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Ferécides de Siros

Φερεκύδης Σύριος Pherecydes Syrius Phil. Pherecyd. Syr.
 
Hera se desvela diante de Zeus

Uma antiga tradição informa que Ferécides de Siros (gr. Φερεκύδης Σύριος) estabeleceu uma ponte entre o pensamento mítico e a filosofia (ver Arist. Metaph. 1091b).

Plutarco (Sull. 36) e outros escritores tardios, no entanto, se referem a Ferécides apenas como ‘teólogo’ (gr. τεολόγος), mas em nossos dias creio que podemos vê-lo basicamente como um mitógrafo. Ele é ocasionalmente confundido com Ferécides de Atenas.

Biografia

Segundo Diógenes Laércio e a Suda, com base em fontes mais antigas, Ferécides nasceu na ilha de Siros, nas Cíclades, e floresceu em meados do século -VI, possivelmente em -544/-541 (59ª Olimpíada). Em outras tradições (Suid., s.v.) ele foi contemporâneo de Aliates, rei da Lídia (c. -610/560), e dos sete sábios da Grécia, e às vezes ele é até mesmo incluído entre eles. O nome de seu pai era Bábios, nome que relaciona sua família com a Ásia Menor e, talvez, com a Frígia (West, 1971). Segundo algumas tradições, Pitágoras foi seu discípulo, cuidou dele em seus últimos momentos e tratou de seu sepultamento.

Se o relacionamento entre Ferécides e Pitágoras era real, e ainda se considerarmos Pitágoras de Samos personagem histórica, a data mais antiga é a correta. Levando em conta, porém, a incerteza que cerca as datas mais remotas do Período Arcaico, seria aconselhável situarmos o florescimento de Ferécides no século -VI, somente, sem a pretensão de precisar muito em que parte do século ele desenvolveu suas atividades.

Há numerosas anedotas a seu respeito, algumas um tanto fantásticas e místicas, como a previsão de terremotos, naufrágios e vitórias militares. Esses mesmos prodígios foram, porém, igualmente atribuídos a Pitágoras. Na verdade, dispomos de poucos dados concretos a respeito de sua vida; a confiabilidade das informações de Diógenes Laércio (1.116-22) e da Suda, nossas principais fontes, é limitada.

Ferécides viveu na época em que os homens começaram a especular a respeito da origem do Universo e da natureza dos deuses e mal haviam começado o estudo da verdadeira filosofia (Smith, 1867, s.v.).

Por enquanto, é tudo que sabemos...

Obras

Ferécides pode ter sido o primeiro grego a escrever um livro em prosa, intitulado Os Sete Recessos (gr. Ἑπτάμυχος). Nessa obra ele escreveu sobre a natureza e sobre a gênese e sucessão dos deuses — uma espécie de teogonia, portanto, o mesmo tema da Teogonia de Hesíodo.

Segundo Ferécides, Zás (= Zeus), Chronos (gr. Χρόνος, Tempo)[2] e Ctônia (= Gaia / Hera) existiram sempre (cf. Heraclit. F 30) e foram os três primeiros princípios (Dam. Pr. 1.321) do Universo. Mais adiante, houve um casamento sagrado entre Zás e Ctônia, quando Zás se transformou em Eros e, pela primeira vez, retirou o véu da noiva (gr. ἀνακαλυπτήρια), costume adotado posteriormente pelos noivos gregos em seu casamento. Há também referência à luta entre Chronos, Ofioneu (um deus-serpente) e seus respectivos adeptos, sem dúvida equivalente à de Zeus e Tífon, mas cujos resultados lembram o da titanomaquia, em que os deuses vencedores ocuparam o céu.

O que torna a teogonia de Ferécides diferente da de Hesíodo? Acredita-se que Ferécides, ao contrário do poeta, apresentou uma história do Universo que implica na racionalização de algumas antigas divindades gregas; os deuses em seu livro seriam, portanto, simples alegorias (Clem. Al. Strom. 6.6.53). Nessa linha de raciocínio nota-se que, assim como Parmênides, Ferécides não defendia a criação do Universo a partir do nada (lat. ex nihilo); ele propunha uma espécie de auto-criação e insistia na natureza eterna dos três primeiros princípios universais (ver Pl. Sph. 242c-d).

Segundo testemunhos tardios (Suid., s.v.), Ferécides foi também o primeiro a ensinar a metempsicose (gr. μετεμψύχωσις ), a transmigração da alma de um corpo para outro no momento da morte. Cícero (Tusc. 16) posteriormente interpretou esse dado como uma defesa da imortalidade da alma.

Ferécides também construiu um relógio de sol em Siros — assim como os filósofos pré-socráticos, ele dispunha de sabedoria prática e tinha, portanto, um pouco de cientista...

Controvérsias

O papel intermediário de Ferécides entre o pensamento mítico e o pensamento filosófico não é aceito por todos. Geoffrey S. Kirk et al. (41994), na esteira de Aristóteles (Metaph. 1091b), reconhecem o caráter misto da contribuição de Ferécides; Jonathan Barnes (1997), por outro lado, sustenta que os fragmentos sobreviventes são de natureza puramente mítica e não permitem essa interpretação.

O ponto central da controvérsia, creio, é justamente a questão apontadada por Barnes: os fragmentos de Ferécides e os testemunhos antigos que chegaram até nós. Atribuir o papel de transição entre o mito e a filosofia a Ferécides de Siros, com base estrita nos fragmentos conhecidos é, sem dúvida, um pouco exagerado; mas, e quanto aos fragmentos e aos testemunhos que não conhecemos, mas que Aristóteles certamente conhecia? Ele não era infalível, mas a opinião de um homem dessa estatura intelectual não pode ser descartada sem mais nem menos.

Há poucas dúvidas, no entanto, de que Ferécides escreveu em prosa sobre temas que em nossos dias são considerados eminentemente mitológicos.

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