Ió e Zeus

Seção: mitologia grega
iiniIó, Hermes e Argos

Ió (gr. Ἰώ) era filha — ou, em certas versões, simples descendente — do deus-rio Ínaco. A genealogia é um tanto confusa, mas ela sem dúvida pertencia à família real de Argos. Segundo a tradição, quando Ió era sacerdotiza do templo de Hera em Argos, Zeus se apaixonou por ela e ia visitá-la com frequência.

Hera desconfiou da nova aventura do marido; porém, antes que pudesse fazer alguma coisa, Zeus transformou a moça em uma novilha de grande beleza e passou a encontrá-la na forma de touro. Mas Hera, acostumada com os truques de Zeus, exigiu que a novilha lhe fosse dada e colocou-a sob vigilância em um bosque de Micenas.

O vigia, que se chamava Argos, tinha cem olhos, enxergava tudo o que havia para ser visto em todos os pontos cardeais e era tão eficiente que, enquanto dormia, fechava apenas cinquenta olhos de cada vez. Zeus começou a se cansar daquela história e encarregou o eficiente Hermes de liquidar o incômodo vigia. Mas a morte de Argos não libertou Ió, pois o ódio de Hera nunca acabava; ela ordenou, então, que um feroz moscardo picasse a novilha sem cessar.

A pobre Ió, instigada pelo moscardo, percorreu toda a Grécia em desvairada corrida. Indo para o norte, atravessou o Bósforo, assim chamado em sua homenagem (Bósforo significa, literalmente, ‘passagem da vaca’), passou pela Cítia, encontrou Prometeu junto ao Cáucaso e acabou chegando ao Egito, onde voltou à forma humana e deu à luz um filho de Zeus, Épafo.

Posteriormente, Ió desposou o rei do Egito, Telégono, e seu filho Épafo reinou após a morte do pai adotivo. Os gregos consideravam Épafo uma encarnação de Ápis, o touro divino dos egípcios, e Ió foi associada à deusa Ísis[1].

Influências

A lenda de Ió e de seu filho Épafo contém numerosas referências ao antigo Egito, com o qual os gregos tiveram íntimo contato a partir de -650, época do faraó Psamético I (-664/-610, 26ª dinastia).

Ió é personagem importante da tragédia Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, e a lenda de sua transformação em vaca inspirou um drama de Sófocles chamado Ínaco, representado em Atenas entre -430 e -420, aproximadamente, e do qual restam alguns fragmentos.