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A hominização

Felipe A. Ribeiro & Wilson A. Ribeiro Jr.
Breve panorama da emergência e do desenvolvimento biológico e cultural da espécie humana.
 
 
Homo erectus

Os seres humanos atuais, do ponto de vista biológico, são primatas da família dos hominídeos (lat. Hominidae), gênero Homo, espécie Homo sapiens, ‘homem que sabe’[1]. Seu nome científico é uma alusão à capacidade intelectual, especialmente a linguagem signo-simbólica, e à habilidade manual que os distinguem das demais espécies animais.

A emergência do homem

As notáveis características dos seres humanos se desenvolveram lenta e progressivamente, segundo leis gerais da evolução biológica, da mesma forma que as de outros seres vivos. Acredita-se que a linhagem humana começou a divergir das outras há 6 ou 7 milhões de anos.

Os fósseis hominídeos mais antigos foram encontrados no leste africano (Chade, Quênia, Etiópia e Tanzânia) e também em algumas partes da África do Sul. Esses hominídeos, dos gêneros Saehlanthropus, Orrorin, Australopithecus e Ardipithecus, viveram e se extinguiram no continente africano.

Acredita-se que uma linhagem de Australopitecus sp. tenha dado origem a duas linhagens principais, uma das quais originou a espécie humana, o ser humano anatomicamente moderno. O primeiro representante do gênero Homo foi, porém, o Homo habilis, que se destacou da família dos hominídeos na África Oriental, entre 2,3 e 1,4 milhões de anos atrás[2].

Fig. 0085. A linhagem do Homo. O cladograma[3] está fora de proporção temporal e as linhagens extintas estão tracejadas.

Outra espécie humana, Homo erectus, cujo ancestral é o mesmo do Homo habilis (Fig. 0085), surgiu há aproximadamente 1,8 milhão de anos e ocupou extensas áreas dos continentes europeu e asiático. O H. erectus foi, possivelmente, o primeiro hominídeo a manipular o fogo e a cozinhar alimentos.

Paralelamente ao H. erectus, evoluiu a linhagem do Homo heidelbergensis, cujos primeiros indícios foram encontrados na Alemanha, em 1908. Essa foi provavelmente a primeira espécie a habitar climas frios, caçar animais de grande porte e controlar com eficiência o fogo. Viveu entre 700 mil e 200 mil anos atrás, na Europa, na África e na China.

O Homo neanderthalensis, o famoso homem de Neanderthal, já bastante semelhante ao homem moderno, originou-se da mesma linhagem do H. heidelbergensis. Desenvolveu-se na Europa e na Ásia Ocidental, entre 200 e 35 mil anos atrás, quando então o H. sapiens teria chegado à Europa, possivelmente convivendo com essa espécie em algumas regiões.

Fig. 0086. Detalhe do cladograma anterior, com mudança de posição do Homo heidelbergensis.

O Homo sapiens se espalhou por todo o planeta e de 30.000 anos para cá, mais ou menos, é a única espécie do gênero Homo que não se extinguiu. Nas Américas, evidências arqueológicas recentes sugerem que a ocupação humana ocorreu entre 18.500 e 14.500 anos atrás.

Há divergência sobre as relações evolutivas entre H. heidelbergensis, H. neanderthalensis e H. sapiens (Fig. 0086). Acredita-se que o H. heidelbergensis tenha surgido no continente africano e, ao migrar para a Europa, tenha originado a linhagem dos neandertais; as populações que teriam ficado na África teriam originando o H. sapiens.

Evolução cultural

Alguns marcadores são característicos de nossa humanidade, como o andar bípede, a capacidade de produzir linguagem, a comunicação precisa com outros indivíduos de nossa espécie e o desenvolvimento da expressão simbólica. Devemos, consequentemente, procurar no passado os indícios da origem de tais características, assim como explicar o que fixou essas inovações.

Fig. 0087. Tamanho relativo do cérebro: homem (H) e outros primatas (OP).

Do ponto de vista puramente biológico, a evolução humana se caracterizou pelo desenvolvimento da postura ereta e pelo aumento progressivo do tamanho do cérebro e da destreza manual. Compare-se, por exemplo, o tamanho relativo do cérebro do homem e dos outros primatas na Fig. 0087.

O estudo dos fósseis revela, por outro lado, que nos últimos 100 mil anos o organismo humano não apresentou, em termos evolutivos, nenhuma novidade biológica. Se colocássemos um homem de 100 mil anos atrás barbeado, penteado e vestido com roupas modernas em um estádio de futebol ou em uma câmara municipal, por exemplo, não seria possível distingui-lo dos demais.

Isso significa que certas características ditas humanas do homem moderno foram determinadas, em boa parte, pela história cultural, e não pela história biológica. Nos últimos 100.000 anos a cultura humana teve notável desenvolvimento, principalmente em comparação com a aparente estabilidade das ferramentas utilizadas pelos nossos ancestrais do gênero Homo nos 2 milhões de anos anteriores. Conquistas culturais como utensílios cada vez mais eficazes, abrigos semipermanentes, o domínio do fogo, as apuradas técnicas de obtenção de alimentos (caça, coleta, agricultura, pecuária), a arte e a escrita, transformaram o ser humano no que ele é atualmente.

A evolução biológica nos levou até certo ponto, mas é a evolução cultural que hoje nos define. Para fins de estudo, essa evolução cultural costuma ser dividida em várias etapas de duração variável. A primeira delas, o Paleolítico, caracterizou-se economicamente pela caça e pela coleta e, tecnologicamente, pela confecção de utensílios de pedra.

Era essa a etapa cultural do Homo sapiens há 30 mil anos, quando ele se tornou a única espécie sobrevivente do gênero Homo.

Outras iluminuras

 
Homo heidelbergensis.
Tautavel, Museu de Pré-História
 
O menino de Turkana.
Nairobi, Museu Nacional do Quênia
 
Instrumentos líticos do Paleolítico Inferior.

Notas

  1. Os seres vivos que existem ou já existiram são reunidos pelos cientistas em táxons, agrupamentos de espécies usados como unidades de classificação. Os táxons são considerados naturais quando as espécies agrupadas compartilham características derivadas de um ancestral comum e exclusivo. Eis a “ficha de identidade biológica” do homem (Tab. 1):
    E esta é a ficha de nossos antepassados e parentes próximos (Tab. 2):
    Por convenção internacional, os nomes são dados em latim.
  2. Resquícios de outra espécie, Homo denisova, muita próxima à dos seres humanos atuais, foram encontrados em cavernas de Denisova, na Sibéria, mas ainda se discute se é espécie diferente do H. sapiens ou não. Outros resquícios, datados de 95 a 17 mil anos atrás e encontrados na Ilha de Flores, pertencem aparentemente a outra espécie, H. floresiensis, cujas relações evolutivas com o H. sapiens permanecem incertas. Indivíduos de outra linhagem extinta, a do Homo rudolfensis, também originada de populações de Austrolopithecus sp., habitaram o leste do continente africano há aproximadamente 2 milhões e, provavelmente, conviveram com populações de outras espécies, como Homo habilis e Homo erectus.
  3. Cladograma é um diagrama usado em estudos evolutivos, que mostra relações de ancestralidade entre “táxons” (espécie, gênero, família etc.) e no qual cada ramo é denominado “clado”. Os pontos de separação de clados marcam eventos de separação da população que resultaram na formação de novos táxons (cladogênese). A formação de novos táxons também pode ocorrer dentro do mesmo clado (anagênese), ou seja, a população se modifica ao longo do tempo em razão de modificações genéticas.

Créditos das ilustrações

i0130Homo erectus → Ver comentários.
0085Desenho de Felipe A. Ribeiro, 2016. → / CC BY-NC-ND 4.0.
0086Desenho de Felipe A. Ribeiro, 2016. → / CC BY-NC-ND 4.0.
0087Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., 1997. → / CC BY-NC-ND 4.0.
i0911Homo heidelbergensis → Ver comentários.
i0956O menino de Turkana → Ver comentários.
i0018Instrumentos líticos do Paleolítico Inferior → Ver comentários.

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Imprenta

Artigo nº 0142
publicado em 02/04/1999. Atualização: 20/06/2016.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. A hominização. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0142. Consulta: 24/08/2017.
 
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