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SCIENTIAE
A divina medicina altera NOME ROMANO Asclépio / Esculápio
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 A divina medicina
té o advento dos filósofos da natureza, tanto a causa como a cura da doença eram atribuídos às divindades. Esse conceito já está presente nas obras de Homero e de Hesíodo, os mais antigos textos literários gregos conhecidos.
O poder dos deuses
Ao contar o mito de Pandora, Hesíodo relata que as doenças assolam a humanidade por si mesmas, conforme o desejo de Zeus (Hes.Op. 100-104); já Homero coloca a relação entre deuses e doença de uma forma mais pessoal e direta. Zeus, o mais poderoso dos deuses, é capaz de causar doença (Od. 10.407-411); Ártemis e Apolo, com suas flechas, provocam a morte súbita em mulheres e homens, respectivamente (Il. 24.758-759 e Od. 11.171-173), como bem demonstra a lenda de Níobe.
Mas o episódio mais característico é o da praga que dizima o exército aqueu no último ano da Guerra de Tróia, contada nos primeiros versos da Ilíada. Consultado um adivinho, descobre-se que a causa da praga é a ira de Apolo, motivada pelo tratamento desrespeitoso dado a um de seus sacerdotes. Depois que o deus foi aplacado, a doença efetivamente desapareceu.
Se a causa da doença era a cólera de um deus, o diagnóstico dependia naturalmente de um adivinho, intérprete por excelência dos desígnios divinos. Desse ponto de vista o tratamento, que consistia em oferecer sacrifícios e entoar hinos em louvor à divindade, prescindia dos médicos.
Os médicos divinos
E ficavam doentes os deuses? A resposta é "sim", embora pareça complicado para nós. Temos de lembrar sempre que, para os gregos, os deuses assemelhavam-se em quase tudo aos seres humanos, embora imortais e dotados de poderes imensos.
Homero nos conta, por exemplo, que Hades havia sido ferido, certa vez, por Héracles (Il. 5, 395-400) e que Ares e Afrodite foram atingidos por Diomedes durante as lutas entre gregos e troianos (Il. 5.335-343). O próprio Zeus, diz Apolodoro (Apollod. 1.6.3), foi ferido pelo monstruoso Tífon durante uma luta.
Os deuses tinham poderes diretos de cura, como por exemplo quando Dione curou o ferimento infligido a Afrodite (Il. 5.416-417) ou quando o troiano Glauco, ferido por uma flecha, é curado por Apolo em resposta a uma prece (Il. 16.510-529). Em certas situações, no entanto, os deuses doentes precisavam recorrer ao deus Paiean (= Peon).
Essa antiquíssima divindade da cura, cujo nome aparece já em uma tabuinha de Cnossos, escrita em Linear B (c. -1400), é apresentado por Homero como o "médico dos deuses". Peon atuava, aparentemente, sem usar poderes sobrenaturais, aplicando plantas medicinais (Il. 5.900-901). Segundo a tradição, uma dessas plantas era a peônia, assim chamada em sua homenagem.
No Período Arcaico, Peon foi assimilado a Apolo, que passou a ser invocado também sob o epíteto Iatrós ("médico"). Seu nome transparece igualmente em um dos hinos o peã entoado em homenagem a Apolo.
O centauro Quíron
Outro médico divino foi o centauro Quíron, meio homem e meio cavalo, filho do titã Cronos e de Fílira, uma das oceânides. Grande sábio e amigo dos mortais, vivia entre eles numa gruta do monte Pélion, na Tessália.
Educador de vários heróis, entre eles Peleu e seu filho Aquiles, Asclépio e Jasão, grande caçador e conhecedor de plantas medicinais e também da cirurgia, por seu intermédio os conhecimentos médicos foram divulgados aos mortais.
O mito referente ao seu desaparecimento é muito interessante. Quíron foi atingido acidentalmente por uma flecha de Héracles, durante uma de suas escaramuças contra os outros centauros. A flecha, embebida no veneno da Hidra de Lerna, produzia feridas incuráveis, e o centauro sofria dores horríveis, que nem seus conhecimentos médicos eram capazes de mitigar. Desesperado, Quíron renunciou então à sua imortalidade para conseguir morrer e escapar do terrível sofrimento...
Asclépio, deus da Medicina
Poucos mitos podem ser acompanhados, em sua gênese e evolução, tão de perto como o de Asclépio. Homero menciona que os dois médicos aqueus que foram a Tróia eram filhos do tessaliano Asclépio (Il. 2.729-732); Hesíodo, que escreveu suas obras mais ou menos cinqüenta anos mais tarde, já dá Asclépio como filho de Apolo (Hes.Fr. 63 e 90); há evidências arqueológicas de que por volta de -500 já era cultuado no Peloponeso.
Píndaro, na III Pítica (c. 473), relata a lenda de seu nascimento. Coronis, filha do lápita Flégias e irmã de Íxion, foi amada por Apolo e esperava um filho dele. Antes de dar à luz, no entanto, teve uma aventura com Ísquis, um simples mortal. Apolo encolerizou-se ao saber da traição e pediu à irmã, Ártemis, que matasse a amante infiel com uma flecha. Apiedou-se, no entanto, da criança, e retirou-a do ventre da mãe antes que as chamas da pira funerária a consumissem. O menino, Asclépio, foi então levado ao centauro Quíron para ser educado.
Asclépio aprendeu rapidamente a medicina e tornou-se capaz de curar praticamente todas as doenças e traumas. Depois de algum tempo começou a ressuscitar os mortos, e aí Hades foi se queixar a Zeus, pois seu reino estava ficando vazio. Para que a ordem natural das coisas não fosse conturbada, Zeus fulminou Asclépio com um raio, mas em reconhecimento de seus méritos recebeu-o entre as divindades.
Com o tempo, a lenda de Asclépio tornou-se popular e foi enriquecendo. Além de Podalírio e Macaon, já citados na Ilíada, a ele eram atribuídas várias filhas, que o auxiliavam em sua atividade curadora: Acesó e Iasó, a cura; Panacéia, a cura universal; e Hígia, a saúde.
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