A escrita linear B

Heládico recente III -1400 a -1100

As mais antigas inscrições gregas conhecidas estão nas tabuinhas de argila desenterradas pelos arqueólogos nos palácios micênicos de Pilos, Micenas, Tirinto e Tebas, na península balcânica, e em Cnossos e Cânia, na ilha de Creta.

Sumário

As tabuinhas

As tabuinhas foram aparentemente cozidas pelo fogo dos incêndios que destruíram os palácios. Inscrições do mesmo tipo foram também encontradas em diversos tipos de vasos, descobertos em diversos sítios ocupados pelos micênios.

Os sinais gravados nas tabuinhas e nos vasos pertencem à escrita grega silábica conhecida modernamente por linear B, que existiu entre -1400 e -1150, mais ou menos. Esse período corresponde historicamente ao Bronze Recente ou, mais exatamente, ao Heládico Recente do continente grego e ao Minoico Recente de Creta.

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Fig. 0005. Tabuinha KN Sc 230. Cnossos, sæc. -XIV.

Não sabemos se a linear B reproduzia a língua grega tal qual era falada ou se ela apenas documentava uma espécie de jargão utilizado pelos escribas nos registros contábeis da economia palaciana.

Os micênios falavam uma forma bastante arcaica do grego e adaptaram para sua própria língua a escrita silábica dos minoicos de Creta. A adaptação está longe de ser perfeita, pois essa escrita silábica da Idade do Bronze decididamente não reproduz todas as nuances da língua grega.

É possível que naquela época remota a língua grega já estivesse dividida em mais de um dialeto; mas a maioria dos eruditos acredita, por enquanto, que o dialeto utilizado pelos povos micênicos era possivelmente uma forma muito antiga do dialeto falado na Arcádia e em Chipre durante a Idade das Trevas, o árcado-cipriota. Há evidências arqueológicas de que populações gregas originárias do Peloponeso emigraram para Chipre durante os séculos -XII/-XI e é bem possível que o dialeto usado por essas populações era o que poderíamos chamar de protoarcadiano.

A decifração

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Fig. 0167. Localização das tabuinhas em Linear B.

As bases da decifração da linear B foram lançadas em 1953 pelos estudiosos ingleses Michael Ventris e John Chadwick. Até o momento, cinquenta anos já passados, não se descobriu ainda nenhuma inscrição fora do ambiente palaciano, nenhum registro particular, nenhum texto literário.

A escrita parece ter sido usada apenas para o registro contábil de produtos agrícolas, animais, pessoas e manufaturas. Algumas informações sobre a sociedade micênica, no entanto, puderam ser deduzidas a partir dessas frias anotações.

O silabário compõe-se de 87 sinais, dos quais 65 são evidentemente silábicos, e numerosos ideogramas. Os sinais silábicos representam as vogais e mais as diversas combinações entre as 12 consoantes e as 5 vogais.

Eis algumas palavras escritas apenas com sinais silábicos, ao lado da transcrição latina, da correspondência no grego clássico e da tradução:

Linear B Transcrição Grego clássico Tradução
𐀏 𐀒 ka-ko χαλκός bronze
𐀴 𐀪 𐀡 ti-ri-po τρίπος trípode
𐀣 𐀯 𐀩 𐀄 qa-si-re-u βασιλεύς rei
𐀶 𐀏 𐀳 tu-ka-te θυγάτηρ filha

Outro grupo de sinais é o dos ideogramas, em que uma única imagem gráfica se assemelha ao ser/objeto que representa e define, assim, uma palavra inteira ou um conceito. Na inscrição da tabuinha acima (KN Sc 230), por exemplo, os três últimos sinais à direita são ideogramas. Eles representam, da direita para a esquerda, cavalo (𐂃), carruagem com rodas (𐃌) e couraça ou túnica (𐂪).

Vários sinais silábicos e numerosos ideogramas estão ainda por identificar, mas os especialistas já são capazes de decifrar a grande maioria das inscrições conhecidas.

Os sinais silábicos

O nome dos sinais fonéticos mais comuns são equivalentes fonéticos aproximados do som correspondente no dialeto micênico, e.g. 𐀀 𐀍 = -a-jo = -αῖος. Os sinais mais raros ou pouco conhecidos têm notações fonéticas aproximadas ou puramente hipotéticas, tais como a2, nwa e pu2.

Sinais básicos:

𐀀 a
𐀅 da
𐀊 ja
𐀏 ka
𐀔 ma
𐀙 na
𐀞 pa
𐀣 qa
𐀨 ra
𐀭 sa
𐀲 ta
𐀷 wa
𐀼 za
𐀁 e
𐀆 de
𐀋 je
𐀐 ke
𐀕 me
𐀚 ne
𐀟 pe
𐀤 qe
𐀩 re
𐀮 se
𐀳 te
𐀸 we
𐀽 ze
𐀂 i
𐀇 di
𐀑 ki
𐀖 mi
𐀛 ni
𐀠 pi
𐀥 qi
𐀪 ri
𐀯 si
𐀴 ti
𐀹 wi
𐀃 o
𐀈 do
𐀍 jo
𐀒 ko
𐀗 mo
𐀜 no
𐀡 po
𐀦 qo
𐀫 ro
𐀰 so
𐀵 to
𐀺 wo
𐀿 zo
𐀄 u
𐀉 du
𐀎 ju
𐀓 ku
𐀘 mu
𐀝 nu
𐀢 pu
𐀬 ru
𐀱 su
𐀶 tu

Sinais ditos opcionais:

𐁀 a2
𐁅 nwa
𐁈 ra2
𐁋 ta2
𐁁 a3
𐁃 dwe
𐁆 pu2
𐁉 ra3
𐁌 twe
𐁂 au
𐁄 dwo
𐁇 pte
𐁊 ro2
𐁍 two

Eis alguns sinais, talvez silábicos, ainda não decifrados:

𐁔 (47)   𐁖 (56)   𐁘 (64)   𐁙 (79)   𐁜 (86)   𐁝 (89) .

Ideogramas

Os ideogramas são conhecidos, entre os especialistas, pelos nomes latinos ou, conforme o caso, por números; alguns ideogramas representam pesos e medidas. Eis uma pequena amostra:

𐂚 AES, bronze
𐂑 AROM(aticum), tempero
𐁒 CAP(er), bode
𐂃 EQU(us), cavalo
𐂏 HORD(eum), cevada
𐂕 OLE(um), óleo
𐃏 ROTA, roda
𐃨 *209VAS, ânfora
𐂷 ARB(or), árvore
𐃌 BIG(ae), biga
𐂠 CORN(u), chifre
𐃃 GAL(ea), capacete
𐂝 LANA, lã
𐂐 OLIV(a), oliveira
𐃇  SAG(itta), flecha
𐃶 *227VAS, rhyton
𐃔 ARC(us), arco
𐂍 BOS, boi
𐃍 CUR(rus), carro
𐃆 HAS(ta), bastão
𐂁 MUL(ier), mulher
𐃉 PUG(io), adaga
𐂪 TUN(ica), túnica
𐂀 VIR, homem

Os ideogramas não decifrados são relativamente numerosos:

𐂮 (*166)   𐃀 (*185)   𐃛 (*257), etc.

Algumas inscrições em linear B

No Portal há alguns exemplos da escrita grega da Idade do Bronze:

Os dois primeiros exemplos têm apenas palavras e citações; os três últimos mostram a inscrição, um desenho da tabuinha, a transcrição latina, a versão em grego clássico e uma tradução básica para o português.