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Eros e Psiquê

 
Amore e Psiche (Eros e Psiquê)

O mito de Eros (lat. Cupido) e Psiquê é uma espécie de conto de fadas. Embora envolva um personagem mítico grego, há somente uma fonte latina.

‘Havia em certa cidade um rei e uma rainha; eles tinham três filhas de notável beleza’ (Apuleio, Asno de Ouro 4.28). A mais jovem, Psiquê (gr. Ψυχή), era tão formosa que o povo da cidade e até os estrangeiros a adoravam mais do que a própria Afrodite; adoravam-na, mas ninguém a pedia em casamento.

A deusa Afrodite, ao ver seus templos e santuários se esvaziarem, decidiu vingar-se e encarregou seu filho Eros (gr. Ἔρως) de fazer Psiquê se apaixonar “pelo mais abjeto dos homens”. O rei, pouco depois, foi informado pelo oráculo de Apolo que a filha estava destinada a desposar um “monstro cruel como uma serpente, que voa pelos ares e não poupa ninguém” e que tinha de abandoná-la no alto de um rochedo.

Entristecido, o rei obedeceu ao comando divino; ninguém viu Zéfiro, o suave vento oeste, levar a jovem até um suntuoso palácio de ouro, marfim e pedras preciosas onde serviçais invisíveis atendiam seus menores desejos. À noite, em meio à total escuridão que não permitia enxergar nada, foi consumado o casamento de Psiquê com o impiedoso monstro da profecia — o próprio Eros, que se apaixonara por ela...

Embora nunca visse o marido e nem mesmo soubesse seu nome, Psiquê viveu feliz por muito tempo. Acabou, porém, sentindo saudades da família; implorou ao marido permissão para revê-la e o deus consentiu, a contragosto. Avisou-a, porém, várias vezes, para jamais revelar nada a ninguém e que nunca tentasse ver-lhe o rosto, sob pena de perder o marido para sempre.

Mas, enciumadas pela evidente felicidade de Psiquê e impressionadas pelos ricos presentes que ela lhes trouxera, as duas irmãs mais velhas convenceram-na a contar tudo e incutiram-lhe a ideia de que somente um monstro horrendo evitaria mostrar o rosto à própria esposa. À noite, já de volta, Psiquê esperou o marido adormecer e acendeu um candeeiro; sua mão, porém, tremeu ao reconhecer o deus e uma gota de óleo fervente caiu sobre ele, acordando-o. Ao se ver descoberto, Eros levantou vôo e disse à esposa que ela nunca mais o veria.

Fora de si, Psiquê primeiro tentou se afogar, mas o rio jogou-a de volta à margem; depois, desesperada, começou a andar de cidade em cidade, à procura do marido. Encontrou várias divindades em sua peregrinação (, Deméter, Hera) e, por fim, chegou ao palácio de Afrodite. A deusa, ainda enciumada e enraivecida (havia sido enganada pelo próprio filho), humilhou-a e tratou-a pior que a última de suas escravas. Encarregou-a, ainda, de quatro tarefas impossíveis (na última, tinha até de visitar o Hades), mas as próprias forças da natureza ajudaram Psiquê a cumprí-las.

Eros, enquanto isso, conseguira obter o inestimável auxílio de Zeus. O pai dos deuses interferiu na questão com divina simplicidade: transformou Psiquê em deusa e avisou todos os deuses que aprovava o casamento dela com Eros. Assim, finalmente, tudo se resolveu: os dois amantes ficaram unidos por toda a eternidade e Afrodite voltou a receber as devidas homenagens.

Apuleio, Asno de Ouro livros IV-VI passim.