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PHILOSOPHIA
Os pitagóricos
altera
NOMINES
Πυθαγόρας
Pythagoras Phil.

Φιλόλαος
Philolaus Phil.
SIGLA CLASSICA
Pythag.
Philol.
 
Os pitagóricos
O pitagorismo mais antigo foi o meio no qual a filosofia pela primeira vez tornou-se uma maneira de viver tanto quanto uma disciplina de especulação intelectual.
J.V. Luce, 1994.
itágoras de Samos e seus seguidores estão envolvidos em tamanha quantidade de lendas que é muito difícil separar a realidade do mito. Muitos eruditos questionam, na atualidade, a existência histórica de Pitágoras, mas sem desmerecer a importância do "pitagorismo", doutrina atribuída tradicionalmente a ele.

Biografias

Pitágoras (gr. Πυθαγόρας), filho de Mnesarcos, nasceu cerca de -570 em Samos, no litoral da Ásia Menor. Consta que emigrou entre -540 e -522 para a cidade de Crotona, na península italiana, por discordar da tirania de Polícrates. Contavam-se muitas lendas a seu respeito, entre elas a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo e a de recordar as vidas passadas. Independentemente disso, era respeitado como sábio e fundou na cidade uma espécie de comunidade eminentemente religiosa, mas que participava ativamente da política local. No fim da vida, desentendimentos políticos obrigaram-no a emigrar para Metaponto, ao norte de Crotona, onde morreu por volta de -495.

Do pitagórico Filolau de Crotona (gr. Φιλόλαος) sabe-se ainda menos; nasceu em Crotona em meados do século -V e suas atividades devem ter se desenvolvido até o início do século -IV, pelo menos. É provável que tenha vivido algum tempo em Tarento (Magna Grécia) e em Tebas, e que tenha escrito um livro a respeito da doutrina pitagórica. Consta que anos mais tarde o livro foi adquirido por Platão.

Todos os outros pitagóricos, praticamente, são anônimos ou conhecidos somente pelo nome.

A confraria pitagórica

Segundo algumas referências tardias a confraria ou irmandade criada por Pitágoras em Crotona reunia cerca de trezentos jovens que viviam separadamente dos outros cidadãos e mantinham os bens em comum. Tudo o que era ensinado tinha de ser mantido em segredo, e nada se revelava aos de fora sob pena de exclusão.

A finalidade da confraria era aparentemente uma satisfação interior que a religião tradicional não dava, mas mesmo assim não há provas de que tivessem rompido com ela. Pitágoras oferecia sacrifícios aos deuses, e parece mesmo ter havido fortes ligações entre os pitagóricos e o culto de Apolo em Delfos. Parece ter havido, também, alguma influência do orfismo, um misterioso movimento religioso-filosófico do século -VI do qual pouco se conhece. A irmandade era aparentemente um "clube" de pessoas que cultivavam um estilo de vida particular e exclusivo, com seus rituais e segredos.

Devido ao voto de silêncio, somente especulações quanto à natureza dos ensinamentos ministrados por Pitágoras chegaram até nós, e de veracidade muito variável. Havia precauções rituais, como por exemplo evitar alimentar-se de favas, galos brancos e certos peixes, não apanhar o alimento que cai das mesas, e até supertições primitivas. Iâmblico (250/325) transmitiu-nos uma delas: "Quando te calçares, começa com o pé direito; ao lavares os pés, pelo esquerdo" (Iamb.Protr. 21, DK 58 c 6).

Exercícios físicos, música e estudos referentes à teoria musical e à matemática, assim como sua aplicação à natureza do Universo, aparentemente também faziam parte do "currículo". Atribuía-se aos números um significado místico e para eles a τετρακτύς, "número quaternário" (o número 10, formado pela adição dos quatro primeiros números: 1+2+3+4) era o fundamento de todas as coisas.

A obediência devida ao mestre era absoluta, e o argumento final de qualquer discussão era um "foi ele que disse". Daí as variadas coleções de ditos e "provérbios" chamados de ἀκούσματα, "coisas ouvidas", transmitidos já na Antigüidade sob o nome de Pitágoras.

A despeito de algumas oposições nem sempre pacíficas, os discípulos e seguidores de Pitágoras continuaram difundindo sua doutrina e desenvolvendo atividades políticas em várias cidades do sul da Itália até fins do século -IV, pelo menos.

Textos e doutrina

Pitágoras, caso tenha realmente existido, nada escreveu; Filolau de Crotona, no entanto, escreveu um livro do qual restam alguns poucos fragmentos, e conservaram-se os testemunhos de vários eruditos que o leram ou conviveram com ele e outros pitagóricos, e receberam informações orais. Não há, porém, nenhuma indicação dos argumentos e razões apresentadas por Pitágoras para qualquer uma das suas doutrinas.

A crença na reencarnação, transmigração da alma ou ainda metempsicose é a mais conhecida e popular das doutrinas pitagóricas. Acreditava-se que sua meta era a necessidade da purificação da alma, que ocorria no final de vários ciclos de reencarnação. Embora Heródoto (-484/-425) atribua a origem dessa crença aos egípcios (Hdt. 2, 123), consta que três outros povos contemporâneos, no mínimo, a conheciam (da Índia, Ásia Central e sul da Rússia).

Uma generalização da descoberta das relações numéricas entre os tons musicais levou, provavelmente, à idéia de que os números definem tudo aquilo que existe: "só aquilo que se pode determinar numericamente é um existente" (Lesky, 1971). Em nenhum lugar Filolau ou algum comentador antigo explica também o que se entende por "limitadores" e "ilimitados"; talvez haja alguma relação desses conceitos com a doutrina dos números, que ele abordara antes ou pressupunha ser do conhecimento de quem estava lendo. Essa doutrina às vezes apresentava os números pares e ímpares ligados a "limitadores e ilimitados", e considerava-os sujeitos à "harmonia", processo de mútuo ajustamento entre "coisas dessemelhantes, de diferente espécie e de ordem desigual". O conceito dos opostos e o da harmonia foram também usados na tentativa de explicar a natureza da alma ou psique (Stob.Anth. 1, 21, 7 d).

Alguns fragmentos esparsos, finalmente, deixam entrever uma verdadeira escatologia pitagórica: 1) a alma, após a morte, está sujeita a um julgamento divino; 2) a seguir há um castigo no mundo subterrâneo para os perversos; 3) há um melhor destino para os bons que, isentos de maldade no próximo mundo e numa posterior reencarnação podem alcançar a Ilha dos Bem-Aventurados.

Fragmentos e doxografia

Dezenas de tratados chegaram até nós sob o nome de Pitágoras, mas são meras ficções criadas no Período Greco-romano. A reconstrução das doutrinas pitagóricas se baseia exclusivamente em alguns poucos fragmentos de Filolau de Crotona e em testemunhos doxográficos de valor muito desigual.

Alguns dos autores mais importantes para o estudo do pitagorismo foram Aristóteles (-384/-322), Diógenes Laércio (200-250), Iâmblico (250-325), Porfírio (232-305) e Estobeu (fl. 450-500).

Edições e traduções

As coletâneas mais importantes de fragmentos e trechos doxográficos são a de Mulach (1868) e a de Hercher (1873), para Pitágoras, e a de Boeckh (1819) para Filolau de Crotona.

A mais antiga tradução para o português data de 1795 e se refere às "ficções" mencionadas acima, mas tem inegável valor histórico: Versos de Ouro que vulgarmente andam em nome de Pythagoras, traduzidos do grego e ilustrados com escólios e anotações críticas por Luís António de Azevedo. Em nossos dias, a doxografia e os fragmentos foram reunidos e traduzidos por Gerd Bornheim em 1989.

A edição utilizada aqui foi a de Kirk, Raven e Schofield (o.c.), que existe em versão portuguesa e traz uma seleção crítica de várias coletâneas.

Selecta
  1. Aspectos da doutrina pitagórica
  2. Epígrafe: • Os números
  3. Fragmentos de Filolau de Crotona

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  • BORNHEIM, G.A. Pitágoras de Samos. In: _______, Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, p. 47-50, 1989.
 
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03.06.1999
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Data da consulta: 16.05.2008
 
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