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Dioscorides / Materiais da medicina

Eripit interdum, modo dat medicina salutem,
quaeque iuvet, monstrat, quaeque sit herba nocens.
Ovídio Tr. 2.1.269-70 [1]

A medicina às vezes concede saúde, às vezes destrói,
mostrando qual planta é benéfica, qual é maléfica.

 
 
Violeta roxa

De materia medica (gr. Περὶ ὕλης ἰατρικῆς, herbário medicinal escrito por Dioscorides em 5 livros, descreve cerca de 1000 substâncias vegetais, animais e minerais, dentre as quais se destacam mais ou menos 600 plantas. Os verbetes trazem o nome, a descrição da planta (ou do mineral ou do animal), suas propriedades e usos terapêuticos, além de algumas recomendações quanto à coleta, preparo e conservação do material.

As informações fornecidas pelo autor são, obviamente, de natureza observacional e empírica — e de cunho eminentemente prático. Não conhecemos com precisão as fontes de Dioscorides, mas elas são provavelmente múltiplas e o autor acrescentou, sem dúvida, sua experiência pessoal (Dsc. 1 arg.). A classificação das substâncias, empírica e prática, está muito longe do que hoje denominamos sistemática ou taxinomia.

Resumo

Baseado em Sprengel (1829-1830), edição com texto grego e tradução latina em 2 volumes (com algumas obras atribuídas a Dioscorides), totalizando cerca de 800 páginas.

A julgar pelo prólogo do Livro I, Dioscorides tinha a intenção de agrupar as substâncias de acordo com suas propriedas e com o efeito terapêutico, mas a sequência de verbetes dos textos conhecidos é bastante irregular e até hoje não foi possível determinar o exato critério do arranjo final[2] (Prioreschi, 1998, p. 249). Talvez por isso, em algum momento, os copistas medievais decidiram reorganizar os livros em ordem alfabética (Cronier, 2013).

O conteúdo de cada livro é mais ou menos o seguinte:

Livro I
Proêmio: dedicatória ao amigo e médico Ário de Tarso (sæc. I), menções aos tratados similares antigos e contemporâneos. Aromáticos, óleos, unguentos, produtos de árvores e arbustos (líquidos, resinas e frutos);
Livro II
Animais, partes de animais, produtos animais, cereais e ervas de vários tipos;
Livro III
Raízes, sucos, ervas e sementes;
Livro IV
Mais raízes e ervas, em especial as venenosas e narcóticas;
Livro V
Vinho e minerais com propriedades terapêuticas.

No verbete sobre as ‘rosas’ (1.99 = gr. ῥόδα), por exemplo, Dioscorides informa que elas são refrescantes e adstringentes, e recomenda o suco das pétalas para os olhos e o emplasto, para inflamações do hipocôndrio, excesso de fluidos no estômago e erisipelas. O pó seco das pétalas, com vinho, serviria para dores de cabeça, dores de ouvido e hemorróidas; o fruto da roseira seria útil para fluxos intestinais (diarreia?) e para expectoração com sangue. Trata-se, provavelmente, da Rosa gallica (rosa vermelha).

Manuscritos e edições

Coisa rara em relação às obras escritas na Antiguidade, o texto De materia medica nunca esteve perdido, pois foi copiado e lido em grego, latim e árabe ao longo da Idade Média, sem interrupções perceptíveis. O mais antigo fragmento que chegou até nós (Dsc. 2.76.2;7-18) é o P. Mich. inv. 3 (AD 192) e o mais antigo manuscrito grego completo, em unciais e ricamente ilustrado, é o Codex Vindobonensis (AD 512), conservado na Biblioteca Estatal de Viena. Ele é também conhecido por Codex Juliana Anicia, homenagem à filha do Imperador Bizantino Anicius Olybrius (m. 472), sua primeira dona. Ele foi descoberto em Istambul pelo diplomata flamengo Ogier Ghiselin de Busbecq (1522/1592) em 1562.

Acredita-se que a obra de Dioscorides a princípio não era ilustrada e que as imagens foram acrescentadas ao texto pelo artista bizantino que ilustrou o Codex Vindobonensis. Aparentemente o ilustrador se baseou na obra Ῥιζοτομικόν, ‘Da coleta de raízes’, de Crateuas de Pérgamo (sæc. -I), médico de Mitrídates VI (-134/-63), rei do Ponto.[3] Outros manuscritos medievais de excelente qualidade estão na Biblioteca Pierpont Morgan de New York, na Biblioteca Nacional de Paris, na Biblioteca Nacional de Nápoles, na Biblioteca de São Marcos em Veneza e na Biblioteca Geral Histórica da Universidade de Salamanca, entre outras. Há, também, muitas cópias árabes conservadas em diversos museus.

O primeiro livro impresso com o De materia medica é uma obscura tradução latina datada de 1478; a editio princeps do texto grego é a de Aldus Manutius (Veneza, 1499). Nos séculos seguintes, diversas traduções latinas, espanholas, francesas, alemãs e italianas foram publicadas, além de numerosas obras derivadas ou apenas inspiradas no compêndio original de Dioscorides. Uma tradução inglesa do século XVII, no entanto, foi publicada somente em 1934.

Depois da Aldina, poucas edições gregas e muitas traduções latinas com anotações e adendos não originais foram também publicadas. Dentre as gregas, as melhores são as de Saracenus (grego e latim, 1598) e de Sprenguel (grego e latim, 1829-1830). A mais recente, a mais moderna e a mais utilizada atualmente é a de Wellmann (Berlim, 1906-1914). Não existe tradução para o português.

Outras iluminuras

 
Amora-preta selvagem.
 
Dioscorides (40/90).

Notas

  1. Encontrei essa bela citação dos Tristia de Ovídio (-43/17) no site Encyclopædia Romana, de James Grout, em outubro de 2014.
  2. Essas dificuldades lembram uma “classificação” da enciclopédia Emporio celestial de conocimientos benévolos, imaginada por Jorge Luís Borges no conto El idioma analítico de John Wilkins (Otras Inquisiciones (1937–1952), Buenos Aires, Sur, 1952). Nela, conta Borges, está escrito que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães vira-latas, (h) os que estão incluídos nesta classificação, (i) os que se agitam feito loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, (l) et cetera, (m) os que acabaram de quebrar o vaso, (n) os que de longe parecem moscas.
  3. O reino do Ponto ocupava, na Antiguidade, territórios em volta do Ponto Euxino (gr. πόντος Εὔξεινος), atual Mar Negro. No reinado de Mitrídates VI (-120/-63) sua extensão abrangia uma faixa de territórios em volta do Mar Negro, além de toda a Ásia Menor.

Referências

Marie Cronier, Dioscorides Excerpts in Simon of Genoa’s Clavis sanationis, in Barbara Zipser, Simon of Genoa’s Medical Lexicon, Berlin, De Gruyter Open, 2013, p. 79-98. URL: www.degruyter.com/view/refroduct/247622, outubro de 2014. Plinio Prioreschi, A History of Medicine, v. 3: Roman medicine, Omaha, Horatius Press, 1998, p. 238-255. Curtius Sprengel, Pedanii Dioscoridis Anazarbei De materia medica Libri Quinque, 2 v., Lipsiae, Cnoblochii, 1829-1830.

Créditos das ilustrações

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Imprenta

Artigo nº 0973
publicado em 24/10/2014.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Dioscorides / Materiais da medicina. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0973. Consulta: 12/12/2017.
 
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