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a principio ad anno domini 529

Platão / Íon

0982
Um rapsodo, início do sæc. -V.

INITon (gr. Ἴων) pertence ao primeiro grupo dos diálogos de Platão e relata a conversa entre Sócrates e Íon de Éfeso, um rapsodo muito conhecido em Atenas. Não sabemos a data exata da composição, mas a partir de diversas informações contidas no texto é possível situá-la entre -394 e -391.

Os rapsodos

Os rapsodos, ao contrário dos aedos, declamavam e recitavam versos que não eram de sua própria autoria nos concursos das numerosas festas e solenidades religiosas das póleis gregas.

Sua atuação era frequentemente comparada à dos atores: empunhando uma espécie de bastão, o rábdos, com roupas coloridas e chamativas e uma coroa de ouro na cabeça, subiam a uma pequena plataforma e declamavam. Recorriam com liberalidade à mímica durante a apresentação e, habitualmente, não havia acompanhamento musical.

Embora declamassem obras de vários poetas, as epopéias homéricas constituíam o repertório principal dos rapsodos.

Resumo do diálogo

O diálogo, bastante curto perto dos demais, ocupa apenas 19 páginas da edição de Méridier (1931), na qual se baseia este resumo. Os dois únicos personagens são Sócrates e Íon de Éfeso.

Íon, recém-chegado a Atenas, conta a Sócrates que acabara de vencer o concurso do festival de Asclépio em Epidauro e se gaba de sua capacidade de declamar e comentar os poemas homéricos. Depois de cumprimentar o rapsodo, Sócrates começa a interrogá-lo (530a-531a).

O filósofo, inicialmente, comenta a afirmação do rapsodo de que seu talento se aplica somente a Homero. Após apresentar seus argumentos, conclui que Íon deveria ser igualmente hábil em todos os poetas que, em suas obras, falam dos mesmos assuntos. Íon, porém, conta que os demais poetas lhe dão sono (531a-532c). Sócrates, então, começa a desenvolver o argumento principal, o de que não existe a arte (τέχνη) do rapsodo.

Após mencionar artes como a da pintura, da escultura e da música, afirma que é a inspiração divina que produz as obras dos bons poetas épicos e líricos (532c-536d), e demonstra que as artes são independentes umas das outras. Íon, teimosamente, diz que o rapsodo que conhece Homero conhece as artes mais nobres, como a de dirigir exércitos, mas não a do pescador, do cocheiro, do médico e outras mencionadas por Sócrates (536e-540b). Sócrates aprofunda seus argumentos, e concede a Íon a decisão final; o próprio Íon reconhece, finalmente, que sua atuação se dá por inspiração divina (540b-542b).

Manuscritos, edições e traduções

Os principais manuscritos que contêm o Íon são o "T" (Cod. Venetus app. class. 4, sæc. XI-XII), da Biblioteca de São Marcos, Veneza, o "W" (Cod. Vindobonensis 54, sæc. XII) e o "F" (Cod. Vindobonensis 55, sæc. XIV), ambos da Österreichischen Nationalbibliothek de Viena.

A edição moderna mais importante, embora não tenha sido a primeira, é a de Henri Estienne ("Henricus Stephanus"), impressor do rei Henrique III, datada de 1578 e publicada em Genebra. Há muitas edições excelentes de todos os diálogos de Platão, como por exemplo as de Stallbaum (1827/1877), Hermann (1873/1874), Burnet (1901), Fowler (1921/1925) e Lamb (1925). Aqui, foi utilizada a edição de Louis Méridier (1931).

Em português, os diálogos socráticos foram traduzidos por Manuel Aleixo Duarte Machado em 1832. O Íon, isoladamente, foi traduzido por Jabouille (1988), por Murachco (1991) e por André Malta (2007).

Leitura complementar    br   pt

V. Jabouille, Platão. Íon. Mem Martins: Inquérito, 1988.

A. Malta, Platão. Sobre a inspiração poética (Íon) & Sobre a mentira (Hípias Menor). Porto Alegre, L&PM Pocket, 2007.

Henrique G. Murachco, Íon, Platão. Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 5-6, n. 10-11, p. 97-113, 1991.

Referências e bibliografia
L. Méridier, Platon. Oeuvres complètes, t. V, 1e partie. Paris, Les Belles Lettres, 1931.
s consulte também a bibliografia geral da área