mais antiga e completa edição e tradução para uma língua moderna é a do médico e erudito francês Émile Littré (1801/1881), publicada em 10 volumes entre 1839 e 1861. Foi a primeira edição dos manuscritos segundo as modernas técnicas filológicas.

Edições posteriores e mais atualizadas estão em curso desde 1923, nas coleções Loeb (inglês), Belles Lettres (francês), Corpus Medicorum Graecorum (alemão), e Biblioteca Clasica Gredos (espanhol). Em italiano, há algumas traduções esparsas; em português... muito pouco, praticamente nada.

Traduzi, recentemente, os cinco textos ligados à ética médica: Juramento, Da lei, Do médico, Do decoro, Preceitos, e meu amigo Henrique Cairus, professor de língua e literatura grega da UFRJ, já traduziu três importantes tratados, Da Doença Sagrada, De Águas, Ares e Lugares e Da Natureza do Homem. Essas oito traduções, acompanhadas de extensos comentários, de uma introdução à Coleção Hipocrática e de uma detalhada biografia de Hipócrates, foram publicadas por nós em 2005 (Cairus e Ribeiro, 2005). Outras traduções, espero, estão a caminho...

Outras iluminuras

 
Médico romano lendo.
 
Manuscrito com índice do Corpus hippocraticum.

Referências

G.E.R. Lloyd, The Hippocratic Question, in _________, Methods and problems in Greek Science, Cambridge, University Press, 1991, p. 194-223.

Leitura complementar brpt

Henrique F. Cairus & Wilson A. Ribeiro Jr., Textos Hipocráticos: o doente, o médico e a doença, Rio de Janeiro, Fiocruz, 2005.

Créditos das ilustrações

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Imprenta

Artigo nº 0267
publicado em 10/04/2000. Atualização: 28/06/2006.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. A coleção hipocrática. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0267. Consulta: 25/05/2017.
 
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