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Por que estudar as culturas antigas?

Bill Hemminger
Traduzido do original inglês, © 1997-2002 Exploring Ancient World Cultures, University of Evansville.
 
 
Arado egípcio

A pergunta que inicia este programa é ampla: Por que estudar culturas antigas? Você pode sentir que a pergunta é discutível: estudantes estudam e estudarão culturas antigas; tal estudo é esperado como parte de uma tradição de desenvolvimento intelectual. A resposta ao por que da pergunta inicial é que se trata de uma questão de tradição, se não de um fato. Um estudo do IMPÉRIO ROMANO, uma leitura sobre filosofia e literatura grega , um olhar às PIRÂMIDES DE EGITO — tudo isso é aceito como parte de uma educação Ocidental, não é?

Provavelmente, sim: mesmo hoje, com a pluralidade de abordagens ao estudo da história e ao estudo das culturas, as pessoas falam a respeito de Platão ou DANTE ou Krishna ou Maomé. Mas há uma cláusula importante: como você aborda culturas antigas (ou qualquer outra cultura, em relação a este assunto) e como você vê as pessoas de mundos tão distantes é de suprema importância. Neste ponto, você faz a si mesmo estas duas perguntas adicionais: nós estudamos essas culturas por que, em certa extensão, todas as culturas compartilham certas características? Será que nossa própria cultura reflete aspectos dessas outras culturas?

A resposta à primeira das duas pergundas tem sido encontrada historicamente em uma discussão sobre universalidade. Considere, por um momento, o caso de Arjuna no Bhagavad Gîtâ[1]. Você pode muito bem perguntar como a batalha que Arjuna adia, imóvel em sua carruagem, se relaciona, por exemplo, com as batalhas contemporâneas da Segunda Guerra Mundial. Convencido de que seus parentes só morrerão nesta vida para renascer em outra, Arjuna pode então permitir, relutante, que a carnificina comece. Tal escolha, por outro lado, não foi seguida por Schindler (mostrado no filme de Spielberg A Lista de Schlindler), cuja intervenção em benefício dos judeus salvou muita gente nesta vida. O perigo de procurar coisas universais, portanto, consiste em reformular outros pontos de vista possivelmente estranhos para ajustar o nosso. Precisamos sempre nos resguardar da suposição de que outras pessoas pensam como nós — ou deveriam pensar. Arjuna fala dentro do contexto de sua cultura; Schindler age dentro dos limites de outra.

As diferenças entre as culturas têm, aqui, um grande interesse, e ler a respeito de culturas antigas é ler a respeito de outras pessoas cujas vidas eram, certamente, diferentes das nossas. A organização social da ATENAS de Sócrates — onde um homem manco podia ficar interrogando os cidadãos à vontade — difere profundamente, no mundo de hoje, do assédio por meio da mídia através do qual as pessoas raramente chegam a ver ou, literalmente, ouvir seus críticos. Como podemos, hoje, entender a psicologia dos milhares de trabalhadores egípcios que, aparentemente sem questionar, passavam a vida arrastando grandes blocos de pedra sobre areias escaldantes para a construção de desconcertantes edifícios piramidais cujo término levou o tempo de muitas vidas? É interessante que essas diferenças possam nos ajudar a ver melhor — e conhecer — os limites de nossa cultura e os limites da nossa linguagem e da nossa experiência.

O problema com a segunda pergunta reside em sua formulação. O que é, afinal de contas, uma cultura? Este artigo e este programa prosseguem a partir da suposição de que existe algum tipo de definição para a palavra cultura. A maioria das pessoas atribui um valor abstrato à cultura — aquilo que produz boa arte, grande literatura, comportamento correto, etc. No entanto os critérios de qualidade são escassamente internacionais ou inter-culturais: uma reverenciada obra "clássica" na cítara resiste à comparação com uma sinfonia de Mozart baseada na afirmação de que ambas são consideradas grandes realizações culturais no contexto de suas culturas específicas. Será então a cultura alguma coisa que pode ser ensinada, ou suas partes constituintes são mais arrebatadoras e penetrantes do que aquilo que pode ser aprendido a partir de livros ou aulas? Respostas a esta segunda pergunta existem já na forma de cânones e listas de leitura, apesar de que hoje há muita discussão a respeito do que compõe essas listas de leitura e a respeito de suposições quanto ao que deveria ou não deveria ser apropriado a esse tipo de lista.

Muitas pessoas gostariam de imaginar a história como uma sucessão de movimentos ou estágios em uma progressiva (e, geralmente) sempre aperfeiçoada novela da vida humana. Para essas pessoas, o Romantismo é um período definível, suas dádivas ao espírito humano são calculáveis. Mas como pode uma cultura falar por todos os seus praticantes? Todas as pessoas têm a mesma participação na cultura da qual são uma parte? É precisamente por que AKHENATON escolheu resistir ao panteísmo que caracterizou o Egito faraônico antes e depois do seu breve reinado e instituiu um monoteísmo qualificado que ele é lembrado (e magicamente, também, em uma ópera contemporânea de Philip Glass). Assim, uma cultura inclui tanto a tradição dominante como sua transgressão.

Ao começar seu estudo das culturas antigas você poderá querer recordar essas perguntas enquanto modela para si mesmo um significado para o termo cultura. No processo, tente não medir os outros pelo seu próprio padrão cultural que, de muitos modos, formou você e sua compreensão do mundo. Ao invés disso tente, por um momento, ver a resplandecente cena de batalha com os olhos de Arjuna.

Notas

  1. O Bhagavadgītā (sânscrito भगवद्गीता, ‘Canção do Venerável’) é apenas um dos episódios do 6º livro do Mahābhārata, extenso poema épico indiano. O texto tem 700 versos e possivelmente data, em sua forma atual, do século -II. O tema da epopeia é a luta fratricida entre os káuravas e os pândavas, dois importantes clãs guerreiros aparentados, que acabou envolvendo todos os guerreiros indianos. O deus Kṛṣṇa tem papel importante no desenrolar da história, assim como Arjuna, um dos pândavas. Arjuna se prepara para conduzir suas forças à batalha, mas hesita, sabendo que terá de enfrentar e matar seus próprios parentes. A fala de Krishna, encarnado como condutor de seu carro de guerra, compõe o episódio em questão. Mais informações → Wikipedia: Bhagavad Gita.
    Há uma tradução portuguesa do original em sânscrito: Carlos Alberto da Fonseca, Canção do Venerável, S. Paulo, Globo, 2009.

Referências

Bill Hemminger, Why Study Ancient World Cultures?, disponível em eawc.evansville.edu [site desativado], consultado em junho de 1997.

Créditos das ilustrações

i0050Arado egípcio → Ver comentários.

Imprenta

Artigo nº 0055
publicado em 19/05/1998. Atualização: 25/08/2002.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Por que estudar as culturas antigas?. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=0055. Consulta: 24/10/2017.
 
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