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Timocles

 
Máscara de hetera

Timocles (gr. Τιμοκλῆς), o poeta cômico, floresceu entre -340 e -317, no ocaso do gênero conhecido por comédia intermediária; e nada mais sabemos de sua vida, a não ser que era ateniense (Suid. s.v.)[1]. Além do curto verbete da Suda, conhecemos 28 títulos de comédias e dispomos de 42 fragmentos, quase todos conservados por Ateneu.

Há uma certa predominância, nos fragmentos, de menções a heteras[2], a parasitas e a políticos de sua época. Dada a efervescência política da segunda metade do século -IV, quando Atenas estava às voltas com as intervenções de Felipe II nos territórios gregos, é natural que Timocles, assim como outros poetas cômicos contemporâneos, tenha revivido as diatribes da comédia antiga contra os políticos do momento.

Alguns temas de Timocles

Demóstenes (-384/-322)

Timocles não apreciava, aparentemente, nem Demóstenes (Ps.-Plu. X Orat. 845b) e nem seu inimigo Hipérides. Demóstenes é sarcasticamente descrito, na comédia Heróis (gr. Ἥρωες), como um homem que ‘devora catapultas e espadas e tem Ares nos olhos’... mas é covarde demais para lutar. Em Delos (gr. Δῆλος), o poeta satirizou os políticos corruptos de forma geral, mas citou explicitamente o orador Hipérides e sua glutonaria; Hipérides e outros são também bastante criticados na comédia Sátiros icários (gr. Ἰκάριοι σάτυροι)[3], na qual Timocles também parodiou o Prometeu Acorrentado de Ésquilo.

Paródias de tragédias e comédias antigas estavam entre seus temas favoritos. Na comédia Ὀρεσταυτοκλείδης, ‘Orestautocleide’ — algo como Autocleide no papel de Orestes — ele parodiou uma célebre cena da tragédia Eumênides, de Ésquilo: Autocleide, notório pederasta, em dado momento encontra-se cercado não de furiosas erínias, mas de uma dúzia de heteras idosas e adormecidas. Em Mulheres que celebram as Dionísias (gr. Διονυσιάζουσαι, c. -330/-327), Timocles criou uma engraçada teoria da consolação por meio da tragédia, satirizando ao mesmo tempo os três grandes poetas trágicos (Ésquilo, Sófocles, Eurípides) e o “excessivo” valor que os intelectuais da época davam à tragédia. Como se vê pelo título, até mesmo Aristófanes e sua comédia As mulheres que celebram as Tesmofórias foram devidamente parodiados. Outro título, Amigo dos jurados (gr. Φιλοδικαστής), evoca outra comédia de Aristófanes, Vespas.

Timocles fez, também, críticas “sociais”. Em Neera (gr. Νέαιρα), um homem lamenta ter gasto muito dinheiro com uma hetera quando ela era pobre, e não conseguir encontrá-la agora, que a situação dela melhorou, e em Sátiros icários, diz que hetera Pitionice ‘recebe presentes e nunca está satisfeita’, com duplo sentido. Em Pequena Serpente (gr. Δρακόντιον), Cartas (gr. Ἐπιστολαί), Pugilista (gr. Πύκτης), Alegrando-se com a desgraça alheia (gr. Ἐπιχαιρέκακος) e em várias outras comédias, o poeta satiriza e às vezes até elogia comicamente os parasitas.

O deus egípcio Thot

Os mitos naturalmente não escaparam de sua verve e são mencionados em vários fragmentos, e.g. na comédia Dioniso (gr. Διόνυσος), que provavelmente colocava o deus no palco, e as já mencionadas Heróis e Sátiros icários. Comédias com sátiras míticas específicas são incomuns; em Egípcios (gr. Αἰγύπτιοι), no entanto, Timocles satirizou especificamente o hábito egípcio de adorar deuses com forma de animais e na comédia Conísalo (gr. Κονίσαλος ), uma divindade menor, similar ao itifálico Príapo.

Edições e traduções

Depois da editio princeps de Ateneu (Aldina, 1514), fonte de numerosos fragmentos cômicos, diversas edições reuniram testemunhos, citações e fragmentos de papiros descobertos nos últimos séculos. As edições mais antigas, como as de Meineke (Berlim, 1839/1857), Bothe (Paris, 1955), Kock (Leipzig, 1880/1888) e Edmonds (Leiden, 1957/1961) foram suplantadas pela moderna edição de Kassel e Austin (1983-   ) de todos os fragmentos cômicos.

Até onde sei, a única tradução de Timocles para o português é o fragmento que disponibilizei em Passagens selecionadas.

Notas

  1. Pólux (10.154) colocou Timocles erroneamente entre os poetas da comédia nova.
  2. As heteras (gr. sg. ἑταίρα) eram cortesãs gregas de alto nível, usualmente educadas e sofisticadas, espécie de acompanhantes que também mantinham relações sexuais com os clientes, com quem muitas vezes desenvolviam relacionamentos estáveis. As prostitutas propriamente ditas (gr. sg. πόρνη) prestavam serviços de natureza puramente sexual, avulsos e via de regra em bordéis, mas a diferença entre esse dois tipos era, às vezes, muito fluida. Havia também prostituição masculina, mas aparentemente só do segundo tipo.
    Imagem: hetera em cálice ático de figuras vermelhas. Macron, c. -490, New York, Museu Metropolitano de Arte. Marie-Lan Nguyen (2011) CC BY 2.5.
  3. Essa comédia de Timocles já foi considerada um drama satírico por causa do título e pelo fato de o poeta ter colocado sátiros em cena (Sutton, 1974, p. 121; 1985, p. 102). Ateneu (9.407d) afirma, aliás, que Timocles escreveu comédias e também tragédias; os eruditos modernos duvidam.

Referências

Dana F. Sutton, A handlist of satyr plays, Harvard Studies in Classical Philology, v. 78, 1974, p. 107-44. __________, ‘The satyr play’, in Pat E. Easterling & Bernard M.W. Knox (ed.), The Cambridge history of Classical Literature, v. 1.2 / Greek Drama, Cambridge, Cambridge University Press, 1985, p. 94-102.

Créditos das ilustrações

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Artigo nº 1137
publicado em 25/03/2017.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
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RIBEIRO JR., W.A. Timocles. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=1137. Consulta: 26/09/2017.
 
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