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u  Introdução à Grécia Antiga
Fernando Pessoa
 
Um texto de Fernando Pessoa
poeta Fernando Pessoa (1888-1935) publicou em 1924 ou 1925 na efêmera Revista Athena, dirigida por ele e por Ruy Vaz, este notável artigo:

"Idéias Estéticas da Arte"

Tem duas formas, ou modos, o que chamamos cultura. Não é a cultura senão o aperfeiçoamento subjetivo da vida. Esse aperfeiçoamento é direto ou indireto; ao primeiro se chama arte, ciência ao segundo. Pela arte nos aperfeiçoamos a nós; pela ciência aperfeiçoamos em nós o nosso conceito, ou ilusão, do mundo.

Como, porém, o nosso conceito do mundo compreende o que fazemos de nós mesmos, e, por outra parte, no conceito, que de nós formamos, se contêm o que formamos das sensações, pelas quais o mundo nos é dado; sucede que em seus fundamentos subjetivos, e portanto na maior perfeição em nós — que não é senão a sua maior conformidade com esses mesmos fundamentos —, a arte se mistura com a ciência, a ciência se confunde com a arte (...)

Se é lícito que aceitemos que a alma se divide em duas partes — uma como material, a outra puro espírito —, de qualquer conjunto ou homem hoje civilizado, que deve a primeira à nação que é ou em que nasceu, a segunda à Grécia antiga. Excetas as forças cegas da Natureza, disse Sumner Maine, quanto neste mundo se move, é grego na sua origem.

A frase "estes gregos, que ainda nos governam de além dos próprios túmulos desfeitos" é um tanto macabra, mas bastante exata...
WARJ.
Estes gregos, que ainda nos governam de além dos próprios túmulos desfeitos, figuraram em dois deuses a produção da arte, cujas formas todas lhes devemos, e de que só não criaram a necessidade e a imperfeição. Figuraram em o deus Apolo a liga instintiva da sensibilidade com o entendimento, em cuja ação a arte tem origem como beleza. Figuraram em a deusa Athena a união da arte e da ciência, em cujo efeito a arte (como também a ciência) tem origem como perfeição. Sob o influxo do deus nasce o poeta, entendendo nós por poesia, como outros, o princípio animador de todas as artes; com o auxílio da deusa se forma o artista.

Com esta ordem de símbolos — e assim nesta matéria como em outras — ensinaram os gregos que tudo é de origem divina, isto é, estranho ao nosso entendimento, e alheio à nossa vontade. Somos só o que nos fizeram ser, e dormimos com sonhos, servos orgulhosos neles da liberdade que nem neles temos. Por isso o nascitur que se diz do poeta, se aplica também a metade do artista. Não se aprende a ser artista; aprende-se porém a saber sê-lo. Em certo modo, contudo, quanto maior o artista nato, maior a sua capacidade para ser mais que o artista nato. Cada um tem o Apolo que busca, e terá a Athena que buscar. Tanto o que temos, porém, como o que teremos, já nos está dado, porque tudo é lógico. Deus geometriza, disse Platão.

Referências

FERNANDO PESSOA. Disponível em www.terravista.pt/Guincho/2482/pessoa.html. Consultado em abril de 1999.

INSTITUTO CAMÕES, s.v. "Fernando Pessoa". Disponível em www.instituto-camoes.pt/escritores/pessoa.htm. Consultado em junho de 2000.

JORNAL DE POESIA, s.v. "Fernando Pessoa". Disponível em www.secrel.com.br/jpoesia/pessoa.html. Consultado em janeiro de 1998.

PESSOA, Fernando. Artigos e Idéias (selecta). Disponível em www.lsi.usp.br/art/pessoa/artigos/. Consultado em dezembro de 1999.

 
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Data da consulta: 13.05.2008
 
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