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O Minoico Médio

 
Casa do Minoico Médio

Entre -2000 e -1700, nos começos do Minoico Médio, os dois principais núcleos minoicos localizavam-se em Cnossos, ao norte, e em Festos, ao sul. Nesses dois centros urbanos e também em Mália e Zakros, possivelmente, havia construções complexas e extensas, com grande quantidade de salas, convencionalmente chamadas de palácios.

Fato inédito na Antiguidade, não havia fortificações e os edifícios do palácio se abriam para a paisagem, em contiguidade direta com as casas e ruas da cidade.

Palácios e aldeias

O palácio era, na realidade, uma aglutinação irregular de vários grupos de salas com a mesma função, dispostas em volta de um grande pátio central, retangular, com 50 X 28 metros (em média), além de outra área também retangular, localizada na parte externa e acessível por uma escadaria baixa, apelidada de teatro. Os cômodos eram usados basicamente para armazenagem, para controle administrativo, para fins residenciais e ainda para atividades religiosas. Aparentemente, os cretenses se inspiraram em palácios asiáticos[1] contemporâneos, adaptando, porém, as pesadas construções orientais ao seu estilo e às suas necessidades.

A partir de -2000, houve grande incremento de população e as aldeias aumentaram progressivamenteo em tamanho e número. O plano dos povoamentos era, provavelmente, ainda semelhante ao de Fournou Korifi (-2500/-2200); as casas, porém, eram maiores e mais confortáveis. Havia em toda a ilha construções com múltiplos quartos retangulares, mas sem o tamanho e a complexidade dos palácios e às vezes distantes das aldeias ("casas de campo"). As paredes externas eram construídas com tijolos, pedregulhos, vigas de madeira e — pela primeira vez no Egeu — pedras talhadas. Um modelo de argila encontrado em Arcanes e datado de -1700/-1600 mostra como era o arranjo interno de uma casa com mais de um pavimento.

Fig. 0166. Localização dos palácios minoicos.

Os primeiros palácios de Cnossos e Festos, assim como as grandes construções de Mália e Zakro, foram totalmente destruídos em -1700 por um grande terremoto e reconstruídos de modo ainda mais magnificente. Data dessa ocasião, provavelmente, a reunião das edificações palacianas mais ou menos isoladas em um único complexo, a construção de novos palácios, o acréscimo de fachadas monumentais com colunas de madeira, a decoração das paredes com afrescos[2] e a construção de pequenos pátios entre os cômodos para permitir a entrada de ar e luz (poços de luz).

Os palácios de Zakro, de Gálatas e de Petras são mais recentes e menores. Havia ainda, provavelmente, um palácio em Monastiraki, este último o mais recente de todos, construído no final do Minoico Medio (-1600/–1550). Cânia e Arcanes têm estruturas arquitetônicas complexas que podem também ter sido palácios.

Arte

As paredes das casas maiores e dos palácios eram comumente rebocadas e pintadas. A partir de -1700, começaram a ser decoradas com desenhos geométricos coloridos e cenas naturalistas. Os afrescos que chegaram até nós são em sua maior parte posteriores a -1550; um dos mais antigos, que talvez remonte a -1700/-1600, é o famoso Colhedor de Açafrão.

Os vasos de cerâmica já eram, em sua maioria, fabricados na roda de oleiro e decorados no estilo Kamares. Além de jarros de diversos tamanhos, confeccionavam-se as famosas taças "casca de ovo", assim chamadas devido à sua finíssima borda. Entre -1700/-1550, os motivos naturalistas (animais marinhos, árvores e flores) começaram a se tornar comuns na decoração.

Pequenas estatuetas de terracota pintada, representando homens e animais com traços esquematizados, eram muito comuns. As estatuetas femininas de faiança, altamente naturalistas e cuidadosamente modeladas e pintadas, estão entre as mais perfeitas obras da arte minoica. A riqueza e a qualidade das joias aumentaram bastante e técnicas já conhecidas na Mesopotâmia e Egito, como a granulação, a filigrana e a inscrustação (cloisonné) começaram a ser empregadas pelos artesãos.

A gravação de selos, sinetes e anéis teve igualmente substancial avanço. A broca e a roda de gravador possibilitaram a utilização da técnica em pedras duras, como o cristal de rocha, a ametista e a calcedônia, ou em metais, como o ouro e o bronze. Havia grande variedade de formatos (lentóides, cilíndricos, amigdalóides, etc.) e de temas (animais, vegetais, divindades, objetos, hieróglifos, etc.).

A escrita minoica

Em Creta foram utilizadas as duas mais antigas escritas da Europa. A primeira, denominada hieroglífica, é do tipo pictográfico e foi utilizada em sinetes e vasos entre -1900 e -1550. A segunda, conhecida por Linear A, é do tipo silábico e foi encontrada de -1700 em diante em tabuinhas de argila, em vasos e em outros objetos de pedra ou de metal.

A Linear A, possivelmente, se desenvolveu a partir da simplificação da escrita hieroglífica. Embora nenhuma das duas tenha sido decifrada até o momento, já foi possível verificar que a linguagem empregada não era o grego. Tratava-se, sem dúvida, da língua minoica, não decifrada até o momento.

Não sabemos exatamente que nome os minoicos davam a si próprios[3]. Nos registros de Mari (Mesopotâmia), de onde os cretenses importavam estanho desde -1800/-1700, a ilha era chamada de Caphtor; uma referência egípcia mais tardia chama a ilha de Keftiu.

A julgar pelas representações artísticas em selos e outras obras de arte, já descontada a idealização habitual, os cretenses do Bronze Médio eram fisicamente semelhantes aos de hoje: esguios, pele clara, cabelos e olhos escuros. A altura média dos homens era de 1,68 metros, praticamente a mesma dos de hoje.

Economia

A ilha tinha grandes rebanhos, principalmente de ovelhas, e a área de cultivo era, com certeza, extensa. Com a crescente prosperidade, tornou-se necessário importar matéria-prima (ouro, cobre, estanho, pedras duras, etc.), e bem cedo começou também a exportação de vasos e outros produtos de artesanato. A cerâmica Kamares, por exemplo, foi encontrada na Grécia, nas Cíclades, na Síria e no Egito.

A prosperidade dos minoicos logo se tornou, sem dúvida, dependente do mar. Em -2000 já havia um entreposto minoico na ilha de Citera, na costa do Peloponeso, e desde -1650/-1500 em Ceos, nas Cíclades, e é possível que pelo menos nas Cíclades outros existissem. A falta de controle egípcio sobre o Mediterrâneo (época dos Hicsos, -1720/-1580) deve ter possibilitado aos ágeis navios minoicos um pacífico predomínio nas rotas marítimas mais importantes do Egeu.

A construção dos palácios mostra que profundas alterações sociais e políticas ocorreram após o Bronze Antigo. Como havia mais de um palácio, é possível que a princípio, pelo menos, o poder estava disperso entre várias chefias regionais. A finalidade dos palácios, sem dúvida, era tanto residencial como administrativa, o que se comprova pela enorme quantidade de selos, vasos com hieróglifos e tabuinhas com a Linear A encontrados pelos arqueólogos nas suas dependências. As casas mais luxuosas das povoações eram possivelmente ocupadas por aristocráticos chefes locais, hierarquicamente inferiores aos chefes regionais, ou talvez por uma elite de proprietários de terra e de comerciantes mais ou menos independentes.

A falta de fortificações e a raridade das armas entre os achados arqueológicos sugerem que não havia guerra entre as regiões da ilha, e que a vastidão da água que a circundava era, possivelmente, barreira suficiente contra invasores. Existiria talvez uma autoridade suprema? No Oriente, eram as teocracias que mantinham a escrita em tabuinhas; seria então o chefe minoico um rei-sacerdote? Os gregos do século -V acreditavam que um mítico rei Minos, que vivia em Cnossos, havia vencido seus irmãos e dominado a ilha. Será que o mito reflete o fato de o senhor de Cnossos ter adquirido hegemonia sobre toda a ilha?

Várias perguntas e nenhuma resposta definitiva à vista...

Religião

Os cultos religiosos eram ainda realizados em grutas, como no Minoico Antigo, no alto das montanhas e nos palácios, em pequenas salas. É possível que nos pátios centrais e nos teatros se praticasse algum tipo de cerimônia; mas essas áreas podem ter servido igualmente para reuniões de caráter puramente secular (proclamações? assembleias?). No Monte Iuktas, próximo de Cnossos, um imponente santuário contendo terraços e um altar com degraus foi construído entre -1700 e -1550.

Os rituais envolviam notadamente oferendas votivas à deusa-mãe, senhora dos animais, que representava a fertilidade da natureza desde o Paleolítico. Há também evidências do sacrifício de cervos, bois e cabras, mas somente nas cavernas.

Quanto aos costumes funerários, persistiu o sepultamento individual em ataúdes de terracota ou de pedra (lárnaces), notadamente na parte central e oriental da ilha, ou em grandes vasos (pitos) — o tipo mais comum —, na região norte e oriental. Em alguns cemitérios e grutas havia enormes agrupamentos de pitos, assim como nos túmulos coletivos de pedra tipo tolo[4] construídos na região centro-sul.

Outras iluminuras

 
O mégaro de Sesklo.
 
O palácio de Mália.
In situ
 
O antigo palácio de Festos.
In situ
 
O palácio de Kato Zakros.
In situ
 
Fachadas de casas minoicas.
 
Escrita minoica hieroglífica.
 
Escrita linear A minoica.
 
O colhedor de açafrão.
 
Vaso minoico com decoração policrômica.
 
Divindades ? minoicas com serpentes.
 
Joia minoica com abelhas.
 
Navio minoico.
 
Sepultura minoica.
In situ

Notas

  1. Compara-se, habitualmente, a planta dos palácios cretenses do Minoico Médio (-2000/-1550) à do palácio queimado de Beycesultan, Anatólia (-1900/-1800), e ao palácio de Zimri-lim em Mari, Mesopotâmia (-1782/-1759). Nos palácios orientais, geralmente, o prédio abrigava as salas do sistema administrativo, cozinhas, armazéns e as residências do governante, funcionários, servos, guardas, artesãos e respectivas famílias.
  2. Afrescos são pinturas em geral de grande tamanho efetuadas sobre a argamassa ainda fresca das paredes, de modo que a tinta fica integrada à parede. Na Grécia, os afrescos mais antigos datam do fim do século -XV.
    Imagem: afresco minoicoIluminura 0267.
  3. O inglês Arthur Evans (1851/1941), primeiro arqueólogo a escavar sistematicamente o palácio de Cnossos, em Creta (1900), cunhou vários termos utilizados correntemente em Arqueologia e História Antiga. O adjetivo “minoico”, por exemplo, deriva de Minos, nome do rei de Cnossos associado à lenda ateniense do minotauro. Mais informações → Sir Arthur Evans.
    Imagem: detalhe de óleo sobre tela de William Richmond (1907). Oxford, Ashmolean Museum. Zdeněk Kratochvíl, CC BY-SA 4.0.
  4. Na Antiguidade Clássica, o tolo (lê-se tólo), do gr. θόλος (pl. θόλοι, lat. sg. tholu), era um edifício circular, às vezes cercado de colunas e utilizado como templo; os arqueólogos, no entanto, usam esse termo para designar estruturas circulares com abóbada. Nas antigas culturas do Mediterrâneo e do Oriente Médio a base das paredes era geralmente de pedra, e ainda há muita discussão quanto à técnica empregada na construção da abóbada. As mais antigas edificações com esse formato são, aparentemente, as da Ásia Ocidental (exemplo ao lado). Em tempo: a forma transliterada tholos deve ser abandonada em favor da forma “tolo”, já dicionarizada (cf. Aurélio s.v.).
    Imagem: Arpachiyah, Turquia, -5000/-4000, planta (E) e reconstituição (D). Esboço de Wilson A. Ribeiro Jr., CC BY-NC-ND 4.0.

Créditos das ilustrações

i0490Casa do Minoico Médio → Ver comentários.
0166Contorno: “Fut.Perf.”, 2009. Dados: Wilson A. Ribeiro Jr., 2017. Fonte: Wikimedia Commons/ Domínio público.
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i0489O palácio de Kato Zakros → Ver comentários.
i0499Fachadas de casas minoicas → Ver comentários.
i1067Escrita minoica hieroglífica → Ver comentários.
i0183Escrita linear A minoica → Ver comentários.
i0113O colhedor de açafrão → Ver comentários.
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i0247Joia minoica com abelhas → Ver comentários.
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Artigo nº 0394
publicado em 27/07/2001.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. O Minoico Médio. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0394. Consulta: 17/12/2017.
 
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