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 Homero :: Ilíada 22.311-66
Data: c. -750/-725. A passagem selecionada descreve a morte de Heitor. A tradução é de Guida Nedda Barata Parreira Horta (o.c.), antiga professora titular de Língua e Literatura Grega da UFRJ, já falecida.
A morte de Heitor
Assim lançou-se Heitor, brandindo o gládio ponteagudo,
e se atirou também Aquiles, o coração transbordante de rancor selvagem,
pondo à frente do peito o belo escudo trabalhado, enquanto oscilava,
refulgente, o capacete de quatro faces, revolto o áureo penacho
que Hefesto dispusera, em quantidade, em torno da cimeira.
Tal como a estrela vespertina avança entre outros astros
no seio profundo da noite, Vésper, a mais bela de quantas há no céu,
assim luzia a acerada lança que Aquiles brandia em sua dextra,
meditando o mal para o divino Heitor e perquirindo em sua bela pele
o ponto em que mais vulnerável deveria ser. Ora, todo o seu corpo estava
protegido pela armadura, as belas armas de bronze que, ao
[ vigoroso Pátroclo,
Heitor arrebatara ao matá-lo. Visível apenas era o ponto em que
a clavícula separa pescoço e espáduas, a garganta, por onde mais [ depressa
se esvai a vida. Foi lá que, impaciente, o divino Aquiles enterrou a lança
e a ponta atravessou de lado alado a carne tenra. Mas o pesado bronze
não atingiu a traquéia, permitindo a Heitor falar e responder alguma coisa.
E enquanto rola na poeira o contendor, Aquiles, o divino, diz triunfante:
"Heitor, ao despojares Pátroclo crias-te a salvo e o proclamaste,
esquecido de mim, estando eu tão longe. Pobre tolo! Pois afastado,
um vingador muito melhor que tu, junto às naus bojudas, postava-se atrás;
era bem eu que agora vergo-te os joelhos e, em breve, os cães e as aves
virão estraçalhar-te, enquanto a ele os Aqueus renderão honras fúnebres."
Desfalecente, Heitor, o de capacete reluzente, retrucou-lhe:
"Eu te suplico, por tua alma, por teus joelhos, por teus pais,
não permitas que, junto às naus bojudas dos Aqueus, me estraçalhem [ os cães,
Mms aceita, em abundância, ouro e bronze, que te ofertarão meu pai e
minha venerável mãe; meu corpo, devolve-o ao lar, para que Troianos
e esposas de Troianos me destinem, estando morto, às chamas da
[ fogueira."
Então Aquiles, o de pés rápidos, olhando-o obliquamente, retrucou:
"A mim, cachorro, não supliques, nem por meus joelhos, nem por meus
[ pais.
Tanto minha cólera e meu ardor me levariam a te despedaçar
para comer-te cru, tais coisas me fizeste, quanto é certo que ninguém
espantaria os cães de tua cabeça, ainda que trazendo dez ou vinte vezes
o valor de teu resgate, ou mesmo prometendo muito mais, fosse até por
insistência de Príamo, o Dardânida, a ofertar teu peso em ouro; de modo
[ algum
tua nobre mãe te pousará num leito, para chorar a quem gerou,
mas sim os cães e as aves te hão de devorar o corpo inteiro."
Então, já moribundo, responde Heitor, o de capacete cintilante:
"Ah sim; basta-me ver-te e conhecer-te, e não deveria tentar persuadir-te,
pois há um coração de ferro no teu peito. Mas tem cuidado agora a fim
[ de que
eu não me torne junto aos deuses motivo de cólera contra ti, no dia
em que Páris e Febo-Apolo, por mais bravo que sejas, te perderão, junto
às Portas-Céias". Nem bem falara e o fim mortal já o envolvia:
sua alma evolando-se dos membros partia para o Hades, deplorando-lhe
[ a sorte,
abandonando-lhe a força viril e a juventude. Já estava morto quando
[ Aquiles,
o divino, assim falou: "Morre! A mim virá a funesta divindade só quando
assim determinarem Zeus e os outros deuses todos."
[ Il. 22.311-66 ]
Referência
HORTA, G.N.B.P. Os gregos e seu idioma, v. 1. Rio de Janeiro: Di Giorgio, 3ª ed., 1983.
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