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O grego clássico

 
Trecho do Contra Ctesifonte, de Ésquines

O dialeto ático, falado em Atenas entre -500 e -300 e também chamado de grego clássico, deriva do antigo dialeto iônico e foi utilizado por alguns dos mais importantes autores gregos, dentre eles Tucídides, Eurípides, Platão e Demóstenes.

Do ático emergiu a ‘língua comum’ (gr. κοινὴ διάλεκτος, D.H. Isoc. 2), falada pelos gregos e pelos reinos helenizados durante o Período Helenístico, da qual evoluiu o grego moderno.

Letras e sons

O alfabeto grego básico com suas consoantes, vogais e ditongos é o mesmo para todos os dialetos, uma vez que a tradição que transmitiu os textos gregos da Antiguidade até o presente unificou a escrita.

Mesmo assim, o dialeto ático tem algumas pequenas particularidades e as mais notáveis são a frequente troca do -η- iônico pelo -α-, as contrações vocálicas e o acento nas sílabas finais.

E.g. no dialeto iônico temos σοφίη, ‘sabedoria’ e no dialeto ático, σοφία.

Forma das palavras

Assim como o português e demais línguas neolatinas, o grego é uma língua indo-europeia do tipo flexional, i.e., as terminações das palavras variáveis mudam de acordo com a função sintática.

O significado básico das palavras indo-europeias está contido na raiz, geralmente modificada por afixos (prefixos, sufixos, etc.) que especificam o sentido da raiz. O conjunto da raiz e seus afixos é o radical; o resto da palavra é formado pelas desinências, que variam conforme a flexão.

E.g. para a raiz grega do- (gr. δο-) temos as formas verbais dí-do-mi (gr. δίδωμι), ‘eu dou’, dó-so (gr. δόσω), ‘eu darei’, e o substantivo dó-ron (gr. δώρον), ‘dom’ ou ‘presente’.

As palavras variáveis são os substantivos, adjetivos, pronomes, artigos, numerais e verbos. A flexão verbal refere-se somente aos verbos, e a flexão nominal às demais classes de palavras. Aos verbos conjuga-se, e aos nomes declina-se.

A flexão verbal exprime noções referentes à ação:

  • voz: ativa, passiva, média
  • modo: indicativo, subjuntivo, optativo, imperativo, infinitivo, particípio
  • aspecto: durativo, pontual, perfectivo
  • momento temporal: presente, passado, futuro
  • pessoa do discurso: 1ª, 2ª, 3ª
  • número: singular, plural, dual

A flexão nominal exprime noções referentes à caracterização de seres e coisas:

  • gênero: masculino, feminino e neutro
  • número: singular, plural, dual
  • caso: nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo

As partículas são palavras invariáveis de múltiplas funções: advérbios, preposições, conjunções, interjeições, etc. Algumas partículas exprimem certas nuances da fala que são intraduzíveis.

Algumas características da língua

Destacam-se, dentre os conceitos estruturais do grego antigo estranhos às línguas modernas, a voz média, o modo optativo, o aspecto verbal, o dual e os casos.

Voz média
Exprime ação que o sujeito pratica particularmente interessado em seu efeito, ou em seu próprio interesse.

e.g. αἱρέω, ‘eu tomo’ (voz ativa); αἱρέομαι, ‘eu escolho’ (voz média), i.e., ‘eu pego de acordo com o meu interesse’

Modo optativo
Exprime, entre outras coisas, a eventualidade, i.e., ação passível de ocorrer no futuro, ou um lamento.

e.g. εἴθε μὴ εἴης δυστυχής, ‘oxalá não sejas infeliz’; εἴθε ἔζη, ‘oxalá ele estivesse vivo’.

Aspecto
Os aspectos imperfectivo, aoristo e perfectivo refletem a duração e o grau de acabamento da ação expressa pelo verbo.

O imperfectivo apresenta a ação como um processo, durante seu desenvolvimento (aspecto durativo):

e.g. ὁρῶ τὴν οἰκίαν, ‘eu vejo a casa’ (i.e., comecei a ver e ainda estou vendo)


O aoristo exprime ação pura e simples, sem duração ou acabamento (aspecto zero, momentâneo ou pontual):   ·

e.g. ἐδούλευσα, ‘tornei-me escravo’ (i.e., em certo momento não especificado do passado fui reduzido à escravidão).


O perfectivo apresenta o resultado de um processo acabado (aspecto resultativo):

e.g. τέθαπται, ‘ele está enterrado’ (i.e., agora já acabaram de enterrá-lo)

Dual
Refere-se a um par de coisas.

e.g. τὼ ὁδώ, ‘os dois caminhos’

Casos
As desinências apostas ao radical básico indicam, além do gênero e do número do substantivo, o caso, i.e., a função sintática da palavra nas frases.

Basicamente, o nominativo é o caso do sujeito; o acusativo marca a extensão no tempo e no espaço; o dativo, a atribuição ; o genitivo, a origem. Acusativo, dativo e genitivo podem ser complementos verbais ou complementos nominais.


Observar algumas das diferentes formas que a palavra "discurso", cujo radical é λογο-, pode assumir em função da desinência:

• radical + -ς- > λόγος (função: sujeito);
• radical + -ν- > λόγον (função: acusativo).

A língua portuguesa conservou rarísssimos vestígios dessas antigas estruturas linguísticas. A palavra "ambos", por exemplo, evoluiu a partir de um antigo dual latino.

Leitura complementar brpt

Nélio Schneider, Isso é grego para mim, São Leopoldo, Unisinos, 2006.

Créditos das ilustrações

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Artigo nº 0156
publicado em 21/04/1999.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. O grego clássico. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0156. Consulta: 30/05/2017.
 
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