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Hipócrates / Do decoro

Ἰητρὸς γὰρ φιλόσοφος ἰσόθεος·
Hp. Decent. 5

Um médico amigo da sabedoria é igual aos deuses.

 
 
Asclépio maduro

O tratado ‘Do Decoro’ (gr. Περὶ εὐσχημοσύνης) é um dos mais obscuros da coleção hipocrática; parece, apenas, uma série de notas e lembretes frouxamente organizados para consulta durante alguma apresentação. A obscuridade se deve, em parte, à corrupção do texto nos diversos manuscritos, mas também às ideias confusas, às expressões pouco usuais e à enorme quantidade de palavras inexistentes em qualquer outro texto grego. A língua materna do escritor, provavelmente, não era o grego.

O texto contém, no entanto, o maior conjunto de recomendações sistemáticas para o comportamento médico adequado de toda a Coleção. Alguns eruditos detectaram, também, uma certa influência das doutrinas filosóficas tardias, notadamente do estoicismo.

Quanto à data da composição, Do Decoro pertence provavelmente ao grupo de manuscritos mais recentes da Coleção, juntamente com Do coração, Do médico, Do alimento e Preceitos. Foi escrito, certamente, nos séculos III ou IV.

Resumo

O texto se distribui em dezoito parágrafos e ocupa 12 páginas da edição de Jones (1923), na qual este resumo se baseia.

A primeira parte do tratado trata da medicina como um dos tipos de sabedoria; a segunda, do comportamente médico adequado às diversas circunstâncias da prática profissional.

Todas as sabedorias são úteis, porém há sabedorias boas e más (I); características físicas, vestimenta e comportamento dos sábios ligados à má sabedoria (II) e à boa sabedoria (III); papel da predisposição natural e do aprendizado no exercício de uma arte (IV). Todas as características da boa sabedoria estão presentes na medicina (V), cujo exercício tem uma certa relação com o divino (VI).

O bom exercício profissional requer decoro e organização (VII), notadamente na aplicação dos diversos tratamentos (unguentos, bandagens) e no arranjo do instrumental necessário (VIII). As drogas e suas propriedades devem ser guardadas na memória (IX); algumas devem ser preparadas com antecedência (X), e o doente precisa ser previamente informado de sua utilização (XI).

O médico deve se apresentar ao doente de forma conveniente (XII); fazer visitas frequentes; agir com firmeza se o ambiente da casa não é adequado; vigiar as mudanças de comportamente da doença (XIII); verificar a obediência às suas determinações (XIV) e se o leito do paciente está em lugar adequado (XV). Deve-se dar serenamente as informações sobre a doença, evitar os prognósticos apressados (XVI), deixar um estudante treinado na casa para observar o doente e supervisionar o cumprimento das prescrições médicas (XVII).

Seguindo essas normas de conduta, o médico terá boa e duradoura reputação e será honrado por pais e filhos (XVIII).

Manuscritos, edições e traduções

A única fonte importante do tratado Do Decoro é o manuscrito Marcianus Venetus 269 (sæc. XI), da Biblioteca de São Marcos, em Veneza. Infelizmente ele contém diversos erros e há várias lacunas, especialmente nos primeiros parágrafos.

A editio princeps é a Aldina, de 1526. As principais edições modernas são as de Littré (1861), Heiberg (1927) e Fleischer (1939); a mais acessível, utilizada aqui, é a de Jones (o.c.).

Algumas passagens deste tratado foram traduzidas para o português por Ana Lia Almeida Prado (1997); preparei recentemente uma tradução completa do texto, a primeira em português, publicada em 2005.

Referências

W.H.S. Jones, Hippocrates, v. 2. Cambridge and London: Harvard University Press, 1923.

Leitura complementar brpt

Wilson A. Ribeiro Jr., Do decoro, in Henrique F. Cairus & _________, Textos Hipocráticos: o doente, o médico e a doença. Rio de Janeiro: Fiocruz, p. 193-210, 2005.

Créditos das ilustrações

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Artigo nº 0357
publicado em 27/12/2000. Atualização: 03/08/2005.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Hipócrates / Do decoro. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0357. Consulta: 18/08/2017.
 
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